– Pai, onde você está? – Naty perguntava em desespero do outro lado da linha. Foi preciso muitas tentativas e vários áudios no w******p para que ele finalmente atendesse.
– Estou na casa da sua avó, filha.
– Pai, volta para casa – implorou.
– Não dá, meu amor.
– Como não dá, vocês nunca nem brigaram. Por que logo agora? O que aconteceu?
– É a vida, Naty. Casamentos acabam. Sua mãe e eu merecemos ser felizes também.
– E vocês resolveram ser felizes justo quando estou para viajar para a maior competição da minha vida?
– Competição que você vai tirar de letra. Não vai ser a nossa separação que vai atrapalhar seu desempenho, tenho certeza disso.
– É lógico que vai. Meu Deus, como vocês podem ser tão egoístas.
– Natália, o mundo não gira a seu redor. – Ele endureceu o tom de voz.
– Eu odeio vocês! – E desligou o celular sem mais nenhuma paciência com a mãe ou com o pai.
Naty sentou no canto do quarto, agarrada em seus joelhos e chorava. Sentia que uma parte dela tinha se apagado e com isso levado embora sua alegria. Ela pegou o celular de novo e decidiu ligar para o irmão mais velho, que costumava ser sempre seu apoio quando precisava.
Ítalo não atendeu na hora, mas poucos minutos depois retornou à ligação.
– O que foi, Magrela? – A chamou pelo apelido que tinha desde criança.
– Ítalo... – disse em meio às fungadas.
– O que aconteceu? – O irmão percebeu o choro da irmã mais nova.
– Mamãe e papai estão se separando?
– Separando? Como assim separando?
– Foi a mesma pergunta que eu fiz.
– Naty, repete o que disse, nossos pais estão se separando?
– Sim.
– Por quê?
– Não me disseram, papai falou que estão procurando por felicidade, mas mamãe estava chorando quando cheguei aqui. – Naty enxugou o rosto e o nariz que escorria junto das lágrimas.
– Coloca o papai no telefone, deixa eu falar com ele.
– Você não entendeu, ele já foi embora.
– Sem nos dizer nada?
– Quando cheguei ele já tinha ido.
– Logo agora com a sua viagem? Às vésperas da sua estreia nas olimpíadas? Isso não faz o menor sentido.
– Foi o que tentei argumentar com ele.
– E o que ele disse?
– Que o mundo não gira ao meu redor. – Voltou a chorar copiosamente.
– Calma, Magrela, eu vou resolver isso. Se concentre nos seus treinos, foque na sua competição. Vou tentar falar com eles e entender o que está acontecendo.
– Ok.
Desligaram a ligação, mas Naty, que sempre ficava aliviada com o apoio do irmão, não sentiu confiança dessa vez. Algo no tom de voz do pai, ou por nunca ter visto a mãe daquele jeito, a faziam acreditar que não havia volta. Sua família estava para sempre rachada, nunca mais voltaria para casa e os encontraria lá, juntos.
Ela deitou na cama do jeito que estava e caiu no sono exausta de tanto chorar. Ao acordar, só no dia seguinte, teve um minuto de paz, até perceber que estava vestida com as roupas de ontem e se lembrou do motivo, a tristeza a atingiu com força mais uma vez.
Naty desceu as escadas para o primeiro andar da casa e não encontrou ninguém por lá. Vagou até chegar na pista de skate que ficava no quintal atrás da residência. Deitou bem no meio, com os braços e pernas abertas, olhando para o céu cinza e sem nuvens daquele diz.
“Acho que eu preferia ter sido atropelada”, pensou.
De um acidente existia a possibilidade de recuperação, mas daquilo ali iam ficar só os cacos. Ela não estava cortada da delegação de skate que embarcaria em poucos dias para os jogos, porém, não sabia se tinha psicológico para enfrentar uma competição.
Desejou estar bem longe dali. Desejou que os pais tivessem escondido tudo dela até que ela voltasse, quem sabe com uma medalha.
Bruna contava com a ajuda de fisioterapeutas para se reabilitar e ela? Fisioterapeuta nenhum podia consertar o que Naty estava sentindo.
Mas existia os psicólogos. Não era para isso que eles estavam à disposição dos atletas?
Naty pegou o celular e mandou uma mensagem para o treinador da Confederação Brasileira de Skate e contou o que estava acontecendo. Ele respondeu já com um horário marcado para que ela visitasse o profissional.
Teria que se deslocar de novo para a cidade de São Paulo, mas dessa vez não por um motivo que ela gostasse muito.
Voltou para dentro de casa e arrumou seu café da manhã. Tomou um banho, trocou de roupa, fez tudo no automático. Não contou nada para as meninas, primeiro, porque não queria preocupá-las e segundo, porque não sabia se seria capaz de tocar no assunto mais uma vez e sem chorar.
O carro não estava na garagem e Naty não queria ligar para a mãe, decidiu ir de ônibus para a capital. A viagem levaria algumas horas, então não podia se atrasar. Arrumou um sanduíche para levar e foi embora.
Chegando lá conheceu o profissional que descobriu que os acompanharia na viagem também. Júlio era um homem de meia idade, já grisalho, mas com porte de atleta. Recepcionou Naty com um aperto de mão e um sorriso.
– Boa tarde, Natália. O que te traz aqui? – Perguntou bem direto.
– Ontem eu descobri que meus pais estão se separando. – Ela foi direta igual.
– E como você se sente a respeito disso?
– Um lixo. Estou acabada, desnorteada. É como se meu mundo tivesse virado de cabeça para baixo – explicou.
– Entendo. Você é muito ligada a eles?
– Sim. – Deu de ombros. – Eles são meus pais, né.
– E o que mais te incomoda no fato de que eles estão seguindo caminhos separadas agora?
– Minha família acabou.
– Na verdade, sua família vai continuar existindo, só que de um outro jeito.
– É, de um jeito horrível.
– Meus pais são separados. No começo, eu pensava como você, achava que aquilo era o fim do mundo, do meu mundo, pelo menos. Mas com o tempo as coisas foram se ajeitando, a ponto de não conseguir me lembrar como era quando eles eram casados. E hoje eu também sou divorciado, pude aprender muito estando no lugar que eles estiveram um dia.
– Você tem filhos?
– Sim.
– E você teve coragem de fazer com eles o mesmo que fizeram com você?
– Como eu disse, com o tempo vi que a aquela decisão era a melhor opção para os dois. Eles foram muito mais felizes daquele jeito.
– Eu não consigo nem imaginar os dois separados.
– Isso é normal. Você não precisa fazer isso agora.
Júlio continuou aconselhando, perguntando e induzindo Naty a colocar para fora tudo que a afligia com a situação dos pais. Ela foi descobrindo sentimentos que nem sabia que tinha. Medos que estavam guardados lá dentro dela e que agora davam as caras.
Naty precisaria domar todos aqueles medos se quisesse se restabelecer a tempo para competir.
– O que te faz mais feliz nessa vida? – Ele perguntou para ela.
– Skate.
– Imagina se tirassem o skate, como seria?
– Nem consigo imaginar – confessou.
– Pois é, saber onde nossa alegria está e não deixar ninguém te afastar dela é uma virtude – disse. – A atitude dos seus pais, de sacrificarem o casamento pela felicidade deles, é a maior lição que eles poderiam te passar.
E ela foi embora com aquilo remoendo em sua mente.
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Obrigada por acompanhar mais essa história. Amanhã tem mais, então não deixa de colocar o livro na sua biblioteca e me seguir por aqui para não perder as notificações.
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