CAPÍTULO 3

1189 Palavras
AYLA A chegada ao Rio de Janeiro foi muito melhor do que eu esperava. Na verdade, acho que não estava preparada para o que encontraria. Assim que o ônibus entrou na cidade, fiquei grudada na janela, observando tudo como uma criança. Meu Deus... Que cidade linda! O movimento, os prédios, as praias que eu conseguia enxergar de longe... Tudo parecia muito maior do que eu imaginava. Eu tinha vindo algumas vezes ao Rio quando era criança, mas nunca tinha prestado tanta atenção assim. Talvez porque, naquela época, meu único interesse fosse ficar ao lado da minha avó. Agora era diferente. Eu estava chegando para ficar. Pelo menos por algum tempo. Peguei minha mochila e conferi novamente o endereço que minha mãe tinha anotado no meu celular. Morro do Vidigal. Soltei um suspiro. Era ali que minha nova vida começaria. Desci do ônibus e, depois de pegar minha mala, segui o caminho indicado pela minha mãe. O calor estava de matar. Eu já estava sentindo minha testa suar quando finalmente avistei a entrada do morro. Foi aí que meu passo diminuiu. Não porque eu estivesse com medo. Bom... Talvez um pouquinho. Havia muitos homens espalhados pela entrada. E quase todos estavam armados. Parei por alguns segundos, observando discretamente. Eu sabia que aquilo fazia parte da realidade daquele lugar. Minha avó sempre contou histórias sobre o Vidigal e, claro, meus pais fizeram questão de me assustar durante semanas antes da viagem. Mas uma coisa era ouvir. Outra completamente diferente era estar ali. Respirei fundo. Apertei a alça da mochila e comecei a caminhar. Eu não tinha vindo até o Rio para desistir na entrada. Além disso, precisava encontrar minha avó. Aproximei-me devagar de um homem que estava parado perto da barreira. Ele era forte. Muito forte. Moreno, alto e tinha uma expressão séria que não combinava nem um pouco com alguém que eu gostaria de conversar. Mas era ele ou eu ficaria ali parada até alguém resolver me perguntar o que eu queria. Então... Sorrir nunca matou ninguém. Pelo menos era o que eu esperava. — Oi. Bom dia. O homem virou o rosto na minha direção. Seus olhos me analisaram dos pés à cabeça. Não gostei nem um pouco. Cruzei os braços. — Está perdida, mina? — Não. Ele levantou uma sobrancelha. — Não? — Vim cuidar da minha avó. — Quem é tua avó? — Ana. O homem ficou em silêncio por alguns segundos. — Dona Ana? — Isso. Ele pareceu me reconhecer. — Casa? Peguei o celular e mostrei o endereço. — Casa quinze. Você conhece ela? O homem assentiu. — Tô ligado. Sorri, aliviada. — Ótimo. Então você pode me explicar como eu chego lá? Ele continuou me encarando. — Tu é a Ayla? Pisquei algumas vezes. — A própria. O homem pareceu confirmar alguma coisa mentalmente. Depois, virou o rosto para um dos rapazes que estava mais afastado. — Já é a mina. O garoto assentiu. Eu franzi a testa. — Mina? Ele voltou a me olhar. — Vou avisar o Corvo. Meu sorriso desapareceu. — O Corvo? Ele já estava pegando o celular. — É. — Quem é ele? O homem me lançou um olhar estranho. Quase como se minha pergunta fosse absurda. — Tu não sabe quem é o Corvo? — Se eu soubesse, não teria perguntado. Ele soltou uma risada curta. — Tá bom. Então começou a falar ao telefone. Fiquei ali parada. Esperando. O calor continuava castigando minha pele, e eu já estava começando a me arrepender de ter escolhido uma calça jeans para viajar. Olhei para cima. O sol parecia estar determinado a me cozinhar viva. Cinco minutos. Dez. Quinze. Nada. Cruzei os braços. Eu tinha viajado horas para chegar até ali e agora estava esperando a autorização de um homem que nem conhecia para subir o morro. Aquilo era, no mínimo, curioso. E um pouco irritante. — Quem é esse Corvo? O homem me olhou. — O dono do morro. Ah. Então era ele. O famoso traficante que meus pais passaram semanas me mandando evitar. O homem que, segundo minha mãe, eu não deveria nem olhar. O Rei do Morro. Corvo. Eu quase ri. Quase. Mas decidi guardar meu julgamento para depois. Finalmente, depois de mais alguns minutos, o homem guardou o celular. — Pode subir, mina. — Finalmente. Ele ignorou meu comentário. — Mas se liga na tua caminhada. Parei. — Como assim? — O morro tem regra. Ele apontou para cima. — Andando certo, não tem erro. Se ligou? Assenti. — Sim, claro. Ele me encarou mais uma vez. — E não dá ideia errada pra ninguém. Arqueei a sobrancelha. — Eu só quero cuidar da minha avó. — Melhor ainda. Ele apontou para uma viela. — Sobe por ali. Vai passar por uma escadaria. Depois vira à direita, segue reto até uma venda e pergunta pela casa quinze. — Só isso? — Só. — Obrigada. Comecei a puxar minha mala. — Ayla. Parei e olhei para trás. O homem me encarava. — Qualquer fita estranha, procura a gente. Assenti. — Pode deixar. Voltei a caminhar. O começo da subida não foi tão difícil. O problema foi a mala. Aquela maldita mala parecia pesar uma tonelada. — Quem inventou escada em morro definitivamente odiava malas. Resmunguei sozinha. Mesmo cansada, não conseguia parar de olhar ao redor. O Vidigal era completamente diferente de tudo que eu conhecia. As pessoas circulavam pelas vielas como se aquela fosse uma cidade dentro da própria cidade. Crianças brincavam. Mulheres conversavam nas portas. Comerciantes trabalhavam. Motos subiam e desciam. Havia música vindo de algum lugar. Gente sorrindo. Gente observando. E, claro... As armas. Era impossível ignorá-las. Confesso que aquilo ainda me deixava um pouco desconfortável. Mas eu sabia como as coisas funcionavam. Minha avó nunca escondeu a realidade do lugar onde morava. Ela sempre dizia que o Vidigal era a casa dela. E que jamais sairia dali. Minha mãe já tinha tentado convencê-la várias vezes. Sem sucesso. Minha avó era uma velha teimosa. Muito teimosa. Suspirei. — Tenho a quem puxar. Continuei subindo. A cada passo, a paisagem parecia mais bonita. O Rio se espalhava diante dos meus olhos. Eu conseguia entender por que minha avó amava tanto aquele lugar. Depois de alguns minutos, finalmente encontrei a rua indicada. Olhei para os números das casas. Onze. Treze. Meu coração acelerou. Quinze. Parei diante de um portão velho. Na frente dele, havia uma pequena placa com o número 15. Fiquei alguns segundos olhando. Era ali. A casa da minha avó. Apertei a alça da mochila. Depois de tantas horas de viagem... Eu finalmente tinha chegado. Levantei a mão para bater no portão. Mas, antes que meus dedos tocassem a madeira... Ouvi uma voz masculina atrás de mim. — Tá procurando alguém? Meu corpo inteiro ficou imóvel. Virei lentamente. E foi naquele instante que percebi que talvez meus pais não estivessem exagerando tanto assim. Porque o homem parado alguns metros atrás de mim... Tinha um olhar que fazia qualquer pessoa pensar duas vezes antes de responder. E, pela primeira vez desde que cheguei ao Vidigal... Eu me perguntei se aquele seria o tal Corvo.
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