CAPÍTULO 4

1366 Palavras
AYLA Apertei a mão no portão velho, pronta para bater mais uma vez. Minha avó provavelmente estava dormindo. Ou talvez tivesse esquecido que eu estava chegando. Não seria nenhuma surpresa. Dona Ana era capaz de esquecer até o próprio aniversário, mas lembrava perfeitamente de todas as fofocas do morro. Levantei a mão novamente. Foi quando ouvi uma voz atrás de mim. — Tá procurando alguém? Meu corpo inteiro ficou imóvel. Por alguns segundos, fiquei apenas olhando para o portão. Não sei por quê. Talvez porque aquela voz tivesse alguma coisa diferente. Era grave. Baixa. E carregava uma autoridade que fez meu cérebro imediatamente lembrar do homem que eu tinha conhecido na entrada do morro. O tal Corvo. Virei lentamente. E... Porra. Foi a primeira coisa que pensei. O homem parado atrás de mim era mais velho. Muito mais velho. Mas, definitivamente, era um homem. Não um moleque. Não um garoto da minha idade tentando parecer mais maduro do que realmente era. Um homem de verdade. Meu olhar percorreu seu corpo sem minha autorização. Ele era grande. Muito grande. Os ombros largos estavam cobertos por uma camiseta escura que marcava seu corpo forte. Os braços eram grossos e, mesmo de longe, era possível perceber algumas tatuagens espalhadas pela pele. Meu olhar desceu. Parei nas mãos. Grandes. Fortes. Mãos que pareciam capazes de segurar qualquer coisa. E, infelizmente, minha mente resolveu trabalhar mais do que deveria. Imaginei coisas que definitivamente não deveria imaginar com um desconhecido. Engoli em seco. Ayla. Se controla. Meus olhos voltaram rapidamente para o rosto dele. Péssima ideia. Porque o homem era lindo. Não daquele jeito delicado que alguns homens da minha idade tentavam forçar. Era um tipo diferente de beleza. Uma beleza perigosa. O rosto sério. A barba bem cuidada. O olhar escuro. A postura de quem não precisava levantar a voz para ser obedecido. Ele simplesmente estava ali. E parecia saber exatamente o efeito que causava. Ou talvez não. Talvez homens como ele nem precisassem pensar nisso. — Oi. Foi tudo o que consegui responder. Ridículo. Eu tinha vinte anos. Era uma mulher adulta. Sabia conversar. Sabia me defender. Mas bastou aquele homem aparecer atrás de mim para meu cérebro decidir entrar de férias. Ele permaneceu me encarando. — Você é a Ana? Pisquei. — Minha avó? A sobrancelha dele se levantou levemente. — Não. Quase revirei os olhos. — Então não. Pela primeira vez, tive a impressão de que o canto da boca dele se mexeu. Não chegou a ser um sorriso. Definitivamente não. Mas alguma coisa mudou. — Você quem é? Cruzei os braços. Era minha vez de perguntar. O homem ficou em silêncio por alguns segundos. Então respondeu: — Corvo. Meu coração deu uma pequena acelerada. Então era ele. O Rei do Morro. O homem que meus pais tinham feito questão de me alertar para manter distância. O homem que, segundo todos, comandava aquele lugar. Olhei novamente para ele. Agora com mais atenção. Corvo. O nome combinava. Ele realmente tinha alguma coisa de assustador. Mas eu não conseguia sentir medo. Talvez porque estivesse ocupada demais tentando entender por que aquele homem conseguia prender tanto a minha atenção. — Satisfação. Minha voz saiu antes que eu pudesse pensar. Ele me encarou. — Satisfação? — É. Estendi a mão. — Ayla. Os olhos dele desceram para minha mão. Depois voltaram para o meu rosto. Por um instante, achei que ele não fosse apertá-la. Mas Corvo segurou minha mão. E meu corpo inteiro pareceu perceber o contato antes mesmo da minha cabeça. A mão dele era exatamente como eu tinha imaginado. Grande. Quente. Forte. Meu Deus. Soltei rapidamente. Antes que meu cérebro tivesse outra ideia i****a. — Prazer — respondi. Ele não disse nada. Apenas continuou me olhando. Aquilo estava começando a ficar estranho. Ou talvez eu estivesse estranha. Porque não conseguia parar de encará-lo. Nunca fui muito interessada em homens da minha idade. Talvez porque eu sempre tivesse gostado de aprender. Não de ensinar. E vamos combinar... Homens de vinte anos, na maioria das vezes, ainda estavam tentando descobrir quem eram. Corvo já sabia. Aquele homem carregava mais idade nas costas. Experiências. Erros. Talvez, perdas. Ele tinha uma segurança que nenhum garoto da minha idade conseguiria fingir. E eu sempre fui atraída por isso. Por homens que sabiam o que queriam. Homens que não precisavam ficar se exibindo para provar alguma coisa. O problema era que eu estava encarando demais. Muito mais do que seria considerado normal. Percebi isso quando Corvo inclinou levemente a cabeça. — Terminou? — O quê? — De me olhar. Meu rosto esquentou. Droga. Ele tinha percebido. — Eu não estava olhando. A resposta saiu rápida demais. Corvo me encarou. Dessa vez, eu tive certeza. Ele quase sorriu. — Não? — Não. — Tá bom. O jeito como falou me fez ter certeza de que não acreditava nem um pouco. Cruzei os braços novamente. — Você sempre aborda desconhecidas assim? — Só as que ficam paradas na frente da casa dos outros. — Essa é a casa da minha avó. — Eu sei. Franzi a testa. — Sabe? — Sei. — Então por que perguntou? Corvo me olhou como se eu tivesse acabado de fazer a pergunta mais óbvia do mundo. — Porque queria ouvir de você. Fiquei em silêncio. Aquele homem era irritante. E interessante. Uma combinação perigosa. — Então você sabe quem eu sou? — Sei. — Como? — O morro fala. — Isso é assustador. — É a realidade. Olhei ao redor. Talvez ele tivesse razão. Naquele lugar, parecia que todo mundo sabia da vida de todo mundo. Corvo deu um passo na minha direção. Meu corpo reagiu antes que eu pudesse controlar. Ele era ainda maior de perto. Muito maior. E aquele cheiro... Porr@. Era impossível ignorar. — Você é a neta da dona Ana. Não foi uma pergunta. — Sou. — A Ayla. — A própria. Ele me analisou novamente. Dessa vez, de um jeito diferente. Não parecia estar admirando. Parecia avaliando. Como se estivesse tentando descobrir quem eu era. — Sua avó é muito querida aqui. Meu sorriso apareceu automaticamente. — Eu sei. — Não sabe. A resposta me surpreendeu. — Como assim? — Você sabe que ela é querida. Mas não sabe o quanto. Fiquei quieta. Corvo continuou: — Dona Ana mora nesse morro há muitos anos. Todo mundo conhece ela. Todo mundo respeita ela. Meu peito aqueceu. Minha avó sempre dizia que aquele lugar era a casa dela. Agora eu entendia um pouco melhor. — Ela nunca quis sair daqui. — Eu sei. — Minha família já tentou convencer. — Ela não vai. Ri. — É teimosa. — Muito. Olhei para ele. — Então você conhece minha avó há bastante tempo? — Conheço. A resposta veio simples. Sem detalhes. Sem explicações. Era como se Corvo não gostasse de falar mais do que o necessário. — E você veio aqui por quê? Ele me encarou. — Vim ver você. Meu coração acelerou. — Eu? — Você. Fiquei sem saber o que responder. Corvo manteve os olhos nos meus. — Soube que sua avó estava doente. Minha expressão mudou imediatamente. — Ela está muito m*l? — Não. Ele respondeu rápido. — Mas precisa de companhia. Respirei aliviada. — Eu vim exatamente para isso. — Eu sei. — Então pronto. Apontei para o portão. — Agora, se você não se importa, eu gostaria de entrar e ver minha avó. Corvo não saiu da frente. Fiquei olhando para ele. — Algum problema? — Nenhum. — Então... Ele finalmente deu espaço. Passei por ele puxando minha mala. Mas, antes de chegar á porta , ouvi sua voz novamente. — Ayla. Parei. Virei lentamente. Corvo estava me olhando. — Bem-vinda ao Vidigal. Sorri. — Obrigada. Ele continuou me encarando. E, naquele instante, alguma coisa me dizia que aquele encontro não tinha sido uma simples coincidência. Eu ainda não sabia. Não sabia que aquele homem seria o responsável por virar minha vida de cabeça para baixo. Não sabia que Corvo seria capaz de despertar em mim sentimentos que eu nunca havia experimentado. E muito menos sabia que, para um homem que dizia não acreditar no amor... Eu estava prestes a me tornar a sua maior obsessão.
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