Capítulo 3

1089 Palavras
Para Naty, que nunca soube ficar quieta em lugar nenhum, o grande desafio era esperar sem poder fazer nada. Aguardar o dia do embarque já estava sendo uma tortura, agora ter que esperar pela recuperação de Bruna à distância, era demais para ela. Brigou com os pais dizendo que iria para a cidade da amiga acompanhar sua reabilitação de perto, mas foi proibida por eles porque tinha um cronograma de treinos a cumprir junto à seleção de skate. Naty tinha a sorte de morar no ABC paulista, próxima às melhores pistas de skate do país. Tinha uma no quintal, inclusive, presente que insistiu em ganhar de natal e os pais cederam. Como sempre fazendo as vontades da filha. Entretanto, ela odiava quando tentavam impor o skate a ela como obrigação. Para Naty era amor. Um eterno ciclo de se desafiar e alcançar. E no momento, ela tinha outras preocupações na cabeça, aflição que não passava pela pista, mas pela amiga que podia dizer adeus ao grande sonho, bem às vésperas da grande viagem. Ou seja, Naty podia ser bem inconsequente, porém, extremamente fiel e cuidadosa com as amizades. Mas quando suas obrigações começam a envolver patrocinadores, delegações, treinadores, a garota perdia sua liberdade de fazer o que lhe dava na telha para agir como eles ordenavam. Ela só sossegou quando Bruna finalmente foi para casa e garantiu que estava muito bem e com uma rotina pesada de exercícios para recuperar o pé lesionado. Prometeram se falar o dia inteiro para que Naty pudesse ficar tranquila e de coração leve. Mas não pôde evitar dar uma fugida para ir encontrar com Isadora na capital paulista, onde a outra morava sozinha há algum tempo. Sempre que ficava um pouco entediada, pegava o carro, jogava o skate dentro e ia matar a saudade da amiga, treinavam juntas, botava o papo em dia e depois voltava para casa já quase de madrugada. Os pais de Naty não costumavam se preocupar com a rotina da filha. Desde que ela se entendia por gente tinha uma criação solta, sem nenhuma amarra. Nem em todas as vezes que quebrou algum m****o do corpo, ela se lembrava dos pais preocupados ou apavorados. O que ajudou Naty a se transformar nesse furacão em forma de mulher. – Que malas são essas? – Perguntou quando chegou na casa da Isadora e notou várias malas na sala dela. – Se eu não me engano, a gente tem uma viagem para fazer, Naty. – Mas é daqui a duas semanas. – Exatamente. – Meu Deus, Isadora. Eu vou arrumar minha mala dois dias antes. – Provavelmente, você vai deixar para a sua mãe arrumar no seu lugar. – Tem coisa mais chata que isso? Vou jogar tudo lá dentro e fechar, isso sim. – Deu de ombros e se jogou no sofá. – Eu não vou querer dividir quarto com você na vila olímpica, já estou avisando. – Isadora deu um tapa para tirar os pés de Naty de cima de seu sofá. – Que isso, Isa? Eu sou a melhor companhia e você sabe disso. – Acho que não, prefiro dividir com a Bruna. – Nem fala o nome dela que meu coração aperta. – Naty se entristeceu. – Ela está bem, vai dar tudo certo e a gente vai entrar naquele avião todas juntas, você vai ver. – Eu queria ser tão otimista quanto você. – Cada um tem seu próprio sistema de defesa – explicou Isadora. – Eu sei. Vamos logo dropar uma pista de skate – chamou. Era sempre assim para Naty, quando não sabia lidar com um sentimento, ela respondia ganhando velocidade em cima de rodas. Não só com ela, para Bruna e Isadora, o skate também era um refúgio. Logo elas estariam treinando na mesma pista há quilômetros de distância do país em que nasceram. Mas, por enquanto só duas delas poderiam fazer isso juntas. Naty e Isa pegaram seus skates e foram treinar. Eram muitas as manobras que tinham plena segurança em fazer, outras que tinham aprendido há pouco tempo. Todas ainda demandavam muito treino e repetição para estarem perfeitos para o dia da competição. Isadora, que tinha uma habilidade de se desligar de tudo e concentrar apenas na pista a sua frente, não teve dificuldade de fazer uma sessão perfeita. Já o furacão Naty estava em desequilíbrio, acertou 70% das manobras que tentou fazer. Ela era elétrica, impulsiva, mas era toda emoção e quando tinha algo que a incomodava, preocupada, reagia assim, transbordando no skate. Naty se irritou com sua performance e acabou encerrando a sessão de treinos um pouco mais cedo, não tinha mais nada que poderia fazer naquele dia. Seria melhor colocar a cabeça no travesseiro, descansar e tentar acordar melhor para um novo dia. Pegou o carro e voltou já a noite para o ABC. Ficou feliz ao avistar a casa dos pais, dava para ver de longe a pista montada para ela, sua melhor conquista. Às vezes ela precisava de dias viajando para as competições para se lembrar do quanto gostava de voltar para casa. Mas quando entrou na sala naquele dia percebeu que o clima estava estranho. Encontrou a mãe chorando na cozinha e não parecia ter mais ninguém por ali. O irmão mais velho de Naty morava em outro estado, tinha se mudado a trabalho. – O que aconteceu? – Perguntou Naty assustada com o estado da mãe. – Seu pai... – O que tem ele? – Foi embora – disse em meio ao choro que quase a sufocava, m*l fazia sentido o que ela falava. – Embora para onde? – Não entendia absolutamente nada do que estava havendo. – Para o inferno! Naty perdeu a paciência, não podia continuar com essa comunicação por códigos. Pegou a mãe pelos ombros e a sacudiu. – Mãe, para onde meu pai foi? – Não sei, Natália. Liga para ele e pergunta. Acabou, nós estamos nos separando – jogou tudo em cima da filha. Naty viu seu mundo rodar e parar de ponta a cabeça. Nada fazia sentido. Seus pais nunca brigavam, como poderiam se separar? E por que logo agora? Se tudo que achava que precisava era uma boa noite de sono para acordar renovada, depois dessa descobriu que só queria sua família junta outra vez. ********************** Obrigada por acompanhar mais essa história. Amanhã tem mais, então não deixa de colocar o livro na sua biblioteca e me seguir por aqui para não perder as notificações. E me siga também nas redes sociais: Instagram, Twitter e Tik Tok: @thaisolivier_
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