Pré-visualização gratuita Capítulo 1
O Gêmeo Substituto
Ryan Rockwell
Estacionei o carro, sentindo o nó apertar na minha gravata. Faltava exatamente uma hora para o noivado Rockwell-Valencourt, e eu estava na cobertura de luxo do meu irmão, na Park Avenue. Não estava ali para parabenizar ele sobre o noivado. Estava ali para evitar o desastre, como sempre.
Ignorando as ligações desesperadas de minha mãe " Cadê o Robert, Ryan? Onde está o seu irmão?". Eu já antecipava a tempestade, o motivo de ser o escândalo do século se não agisse.
O cheiro de sândalo e charuto era a assinatura da casa de Robert. Meus olhos focaram no bilhete sobre a mesa de centro. A caligrafia apressada de Robert parecia gritar seu pânico, ele já estava se preparando para fugir.
"Não consigo, Ryan. Não com ela. A Anne é... um sacrifício. Eu não vou abandonar a minha vida para salvar ela e sua família, eu não posso! Me desculpe. De novo."
- Covarde. - murmurei, apertando o bilhete até amassar o papel. A palavra 'de novo' me atingiu com a força de um soco. Eu sempre fui o bombeiro, o plano B, mas esta era a crise mais cara. O casamento com Anne Valencourt não era sobre Robert ou Anne; era sobre a fusão que beneficiaria ainda mais a minha família e seu legado. Nossos sobrenomes, a linhagem Rockwell, eram nossa moeda antiga, mas o negócio não esperava que nós nos casarmos com quem amamos, e sim, com quem era mais lucrativo para o nosso nome.
E o nome dos Valencourt eram quase a realeza, mesmo quando o patriarca está desesperado por causa de maus negócios.
Encontrei Robert na poltrona do quarto, pálido, a gravata jogada. Uma mala semi arrumada aberta na cama, ele estava fugindo, não esperava menos ou mais de Robert. Somente que ele só pensava nele mesmo.
Apenas nos momentos de desespero ele parecia, de fato, meu gêmeo idêntico.
- Você veio. - Ele disse sem me olhar.
- Eu vim porque o seu 'sacrifício', Robert, é a nossa ruína social. - Respondi, minha voz fria. - Na família Rockwell não tem essa de "não conseguir" ou "não posso". Sabe que nossos pais nunca vão te perdoar por abandonar a família, Richard vai te trucidar e tirar até o ar que você respira. - Aponto para a sua vida de luxo. - Tudo que te sustenta, acaba em sessenta minutos. Nosso pai vai te deserdar sem pensar duas vezes. Você veste o terno e fica noivo, ou eu dou um jeito no seu fundo fiduciário antes do amanhecer, sabe que eu faria sem pensar duas vezes irmão. - Disse sério o suficiente para ele entender que não estava blefando.
Robert se levantou, os olhos implorando. Ele era mais velho que eu, mas Richard era o primogênito e CEO das empresas. Então, eu e Robert, gêmeos idênticos, tínhamos que sempre alcançar o favoritismo do nosso irmão mais velho.
- Não posso. Não com ela, Ryan. Não posso mentir pelo resto da vida. - Ele deu um passo à frente, a súplica c***l e familiar em seu olhar idêntico ao meu. - Nós sempre fomos capazes de nos substituir. Por favor... pela última vez. - Ele não tinha o direito de me pedir isso.
Olhei para o relógio de pulso, depois para o rosto dele. Sessenta minutos. A humilhação de ver o nome Rockwell desmoronar seria insuportável. A mídia iria destrinchar o noivado fracassado. Nossos nomes seriam alvo de críticas, de pessoas duvidando da nossa potência e poder.
Esse casamento foi firmado antes mesmo de completarmos cinco anos, e Anne ter apenas dias de vida. As nossas famílias se gabam que nosso futuro era ser os herdeiros ligados por um casamento. Essa foi a primícia de nossas vidas, ou melhor, da vida de Robert e Anne.
Fechei os olhos. Não era a última vez, eu sabia. Eu sempre fazia as vontades de Robert por causa da nossa lealdade. Mas, pela sobrevivência do nosso legado, Robert precisava de um substituto. E, como sempre, esse substituto seria eu.
(...)
A porta do elevador deslizou, revelando o luxo austero e opressor do salão de festas do The St. Regis. As mesas de coquetel pareciam flutuar sob a luz baixa do gigantesco lustre de cristal, e o burburinho de vozes discretas, polidas pelo vinho e pelo poder, era a trilha sonora da minha nova vida.
Eu não era Ryan Rockwell.
Eu era Robert Rockwell
A troca de identidade não havia sido instantânea, mas sim um processo metódico e sufocante de negação e rendição.
Voltei para o meu próprio apartamento, três andares abaixo. Enquanto as famílias Rockwell e Valencourt se preparavam para o evento mais importante das suas últimas décadas, eu me preparava para a maior farsa da minha.
O terno. Robert e eu vestimos o mesmo alfaiate, mas o meu terno azul-marinho parecia de repente mais pesado, um uniforme de guerra. Comecei a me despir, jogando meu blazer sobre a cadeira e desfazendo a gravata. Aquele era Ryan, o gestor, o filho responsável, o eterno bombeiro. Mas Ryan Rockwell não teve lugar esta noite.
Peguei o terno de Robert, troquei com ele. Meu irmão estava ao meu lado quieto, sabendo se ele falasse um "aí", eu desistiria de tudo sem pensar duas vezes.
A cor, um cinza-carvão clássico e elegante. Vesti a calça, ajustando a cintura. A única diferença física entre nós era uma pequena cicatriz em meu ombro esquerdo, resultado de uma queda de bicicleta aos dez anos, quando Richard me empurrou escada abaixo e depois mentiu para a mãe, dizendo que eu havia tropeçado sozinho. Ele havia se safado, como sempre. Felizmente, o colarinho da camisa a cobriria.
E Robert estava lá, ele chorou comigo, passou a noite preocupado e disse que iria nos vingar. Na semana seguinte Richard ficou de castigo porque perdeu a hora do jantar, Robert tinha sumido com o celular dele. Nosso irmão mais velho apanhou do nosso pai porque deixou a "família"esperando para começar a ceia.
Ele nunca nos perdoou, por isso, Richard era muito metódico com horários, datas e regras. A pior coisa era fazer ele passar como o irresponsável para os demais.
Suspiro.
A gravata. Robert sempre as usava com um nó frouxo, quase displicente. Eu, Ryan, preferia o nó Windson, firme e simétrico. Tive que me concentrar em imitar a imperfeição dele, estudando a foto que Robert havia me enviado mais cedo, "para o caso de esquecer como sou", ele havia brincado. Não era uma brincadeira. Era uma lembrança constante de que ele era o original e eu, apenas a cópia.
Enquanto eu me preparava, os meus pensamentos estavam em Anne. Anne Valencourt.
Seu sobrenome era sinônimo de poder silencioso e antigo, mas passava por dificuldades e precisava desse casamento como alguém precisa de um coração novo. Os Valencourt não precisavam de publicidade; eles eram publicidade. Mas nem sendo tudo isso, eles conseguiram esconder os problemas da família Rockwell. Eles precisavam de capítulo para ontem, e mesmo sendo amigos dos meus pais, O senhor Rockwell nunca iria dar tanto dinheiro sem garantias.
A empresa dela, a Valencourt & Co., era a única que podia competir com a nossa, a Rockwell & Filhos., em termos de legado e impacto. Essa fusão não era apenas para salvar a situação financeira deles; era para criar a maior potência da construção civil do hemisfério ocidental. E Anne, a herdeira solitária, era a chave para isso.
Eu a conhecia, claro. Nos encontrávamos em eventos de caridade, jantares de negócios, reuniões preliminares de fusão. Ela era alta, com uma elegância inata que parecia desafiar a gravidade. Seus cabelos eram vermelhos, e me encantaram pelo brilho e cor. Sempre presos em um coque impecável que ressalva a linha de seu pescoço. Mas o que mais me atingiu em Anne eram os seus olhos, de um tom âmbar profundo, sempre cautelosos, inteligentes, e infinitamente tristes.
Ela era linda, de uma beleza que exigia respeito, não flerte. Robert havia reclamado dela, é claro. "Fria," ele havia dito, "calculista, Ryan. Parece que está sempre calculando o preço de cada sorriso."
A questão é que meu irmão nunca aceitou saber que teria que se casar com Anne, para ele, é como se os nossos pais estivessem condenando a morte, não há um casamento.
Eu discuti com ele. "Ela está noiva de você, Robert. Ela está noiva de um homem que a está usando para fechar um negócio. O que você esperava? Fogo de artifício?"
Robert apenas deu de ombros. Ele nunca entendia a diferença entre um negócio e um objeto de desejo.
Agora, eu estava prestes a mentir para essa mulher, para os seus olhos cautelosos. Eu estava prestes a enganar em um casamento de conveniência que ela já sabia ser sem amor, mas que agora seria baseado em uma farsa ainda mais profunda: a identidade do seu próprio noivo. Terminei de me arrumar. Olhei para o espelho. A minha imagem devolvida não era a de Ryan, o estrategista de finanças, mas a de Robert, o playboy superficial. O sorriso frouxo, a sobrancelha levemente arqueada que Robert usava para parecer sedutor, o cabelo intencionalmente desalinhado. Eu estava pronto para o palco.
- Não vou... - Ele disse ao meu lado. - Se eu for, vão descobrir. - Concordei. - Fora que Ryan Rockwell não frequentava compromissos como esse se não fossem de extrema urgência, você sempre priorizou as coisas da empresa.
O motorista me esperava. A viagem até o St. Regis foi uma névoa. Eu revivia os detalhes na minha cabeça: o discurso que Robert havia escrito (e que eu havia revisado), a lista de convidados que eu tinha decorado, os apelidos idiotas que Robert usava para os executivos Valencourt. Tive que me lembrar de sorrir para as câmeras, de piscar para a garçonete, de fazer todas as bobagens que Robert fazia para manter sua reputação de "coração de ouro".
Cheguei ao local. A entrada era um turbilhão de flashes de paparazzi e gritos de "Robert! Robert Rockwell!". Eu acenei, sorrindo o sorriso de Robert, sentindo a familiar sensação de ser consumido pelo personagem.
Ao entrar, a primeira pessoa que vi foi a minha mãe, Eleanor Rockwell. Ela parecia um b***o de mármore, impecável em seu vestido de seda preta. Ela correu na minha direção, aliviada, mas sem diminuir o tom de voz autoritário.
- Robert! Onde você estava? Seu pai está furioso! Você quase arruinou tudo!
- Eu estava... resolvendo um assunto de última hora, Mãe. Negócios. Ryan ficou para trás, eu vim para ficar noivo. Está tudo sob controle agora. - Sussurrei no seu ouvido, usando a voz de Robert, ligeiramente mais despreocupada que a minha.
Ela me segurou pelos ombros, me olhando nos olhos. Por um segundo, tive medo de que ela percebesse. As mães sempre sabem.
Mas ela apenas suspirou, aliviada.
- Bem. Vá cumprimentar seu pai. E Robert... sorria. Lembre-se, este é o maior dia da história da Rockwell & Filhos. Seja melhor do que vem sendo meu filho. Nosso futuro depende disso, vamos ser mais poderosos que nunca!
- Serei. - Eu prometi, a mentira, me queimando a garganta.
Meu pai, Charles Rockwell, estava na área VIP, parecendo um leão enjaulado. Ele era a personificação da pressão que Robert havia fugido. A Rockwell & Filhos era o seu legado, e ele não perdoaria falhas. Richard estava ao lado somente esperando a bomba explodir na minha cara.
- Atrasado. - Meu pai rosnou, apertando minha mão com tanta força que doeu.
- Meu pedido de desculpas, Pai. Estava garantindo que um detalhe da fusão estivesse cem por cento. Os Valencourt apreciam o meu zelo, você sabe. - Richard sorriu, mas não falou nada.
Mentira após mentira. Ele relaxou um pouco. Robert nunca se importava com o "zelo". Ryan, sim. Eu estava misturando os personagens. Eu precisava me concentrar.
- Certo. Agora, Anne está chegando. Seja gentil. Ela não é como as suas... amigas.
O golpe foi intencional. Robert tinha uma longa lista de 'amigas'. Eu, Ryan, mantinha minha vida privada sob chave. Mas na persona de Robert, eu apenas revirei os olhos de brincadeira.
- Eu sei, Pai. Anne é uma mulher tímida, não gosta de chamar atenção. Não se preocupe. - Meu pai me olha estranho, mas também não fala nada.
E então, ela entrou.
Anne Valencourt.
A mulher que seria a esposa do meu irmão.