Pré-visualização gratuita Prólogo:
"Tudo que é nosso sempre encontra o caminho de volta... Ele nunca falha."
[...]
Acabei de chegar a Stanford. Já passava das oito da noite. Como não haveria tempo hábil para visitar o escritório, Adrian sugeriu que eu conhecesse parte da cidade antes de encerrarmos a noite com um drink, onde poderíamos discutir os detalhes da minha estadia.
Enquanto nos acomodamos no bar, percebi alguns sussurros ao redor, mas a distância e o burburinho impediram que eu compreendesse o conteúdo. As luzes, antes intensas, começaram a diminuir gradativamente, criando uma atmosfera quase teatral. Virei-me para questionar Adrian sobre o motivo, mas minha voz morreu antes mesmo de ganhar forma.
Tudo ao meu redor pareceu paralisar.
O som ambiente se dissolveu.
Só restou o compasso descompassado do meu próprio coração, pulsando com violência dentro do peito.
O copo vacilou entre meus dedos até cair, enquanto aquela voz, aquela maldita e inconfundível voz, atravessava o espaço e me atingia em cheio.
Forte. Nítida.
Eu a reconheceria em qualquer lugar. Até de olhos fechados...
[...]
I heard that you're settled down
Eu soube que você se estabeleceu
That you found a girl and you're married now
Que encontrou uma garota e agora está casado
I heard that your dreams came true
Ouvi dizer que os seus sonhos se realizaram
Guess she gave you things I didn't give to you
Acho que ela te deu coisas que eu não pude te dar
Old friend, why are you so shy?
Velho amigo, por que você está tão tímido?
Ain't like you to hold back or hide from the light
Não é do seu feitio se conter ou se esconder da luz
I hate to turn up out of the blue, uninvited
Odeio aparecer do nada, sem ser convidada
But I couldn't stay away, I couldn't fight it
Mas eu não consegui ficar longe, não consegui lutar contra isso
I had hoped you'd see my face
Eu tinha esperança de que você veria meu rosto
And that you'd be reminded that for me, it isn't over
E que se lembrasse de que, para mim, isso ainda não acabou
Never mind, I'll find someone like you
Deixa pra lá, eu vou encontrar alguém como você
I wish nothing but the best for you too
Eu desejo nada além do melhor para você também
"Don't forget me," I beg
"Não se esqueça de mim", eu imploro
I remember you said
Eu me lembro que você disse
"Sometimes it lasts in love, but sometimes it hurts instead"
"Às vezes o amor dura, mas às vezes ele machuca em vez disso"
[...]
A cada palavra que ela canta, parece que alguma ferida em mim se reabre, como se houvesse sido feita para nunca cicatrizar. Uma lágrima solitária escorre pelo meu rosto. Minhas mãos se fecham com força, como se isso fosse o suficiente para impedir que o resto do meu corpo ceda à emoção. A respiração fica pesada, irregular, acompanhando o impacto de cada nota que ela entoa.
Olho ao redor. As pessoas assistem comovidas, emocionadas… Como se soubessem o que ela sente. Como se pudessem entender. Ela canta como quem sofre, como quem se entrega. E, por mais que eu tente racionalizar, por mais que eu me obrigue a manter o controle, tudo em mim grita a mesma pergunta: Como ela tem coragem? Como ela ousa?
Meu olhar segue preso a cada detalhe dela. Perdeu peso. Isso é evidente. Mas não há nada que apague a beleza que sempre carregou. Os cabelos castanhos presos num coque desleixado. A calça jeans preta, a camiseta escura sob um blusão largo. O rosto, mais fino, os cílios longos e agora molhados pelas lágrimas que escorrem sem disfarce.
Ela canta de olhos fechados. Como se quisesse se esconder do próprio sofrimento. Como se cantar fosse a única forma de colocar para fora o que não consegue dizer. De uma certa forma sim, ela sempre usou a música para fugir de si mesma.
Minha cabeça lateja. O orgulho e a mágoa se misturam com a vontade de arrancá-la dali, de exigir respostas que ficaram anos engasgadas. Mas, acima de tudo, uma certeza me sufoca: Ela não está bem. E eu também não.
De repente, me levanto da poltrona. Não consigo mais ficar sentado. As lembranças me invadem com uma força que eu não estava preparado para encarar. Sinto a garganta arder, o estômago revirar.
Com passos firmes, caminho até o bar. Peço uma garrafa de tequila. Não um copo. A garrafa. Preciso de algo que me cale por dentro. Que anestesie, nem que seja por alguns minutos.
Adrian me chama, preocupado. Levanto a mão, em um gesto seco, impedindo-o de vir até mim. Agora não.
Por quê? Por que tudo isso ainda me afeta? Por que essa dor maldita ainda mora aqui dentro?
Sinto vontade de socar algo. Qualquer coisa. Até essa sensação desgraçada sair de mim.
Ela continua a cantar...
[...]
Sometimes it lasts in love, but sometimes it hurts instead, yeah
Às vezes o amor dura, mas às vezes ele machuca em vez disso, sim
You know how the time flies
Você sabe como o tempo voa
Only yesterday was the time of our lives
Foi só ontem que vivíamos o melhor momento de nossas vidas
We were born and raised in a summer haze
Nós nascemos e crescemos em uma névoa de verão
Bound by the surprise of our glory days
Presos à surpresa dos nossos dias de glória...
Nothing compares, no worries or cares
Nada se compara, sem preocupações ou cuidados
Regrets and mistakes, they're memories made
Arrependimentos e erros, são memórias feitas
Who would have known how bittersweet this would taste?
Quem diria que isso teria um gosto agridoce?
[...]
Em vez de beber, permaneci ali, com os olhos fixos nela enquanto finalizava a canção. Uma mão enterrada no bolso, a outra segurando a garrafa com força desnecessária. Voltei para o meu lugar, mas não consegui me sentar. Permaneci de pé, observando-a na penumbra do ambiente. Era simbólico... A mesma escuridão que, mais uma vez, parecia me engolir por dentro.
Por quê? Essa maldita pergunta voltou a pulsar na minha cabeça com a mesma violência de antes. Por que o destino insiste em me arrastar de volta para isso? Para ela?
Antes que a música terminasse, fui até Adrian, peguei as chaves do carro e saí do bar. Ele hesitou em me entregar, mas bastou um olhar para que entendesse. Neguei com a cabeça, deixando claro que não queria conversa.
Saí dali enquanto os aplausos ecoavam, e ela, visivelmente constrangida, pedia desculpas pelo atraso e pela forma como havia subido ao palco.
A passos rápidos, segui em direção ao carro. Apertei as chaves com tanta força que o metal gelado quase rasgou a pele da minha mão. Ao destravar, joguei a bebida no banco do passageiro e me sentei ao volante, inclinando o corpo para frente.
Fechei os olhos com mais força do que deveria. A imagem dela continuava ali. A voz... O maldito timbre que ecoava na minha cabeça como uma provocação.
Furioso, comecei a socar o volante com as duas mãos, tentando, em vão, expulsar aquela raiva acumulada. A pergunta martelava de novo: por quê?
Não percebi o tempo passando. Quando ergui a cabeça, ela já estava do lado de fora, entrando em um carro.
Girei a chave na ignição, engatei a marcha e a segui. Mantive distância, mas não o suficiente para perdê-la de vista.
Depois de alguns minutos, ela estacionou na garagem de uma casa. Desceu e entrou sem olhar para trás.
Te achei, Evelyn. Te achei, sua filha da p**a.
Limpei a lágrima teimosa que ainda escorria pelo meu rosto e apertei o volante com tanta força que, por um instante, achei que fosse arrancá-lo dali.
Olhei ao redor. Uma placa na casa ao lado me chamou a atenção: "Aluga-se".
Perfeito.
Te achei, desgraçada.