Já fadigada de toda aquela mentira e de todo cenário falso, Valentina não conseguiria segurar o choro nem mais meio segundo. Inventou uma desculpa qualquer para os convidados e sorrateiras seguiu para a varanda. Ia explodir, estava certa disso!
Ela apoiou-se no parapeito e por um breve segundo pensou no que aconteceria se acidentalmente deixasse o corpo cair dali. Mais uma lágrima rolou em seu rosto diante do pensamento.
- Por favor … - Ouviu uma voz baixa e suave atrás de si. - Pegue minha mão.
Valentina não se dera conta de que momento transpassara uma perna pelo parapeito, mas a voz a puxou de seu devaneio, estava prestes a pular de aproximadamente oito metros de altura.
Ela secou o rosto rapidamente e voltou-se com a ajuda do marquês.
- Por favor, não diga nada a ninguém. Tive um vislumbre, um pequeno momento de confusão mental. Bom … Talvez tenha sido a bebida, ou …
Ela se calou quando repentinamente ele a abraçou forte. Henrique não queria um motivo, não queria uma justificativa ou uma explicação dela, ele apenas a segurou quando claramente ela estava prestes a desabar e sentindo nos braços de um estranho a proteção que nunca sentira, nem mesmo com sua mãe, Valentina deixou que as lágrimas voltassem a descer. Ele a apertou ainda mais quando a sentiu soluçar.
Sempre fora um bom observador e percebera que algo não ia bem, notara quando a condessa saíra do salão de modo sútil, mas desesperado e silenciosamente a seguira após constatar que não estava sendo observado por ninguém e por Deus, ainda bem que chegara a tempo.
- Está tudo bem agora. - murmurou em meio a cabeleira n***a dela que agora encontrava-se em um coque desarrumado. Um doce perfume de lírios adentrou as narinas de Henrique fazendo-o aspirar um pouco mais forte, era o cheiro mais incrível que já havia tido o prazer de sentir.
Ela se afastou cautelosamente.
- Milorde, por favor … Não pense o pior de mim, não pense que sou mais uma dama ingrata e tirana, por Deus… Não conte a ninguém, eu posso explicar ao senhor, mesmo que provavelmente não vá entender.
Henrique levantou uma mão para pausa-lá.
- Eu não acho isso da senhora. Não direi nada a ninguém e não preciso que me explique nada, mas caso precise de um amigo, o que eu certamente acho que necessita, eu ficarei feliz em ouvi-la.
A condessa respirou aliviada e por algum motivo desconhecido, sentiu confiança naquele homem que sequer conhecia.
Ela se sentou no pequeno banco de madeira que havia ali e ele silenciosamente a seguiu, sentando-se ao seu lado.
- Milorde …
- Por hoje, Henrique. Um amigo. - Ele a interrompeu.
Valentina pigarreou, e continuou.
- Henrique … Eu não saberia citar um motivo bom o suficiente para estar debruçada na sacada de minha casa, no meio da minha festa de aniversário. - Disse confusa.
- Talvez não haja somente um motivo, Valentina. - Ele respondeu calmamente enquanto a observava. Era uma mulher linda, jovem e esposa de um conde. Ela tinha mais do que a metade da sociedade sempre sonhara, mas por algum motivo, não era feliz.
Ela apoiou o rosto nas mãos e bufou.
- Certamente. Tudo começou quando eu ainda era uma criança. Minha mãe simplesmente entregou minha mão a um homem muito mais velho do que eu na época e como eu iria debater? Era somente uma criança. Desde então, fui criada para ser a esposa de Marcos. Tudo o que sou, tudo o que sei, é sobre ele e sobre os gostos dele. Eu não sou alguém, entende? Eu sou um reflexo do que ele é, do que ele gosta e … Maldição, o que eu ganhei em troca? Um marido que passa mais noites em um bordel do que ao meu lado. Em anos de casamento ainda não fui capaz de lhe dar um filho e desejo morrer toda vez que ele me toca. Ingratidão? Talvez seja, talvez não. Mas é pecado desejar mais? É pecado sonhar com o amor genuíno e a felicidade que nunca conheci?
Ela o olhou com os olhos repletos de dor e Henrique sentiu o coração se apertar um pouco mais. Era um cavalheiro, podia escolher se desejava se casar ou não, mas ela não … A Condessa não tivera essa escolha e vivia presa em um casamento sem amor no qual claramente não era feliz.