AYLA
Empurrei o portão devagar.
Por alguns segundos, fiquei parada diante da casa.
Era exatamente como eu lembrava.
O mesmo portão velho.
A mesma parede descascada.
As mesmas plantas que minha avó insistia em cuidar, mesmo quando já não tinha forças para se levantar sozinha.
Meu peito apertou.
Eu tinha imaginado aquele momento durante toda a viagem.
Tinha imaginado minha avó vindo correndo me abraçar.
Tinha imaginado o sorriso dela.
Tinha imaginado a voz dizendo que eu estava magra demais e que precisava comer.
Mas alguma coisa me dizia que a realidade seria diferente.
Respirei fundo e bati três vezes na porta.
— Vó?
Nada.
Bati novamente.
— Vó, sou eu!
Ouvi um barulho vindo de dentro.
Depois, passos lentos.
A maçaneta girou.
E então a porta se abriu.
Meu coração parou.
Minha avó estava ali.
Mas não era a mesma mulher
Ela parecia menor.
Mais frágil.
Os cabelos brancos estavam presos em um coque frouxo e seu rosto carregava marcas profundas de cansaço.
Mas os olhos...
Ah, aqueles olhos eram os mesmos.
— Ayla?
Minha garganta fechou.
— Oi, vó.
Ela levou uma das mãos ao peito.
— Minha menina...
Não consegui dizer mais nada.
Larguei a mala no chão e corri para os braços dela.
O abraço foi apertado.
Talvez apertado demais para alguém que estava tão fraca.
Mas nenhum de nós pareceu se importar.
— Você veio mesmo.
A voz dela estava diferente.
Mais fraca.
— É claro que eu vim.
— Seus pais não queriam deixar.
— Eles não mandam em mim.
Ela riu.
Aquele som quase me fez chorar.
— Continua respondona.
— E você continua teimosa.
— Eu sou sua avó.
— E daí?
— Tenho esse direito.
— Não tem, não.
Ela me apertou novamente.
E foi naquele momento que percebi o quanto sentia falta daquela mulher.
Minha avó tinha sido meu porto seguro durante toda a minha vida.
Quando tudo dava errado, era para ela que eu corria.
Quando eu precisava de um conselho, ligava para ela.
Quando brigava com meus pais, era para a casa dela que eu queria fugir.
Agora era a minha vez de cuidar dela.
— Você está tão magrinha.
Fechei os olhos.
Eu sabia.
Eu sabia que aquela seria a primeira coisa que ela diria.
— Vó...
— Está comendo direito?
— Estou.
— Mentira.
— Não é mentira.
Ela segurou meu rosto.
— Você sempre foi r**m de mentir.
Sorri.
— Você também.
— Eu sou ótima.
— Vó, você esquece até onde coloca os óculos.
— Isso é porque eles são pequenos.
— Eles ficam no seu rosto.
— Detalhes.
Começamos a rir.
E, por alguns minutos, esqueci completamente que minha avó estava doente.
Esqueci o morro.
Esqueci meus pais.
Esqueci a viagem.
Esqueci tudo.
Até que ela precisou se apoiar em mim para caminhar.
Foi aí que o sorriso desapareceu.
— Devagar.
— Eu consigo andar sozinha.
— Eu sei.
Segurei seu braço.
— Mas não precisa.
Ela me olhou.
Não discutiu.
Entramos na casa.
Minha primeira impressão foi de que tudo estava menor.
Ou talvez fosse porque eu tinha crescido.
Passei os olhos pela sala e senti uma saudade estranha.
As fotografias antigas ainda estavam espalhadas pelos móveis.
Eu pequena.
Minha mãe adolescente.
Meu pai com alguns anos a menos.
E minha avó.
Sempre minha avó.
— Você vai ficar aqui comigo?
Olhei para ela.
— Vou.
— Por quanto tempo?
— O tempo que precisar.
Ela respirou fundo.
— Não quero atrapalhar sua vida.
— Você nunca atrapalhou.
— Ayla...
— Vó, eu estou falando sério.
Sentei ao lado dela.
— Eu vim porque quis.
— Seus pais...
— Eles estão preocupados.
— Eu sabia.
— Mãe acha que todo homem do Vidigal vai tentar me sequestrar.
Minha avó arregalou os olhos.
— Sua mãe continua exagerada.
— Muito.
— E seu pai?
— Pior.
Ela começou a rir novamente.
Foi então que percebi.
Apesar de estar fraca...
Minha avó estava feliz.
E isso já fazia toda aquela viagem valer a pena.
Depois de algum tempo, ajudei-a a tomar os remédios e preparei alguma coisa para ela comer.
Enquanto eu organizava a cozinha, minha mente voltou para o encontro que tinha acontecido minutos antes.
Corvo.
Não sei por quê.
Mas aquele homem tinha ficado preso na minha cabeça.
Talvez porque ele fosse diferente.
Ou talvez porque eu tivesse curiosidade.
Sim.
Era apenas isso.
Curiosidade.
Nada mais.
— Vó?
— Hum?
— Quem é o Corvo?
Minha avó ficou em silêncio.
Parei o que estava fazendo.
Olhei para ela.
Ela estava sentada na cadeira da cozinha.
O rosto dela havia mudado.
— Por que quer saber?
— Eu conheci ele.
— Conheceu?
— Sim.
— Onde?
— Na frente da sua casa.
Minha avó soltou um suspiro.
— Ele foi falar com você?
— Foi.
Ela ficou pensativa.
— O que ele queria?
— Saber quem eu era.
— E você disse?
— Que sou sua neta.
Minha avó me encarou.
— E o que mais?
— Nada.
Mentira.
Eu estava omitindo a parte em que fiquei olhando para ele como uma completa i****a.
Isso definitivamente não precisava ser contado.
— Ele perguntou se eu era a Ayla.
Minha avó pareceu surpresa.
— Então ele já sabia quem você era.
— Foi o que pensei.
— Corvo sabe de tudo que acontece aqui.
— Isso é meio assustador.
— É o jeito dele.
— Você parece conhecer ele bem.
Minha avó desviou o olhar.
Aquilo despertou ainda mais minha curiosidade.
— Vó?
— O quê?
— Há quanto tempo você conhece o Corvo?
Ela suspirou.
— Desde que ele era um garoto.
— Sério?
Assentiu.
— Eu vi aquele menino crescer.
Meu cérebro imediatamente voltou para o homem que eu tinha encontrado.
Garoto?
Difícil imaginar.
Corvo parecia ter nascido com aquela expressão séria.
— Ele sempre foi assim?
Minha avó franziu a testa.
— Assim como?
Pensei por alguns segundos.
— Mandão.
Ela riu.
— Muito.
— Grosso.
— Bastante.
— Intimidador.
— Você já percebeu?
— Vó!
Ela gargalhou.
— Minha filha, você não sabe nem a metade.
Aquilo me fez sentar na cadeira em frente a ela.
— Agora eu quero saber.
— Não tem nada para saber.
— Tem sim.
— Ayla...
— Você acabou de dizer que eu não sei nem a metade.
Minha avó me olhou por alguns segundos.
— Corvo é um homem complicado.
— Percebi.
— E perigoso.
Fiquei quieta.
— Não precisa ter medo dele.
— Eu não tenho.
Minha avó ergueu uma sobrancelha.
— Não?
— Não.
— Então por que está tão interessada?
Abri a boca.
Fechei.
Droga.
— Não estou interessada.
— Não?
— Não.
Minha avó sorriu.
Aquele sorriso que dizia que ela não acreditava em uma única palavra.
— Só estou curiosa.
— Curiosidade demais pode colocar uma pessoa em problemas.
— Eu só perguntei quem ele é.
— E já está querendo saber mais.
— Porque você não me contou nada!
Ela balançou a cabeça.
— Corvo não é homem para brincadeira.
Aquelas palavras deveriam ter servido como aviso.
Talvez para qualquer outra pessoa.
Mas, para mim...
Fizeram exatamente o contrário.
Porque, naquele momento, eu queria saber ainda mais.
Quem era aquele homem?
Por que todos falavam dele daquele jeito?
O que havia por trás daquele olhar?
E por que, quando ele disse meu nome...
Eu senti algo estranho dentro de mim?
Talvez fosse apenas curiosidade.
Eu repetia aquilo mentalmente.
Era apenas curiosidade.
Nada mais.
Eu tinha acabado de chegar ao Vidigal.
Estava ali para cuidar da minha avó.
Não tinha tempo para me envolver com homem nenhum.
Muito menos com um homem como Corvo.
Um homem que tinha cinquenta anos.
Um homem que comandava um morro inteiro.
Um homem que todos temiam.
E, principalmente...
Um homem que parecia ter percebido exatamente o quanto eu o observei.
Balancei a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos.
— Você vai me contar alguma coisa sobre ele?
Minha avó sorriu.
— Um dia.
— Vó!
— Agora vá desfazer sua mala.
— Isso não é justo.
— A vida não é justa, Ayla.
Levantei contrariada.
Mas, antes de sair da cozinha, olhei mais uma vez para ela.
Minha avó estava sorrindo.
E eu sabia que aquela história estava longe de terminar.
Porque, embora eu tivesse chegado ao Vidigal para cuidar dela...
Alguma coisa me dizia que aquele morro ainda guardava muitos segredos.
E, entre todos eles...
O maior de todos parecia ter nome.
Corvo.