Capítulo 2 – Primeiro Encontro

1493 Palavras
A manhã seguinte chegou trazendo consigo uma sensação sufocante de inevitabilidade. Ainda deitada na cama, olhou para o teto, tentando processar tudo. Enzo Vasconcellos. O nome dele parecia ecoar na sua cabeça como uma ameaça. Um homem imponente, de olhar penetrante e presença avassaladora. Ele não parecia surpreso com o acordo, muito menos incomodado. Pelo contrário. Parecia perfeitamente confortável com a ideia de possuí-la. Helena estremeceu. O pior de tudo era a forma como seu corpo reagia a ele. O modo como a sua pele formigava sob o olhar dele, como se estivesse sendo tocada sem que ele precisasse encostar um dedo nela. Aquilo a enfurecia tanto quanto a assustava. Respirando fundo, levantou-se e vestiu um conjunto de lingerie rendado, seguido por uma saia lápis preta e uma blusa branca de seda. O tecido fino se moldava às suas curvas, algo que sempre usava como um escudo. Se o mundo queria vê-la como uma mulher frágil, ela mostraria exatamente o oposto. Ela não seria um joguete nas mãos de Enzo. Quando desceu as escadas da mansão, os empregados desviaram o olhar rapidamente. Todos sabiam o que estava prestes a acontecer. Ela entrou no escritório do seu pai sem bater. — Eu não vou casar com ele. Ele m*l ergueu os olhos dos documentos sobre a mesa. — Já está decidido, Helena. — Eu não sou uma mercadoria! Dessa vez, ele levantou o olhar e a sua expressão endureceu. — Você acha que esse casamento é apenas sobre você? Há muito mais em jogo. Essa união não é apenas um capricho meu. É uma necessidade. Helena sentiu a frustração crescer. — Isso é injusto! — A vida é injusta, minha filha. Agora vá se arrumar. Enzo já está à sua espera. O seu estômago se revirou. — O quê? Seu pai indicou a porta com um movimento de cabeça. — Ele está na sala de jantar. Vá encontrá-lo. Helena quis gritar, quis quebrar algo, mas sabia que nada disso mudaria a sua situação. Com a cabeça erguida, girou nos calcanhares e caminhou até a sala de jantar. A cada passo que dava, sentia o coração bater mais forte. Assim que cruzou a porta, os seus olhos encontraram Enzo. Ele estava sentado à mesa de mármore n***o, uma xícara de café entre os dedos. Vestia um terno impecável, mas sem gravata, com os primeiros botões da camisa desabotoados, revelando parte do peito. Mas não foi isso que a fez prender a respiração. Foi a forma como ele a olhava. Com calma. Com controle. E, ao mesmo tempo, com um desejo latente que fez o seu corpo reagir antes mesmo que a sua mente pudesse se preparar. Ela odiou o calor que subiu pelo seu ventre. Enzo ergueu a sobrancelha, como se estivesse se divertindo com a hesitação dela. — Bom dia, Helena. Ela cruzou os braços. — Para você, talvez. Um sorriso brincou nos lábios dele. — Você não é ótima em esconder as suas emoções, sabia? — E você não é muito bom em esconder a sua arrogância. Ele riu baixo, o som reverberando no peito. — Gosto do seu fogo. Helena estreitou os olhos. — E eu não gosto de você. Dessa vez, ele não riu. Apenas se levantou lentamente, caminhando ao redor da mesa. Os seus movimentos eram calculados, predatórios. Quando parou diante dela, Helena percebeu o quão alto ele era. A proximidade fez o seu perfume invadir os seus sentidos. O cheiro amadeirado, misturado com algo puramente masculino, a fez perder o ar por um segundo. — O que foi? — A voz dele era um sussurro rouco. — Estou perto demais? Helena não se moveu. Não queria mostrar fraqueza. — Você está me incomodando. Ele sorriu de canto. — Não, Helena. Eu estou te desafiando. Ela sentiu cada músculo do seu corpo enrijecer. A tensão era sufocante. E o pior era que, por mais que quisesse negar, parte dela queria ver até onde aquele jogo os levaria. — Você pode lutar contra isso o quanto quiser — ele continuou, o olhar fixo nos lábios dela. — Mas no final, vai perceber que já perdeu. Helena quis responder. Quis dizer que ele estava enganado. Mas, naquele momento, percebeu que não confiava na própria voz. O seu coração martelava no peito, e o calor no seu corpo se intensificava. Ele era perigoso. Não porque pudesse machucá-la, mas porque podia consumi-la. E, por Deus, parte dela queria ser consumida. A respiração dela acelerou quando Enzo ergueu a mão, deslizando os dedos lentamente pela lateral do seu rosto, descendo até a linha do maxilar. O seu toque foi leve, quase um sussurro contra a sua pele. Helena sentiu as pernas ficarem fracas. — Você sente isso, não sente? — ele murmurou. Ela engoliu em seco. — Eu não sinto nada. Enzo inclinou-se, os lábios quase roçando os dela. — Mentirosa. E então, como se tivesse todo o tempo do mundo, ele se afastou, deixando-a ali, com o coração disparado e o corpo em chamas. Ele pegou a sua xícara de café novamente e levou aos lábios, como se nada tivesse acontecido. Helena queria odiá-lo. Mas, acima de tudo, queria saber como seria o gosto daquele café nos lábios dele. Helena permaneceu imóvel, tentando recuperar o controle sobre a sua própria respiração. O silêncio entre eles era cortante, carregado de eletricidade e promessas não ditas. Os seus olhos fixaram-se na xícara entre os dedos de Enzo, como se aquele simples objeto pudesse distraí-la do fato de que a sua pele ainda ardia onde ele a tocara. Ela não podia permitir que ele a desestabilizasse. Não agora. Não nunca. Respirando fundo, ergueu o queixo e ocupou uma das cadeiras à mesa. Se ele queria um jogo, ela jogaria — mas com as suas próprias regras. — O meu pai pode ter-me forçado a isso — a sua voz saiu firme, mas seu coração martelava no peito —, mas não pense nem por um segundo que isso significa que me renderei facilmente. Enzo inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, estudando-a com um brilho divertido nos olhos. Ele levou a xícara aos lábios, bebendo um gole de café com uma calma irritante antes de responder. — Eu não esperava nada diferente de você, Helena. Na verdade, seria um tédio se fosse de outra forma. A audácia dele a fez apertar os punhos embaixo da mesa. Cada palavra que saía da boca daquele homem parecia um convite velado para um duelo, e ela sabia que se aceitasse, ele nunca jogaria limpo. — Então, diga-me — continuou ele, pousando a xícara com um clique suave na mesa de mármore —, como você pretende tornar isso difícil para mim? Helena cruzou as pernas, exibindo uma expressão de indiferença estudada. Ela sabia que a sua confiança era a única arma que tinha naquele momento. — De todas as formas possíveis — disse, um sorriso desafiador brincando nos seus lábios. — Você pode até ter conseguido essa aliança, mas jamais terá o meu respeito. Muito menos minha submissão. Os olhos de Enzo escureceram por um breve segundo, como se a sua provocação o tivesse atingido de maneira inesperada. Mas então, o sorriso dele se alargou. — Ah, Helena... — Ele inclinou-se levemente sobre a mesa, encurtando a distância entre eles. — Você ainda não percebeu? Eu não quero a sua submissão. Quero a sua entrega. E isso... — Ele fez uma pausa, permitindo que os seus olhos percorressem cada detalhe do seu rosto antes de voltar ao seu olhar desafiador. — Isso, eu sei que virá no seu tempo. Helena abriu a boca para retrucar, mas nenhuma palavra saiu. O modo como ele falava, como se estivesse certo de que já a possuía de alguma forma, a enfurecia mais do que qualquer coisa. Porque, no fundo, ela temia que ele estivesse certo. Antes que pudesse responder, um dos empregados entrou na sala, interrompendo a troca de farpas. — Senhor Vasconcellos, o seu motorista já está à sua espera — anunciou o homem, mantendo o olhar baixo em sinal de respeito. Enzo suspirou como se estivesse irritado por ter sido interrompido, mas assentiu. — Parece que o nosso tempo acabou por enquanto — ele disse, levantando-se da cadeira. Helena permaneceu sentada, recusando-se a dar-lhe o gosto de demonstrar qualquer tipo de reação. Ele parou ao lado dela, inclinando-se apenas o suficiente para que a sua voz chegasse exclusivamente a seus ouvidos. — Foi um prazer, minha futura esposa — murmurou, a sua respiração quente roçando a sua pele. E então, sem esperar resposta, ele saiu da sala, deixando-a sozinha com um turbilhão de sentimentos que ela não queria enfrentar. Helena fechou os olhos e inspirou profundamente, tentando acalmar o fogo que ainda queimava nas suas veias. Ela precisava encontrar uma forma de escapar desse destino. Mas, no fundo, uma parte de si começava a temer que, no fim das contas, a maior batalha que teria que travar seria contra si mesma.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR