Capítulo 5

1578 Palavras
Isadora ficou sabendo do drama que Naty estava vivendo pelo irmão dela, o Ítalo, que preocupado com a irmã, pediu para que ela mantivesse uma atenção redobrada com a amiga nesse período pré competição, já que ele não podia deixar a cidade em que vivia para ir de encontro à família naquele momento. Coube à Isadora chamar Naty para passar mais tempo em sua casa em São Paulo, para garantir que a garota ficasse um pouco distante da confusão em que os pais se meteram. Com Isa marcando em cima, Naty mantinha as rotinas de treino direitinho e ainda garantia que a amiga estava se alimentando bem e conversando com o psicólogo com frequência. Elas todas tinham a mesma idade, mas Isadora tinha mais o perfil de mãezona do grupo. Tinha sido obrigada a amadurecer mais cedo, a cuidar de si mesma desde bem nova. A vida de Isa não tinha margem para erro. Era uma linha estreita traçada, na qual andava sem poder desequilibrar. Qualquer falha podia lhe custar caro e sempre colocava a culpa em seus próprios ombros. Por isso, Isadora não se abria muito sobre os dilemas que vivia. Tinha medo de se passar por fraca, tinha medo que tivessem dó dela. Ela era uma lutadora, uma guerreira, não queria a pena das pessoas. Quando se mudou para São Paulo, Isa estava surfando alto em seu sucesso profissional. Vários campeonatos ganhos, patrocínios. Nunca mais ia precisar passar fome, ou passar vontade de ter algo que não podia comprar. Dali em diante, seria dona do próprio nariz e seu nariz tinha um valor alto no mercado de competições. Mas dois anos antes, Isadora se lesionou feio, rompeu os ligamentos do joelho, o que significava meses de molho se recuperando e depois mais um tempão fazendo fisioterapia para reabilitar o m****o por completo. Ficar afastada do esporte que era o seu ganha pão, foi não só difícil, mas como assustador. Se não competia, não recebia. Viu alguns patrocínios a abandonar, os prêmios dos torneios também faziam muita falta para a sua renda. Viveu momentos de muita incerteza, nunca sabia se teria o suficiente para pagar as contas do próximo mês. Se dedicou ao máximo nos exercícios de reabilitação para conseguir voltar o mais rápido para as pistas e competições. A princípio acreditou que voltaria logo, não quis pedir ajuda de ninguém. Mas os meses foram passando e sempre que tentava fazer uma manobra no seu skate, a dor aparecia, retrocedendo alguns passos em sua fisioterapia. Era como voltar tudo ao começo. Por sorte, se recuperou a tempo de conseguir a última vaga para as olimpíadas. Seria a chance de ela voltar com tudo, recuperar seus patrocínios e quem sabe faturar uma medalha, que garantia uma polpuda recompensa do Comitê Olímpico Brasileiro. O COB pagava 250 mil para o atleta que subisse no lugar mais alto do pódio, 150 mil para o segundo lugar e 100 mil para o terceiro. Esse dinheiro daria muitas noites de sono tranquilo para Isadora. – Eu acho que nunca vou casar – filosofava Naty no pós treino das duas. – Se você não casar, não vai ser por culpa dos seus pais e sim porque não sossega o facho por mais de 10 minutos, o que dirá uma vida inteira. – As duas estavam sentadas na lanchonete do centro de treinamento e tomavam um açaí. – Você acha que se eu me casasse iria me separar também, como meus pais? – Como eu vou saber? Talvez não, vai que encontra alguém assim como você. – Deu de ombros. – De qualquer forma, escolher casar ou não, é um privilégio que a heteronormalidade te deu. – Todo mundo pode escolher o que quer fazer da vida. – Não exatamente. Quando a sociedade não aceita o seu relacionamento, fica ainda mais difícil encontrar alguém que aceite lutar contra tudo e todos com você. É a solidão da mulher lésbica. – Você ainda vai encontrar alguém que te mereça muito, Isa. E eu vou querer ser madrinha. – Acho que já perdi todas as minhas esperanças – suspirou fundo. – Nem vem. Assim que a gente voltar a rodar o mundo com os campeonatos, quero ver se você não vai arrumar vários amores. Você só precisa relaxar, Isa. – Eu preciso exatamente do oposto, me concentrar em voltar a ganhar campeonatos. – Nisso você já é especialista. – Estou pensando em me mudar para Los Angeles – confessou. – Sério? – Isa perguntou surpresa com a novidade. – Preciso dar o melhor de mim para conseguir isso. Me manter em São Paulo já não é fácil, nos Estados Unidos então, não vai ser moleza. – Em compensação, você ficaria bem no meio da cena da skateboarding. Seriam milhões de novas oportunidades. – Por isso eu quero tanto isso. – Por que você não conversa com os brasileiros que moram lá? – Não quero importunar ninguém. – E desde quando isso é importunar? A galera de lá sempre deixa as portas abertas para gente. Isso é o skate, Isa, somos todos uma família. – Mesmo assim, não quero atrapalhar uma amizade pedindo favores. – Você está sendo otária. – É a educação que eu tive, você não entenderia. – Ainda assim, uma otária. Isadora deu um tapa de brincadeira na nuca da amiga. – Se for me visitar em Los Angeles vou te cobrar aluguel. – Pode cobrar, vou te pagar com um cheque – disse devolvendo a brincadeira. Apesar das implicâncias, Isadora ficava feliz de ver Naty se divertindo e dando alguns sorrisos por aí. Antes de irem embora, as duas fizeram questão de ligar para Bruna e dar uma checada em como a amiga estava. Ficaram satisfeitas em assistir a garota acidentada andando de skate e fazendo com facilidade as manobras que dominava. – E a dor? – Perguntaram para ela. – Só a cabeça ainda dói. – Quem mandou ser tão cabeça dura – brincou Naty. – E o que o fisioterapeuta te disse? – Perguntou Isa. – Que já estou cem por cento. Mas que tenho que continuar tomando todos os cuidados, colocando gelo e essas coisas. – Sua mala já está pronta? Porque a da Isa está. – Quase pronta. E você, como estão as coisas na sua casa? – Na mesma – suspirou. – Minha mãe parece um zumbi, meu pai não vai lá desde que se mudou. A gente só se fala por celular. Ítalo está tentando conseguir uma folga para vir de volta para casa, mas acho que seria inútil de qualquer jeito. – A vida é mesmo uma droga, você sofrendo porque seu pai foi embora e eu porque meu pai não me deixa respirar um minuto. – A gente devia ir com a Isa para Los Angeles. – Ela deu uma cutucada na Naty por abrir a boca demais. – A Isadora está indo para Los Angeles? – Bruna perguntou em choque. – Claro que não, Naty que é muito boca aberta. – Me conta essa história direito – exigiu do outro lado da tela. – Só disse para ela que tenho vontade de vazar daqui. O resto ela está aumentando – contou. – Eu apoio essa mudança, por mais que eu morra de saudades de você. – É, mas está cedo demais para a gente discutir isso. Tudo vai depender de como as coisas vão se dar nas olimpíadas. – A gente vai arrasar, como sempre. – Bruna foi positiva para as amigas. Mas a verdade é que todos tinham suas batalhas internas para guerrear. Um bom desempenho nos jogos dependia totalmente da capacidade delas em vencer seus próprios demônios. Isadora e Naty se despediram da Bruna e terminaram a ligação de vídeo. Depois foi a vez das duas se despedirem. Naty pegou o carro rumo ao ABC paulista, onde morava, enquanto que Isa voltou para casa, um apartamento de dois quartos que comprou com o dinheiro do prêmio do último X Games que venceu, há três anos. Recolheu as correspondências que tinham o seu nome lá na portaria e subiu de elevador, lendo distraidamente os remetentes das cartas em sua mão. Uma em particular lhe chamou a atenção. A porta do elevador abriu, Isa saiu para o corredor já rasgando a beirada do envelope e tirando de dentro o papel dobrado. Destrancou a porta de casa, entrou e com atenção leu o que estava escrito. A hipoteca que havia feito do seu apartamento com a finalidade de pagar as contas que se acumularam no período em que estava em recuperação, havia se transformado em uma grande bola de neve. As parcelas que não conseguiu pagar tinham mais que dobrado de valor e Isadora não tinha aquele dinheiro todo para quitar a dívida. Ela podia perder o apartamento. O único bem que possuía, que havia conquistado com tanto trabalho duro e dedicação. Aquele apartamento simbolizava sua vitória contra seu passado. Era sua garantia de dias mais tranquilos no futuro. Era tudo que tinha, sem ele voltava a ser uma pobre coitada, voltaria para sua cidade natal com uma mão na frente e outra atrás, completamente derrotada. Isadora entrou em desespero. Mais do que nunca precisa vencer as olimpíadas. Ela precisava daquele dinheiro. ********************** Obrigada por acompanhar mais essa história. Amanhã tem mais, então não deixa de colocar o livro na sua biblioteca e me seguir por aqui para não perder as notificações. E me siga também nas redes sociais: Instagram, Twitter e Tik Tok: @thaisolivier_
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR