AYLA
— Relaxa, Ayla.
Rafaela pegou meu braço novamente e me puxou para dentro do mercado.
— Vamos comprar as coisas da sua avó.
— E depois?
— Depois você vai para casa.
— E o baile?
Rafaela sorriu.
— Amanhã.
Meu estômago deu um pequeno frio.
Amanhã.
Minha primeira noite no baile do Vidigal.
Eu ainda não sabia o que encontraria lá.
Muito menos quem encontraria.
Mas alguma coisa me dizia que aquela noite seria diferente.
E, talvez, Rafaela estivesse certa.
Talvez eu realmente estivesse prestes a descobrir que o Vidigal era muito mais do que eu imaginava.
Principalmente quando se tratava do homem que todos chamavam de...
Rei do Morro.
— Para de pensar nisso — Rafaela disse.
Virei o rosto.
— Pensar no quê?
Ela arqueou uma sobrancelha.
— No baile.
— Eu não estava pensando no baile.
— Estava, sim.
— Não estava.
— Ayla.
— Rafaela.
Ela começou a rir.
— Tá bom. Não estava.
— Obrigada.
— Mas vai pensar.
— Você é insuportável.
— E você acabou de me conhecer.
— Já percebi.
Entramos no corredor de frutas e verduras.
Eu peguei algumas coisas enquanto Rafaela empurrava o carrinho.
— Sua avó come bem?
— Mais ou menos.
— Mais ou menos não é resposta.
— Ela come o que quer.
— Então está explicado.
— O quê?
— Por que a pressão está alta.
— Não fala assim.
— Estou falando sério.
— Eu também.
— Você precisa ficar de olho nela.
— Eu vou.
Coloquei algumas frutas no carrinho.
— Vou organizar os horários dos remédios dela.
— Boa.
— E vou tentar fazer ela comer melhor.
— Boa sorte.
— Por quê?
Rafaela parou.
— Porque dona Ana é teimosa.
— Eu já percebi.
— Muito.
— Eu também sou.
— Então vocês estão ferradas.
Comecei a rir.
— Obrigada pelo apoio.
— Estou aqui para isso.
Continuamos andando.
Foi quando percebi uma mulher parada alguns metros à frente.
Ela estava perto de uma das prateleiras, mexendo no celular.
Bonita.
Muito bonita.
Tinha cabelos longos, roupas justas e uma postura que parecia dizer que ela sabia exatamente o efeito que causava nas pessoas.
Até aí, tudo bem.
O problema foi quando ela levantou os olhos.
E me encarou.
Não foi um olhar rápido.
Ela literalmente me mediu dos pés à cabeça.
Sem disfarçar.
Meu primeiro impulso foi ignorar.
Mas então ela olhou novamente.
Dessa vez, demorando ainda mais.
Franzi a testa.
Quem aquela mulher pensava que era?
Rafaela percebeu.
— Ayla.
— O quê?
— Não.
— Não o quê?
— Não olha.
— Ela está olhando para mim.
— Eu sei.
— Então eu vou olhar também.
— Ayla...
Virei o rosto lentamente.
E fiz exatamente a mesma coisa.
Olhei para ela dos pés à cabeça.
Sem pressa.
Sem vergonha.
Depois voltei a encarar seus olhos.
A mulher pareceu surpresa.
Talvez não esperasse que eu retribuísse.
Rafaela segurou meu braço.
— Você quer arrumar confusão no seu segundo dia?
— Eu só olhei.
— Você encarou.
— Ela fez a mesma coisa.
— E você precisava devolver?
— Precisava.
Rafaela fechou os olhos.
— Meu Deus.
— O quê?
— Você é pior do que eu imaginei.
— Obrigada.
— Isso não foi elogio.
— Eu sei.
A mulher passou perto de nós.
Quando chegou ao nosso lado, lançou outro olhar.
Dessa vez, diretamente para mim.
Eu mantive o rosto impassível.
Ela continuou andando.
Olhei para Rafaela.
— Quem é ela?
Rafaela ficou alguns segundos em silêncio.
Rafaela me encarou.
— Ayla, você acabou de chegar ao morro.
— E daí?
— Você ainda nem conhece as pessoas daqui.
— Por isso estou perguntando.
Ela olhou ao redor, como se estivesse verificando se alguém estava prestando atenção.
Depois se aproximou de mim.
— Aquela ali é uma marmita.
—De vez em quando, ela fica com o Corvo.
Meu corpo ficou imóvel por um segundo.
Não sei por quê.
Talvez tenha sido apenas surpresa.
Afinal, eu sabia que Corvo era um homem solteiro.
Um homem de cinquenta anos.
Era óbvio que ele tinha se relacionado com outras mulheres.
Eu não tinha motivo algum para me importar.
Nenhum.
— Ah.
Foi tudo o que consegui dizer.
Rafaela me olhou.
— Só isso?
— O que você queria que eu falasse?
— Sei lá.
— Eu não tenho nada a ver com a vida dele.
— Ainda bem.
— Ainda bem por quê?
— Porque essa mulher adora provocar.
Olhei discretamente na direção dela.
— Ela está olhando de novo.
— Ignora.
— Eu estou ignorando.
— Você está olhando.
— Só estou vendo.
— Ayla.
— Tá bom.
Desviei o olhar.
Mas minha cabeça continuou naquela informação.
Ela fica com o Corvo.
Não era da minha conta.
Eu sabia disso.
Mas, por algum motivo, aquela frase não saía da minha cabeça.
Corvo tinha uma vida antes de mim.
Não que eu fizesse parte da vida dele.
Eu m*l o conhecia.
Mas, ainda assim...
A imagem daquela mulher ao lado dele apareceu na minha mente.
E eu odiei.
Parei imediatamente.
Odiei?
Por que eu odiaria uma coisa dessas?
Aquilo não fazia sentido.
— Porque algumas mulheres acham que ficar perto do homem mais poderoso do morro faz delas alguém importante.
— E não faz?
Rafaela soltou uma risada.
— Não.
— Então por que ela faz isso?
— Porque quer aparecer.
Olhei novamente para a mulher.
Ela estava conversando com outra pessoa.
— E o Corvo?
— O que tem ele?
— Ele gosta dela?
Rafaela me encarou.
Meu coração bateu mais rápido.
— Esquece.
— Não.
— Rafaela.
— Você quer saber.
— Não quero.
— Quer.
— Não quero!
Ela começou a rir.
— Tá bom.
— Para de rir.
— Eu não estou rindo.
— Está sim.
— Ayla...
— Vamos terminar as compras.
Rafaela empurrou o carrinho.
— Está fugindo?
— Não.
— Está, sim.
— Eu só quero ir embora.
— Você acabou de chegar.
— Daqui do mercado.
— Ah.
Continuamos andando.
Mas agora eu estava muito mais quieta.
Eu não gostava daquela sensação.
Não gostava de sentir curiosidade sobre a vida de um homem que não tinha absolutamente nenhuma obrigação comigo.
Corvo era livre.
Podia ficar com quem quisesse.
Eu também era.
E era justamente isso que eu precisava lembrar.
— Ayla.
— O quê?
— Amanhã, no baile...
— Sim?
— Não provoca aquela mulher.
Olhei para Rafaela.
— Eu nem fiz nada.
— Ainda.
— Você acha que eu sou tão problemática assim?
Ela pensou.
— Quer a verdade?
— Não.
— Então não.
Comecei a rir.
— i****a.
— Estou falando sério.
— Eu também.
— Só fica na sua.
— Eu sei me comportar.
— Ótimo.
— E, Rafaela?
— Hum?
— Se ela provocar?
Rafaela parou.
Olhou para mim.
— Você vai ignorar.
— E se eu não quiser?
Ela respirou fundo.
— Ayla...
— Estou perguntando.
Rafaela apontou o dedo para mim.
— Você não conhece o Corvo.
Aquelas palavras me fizeram parar.
— E o que ele tem a ver com isso?
— Tudo.
— Por quê?
Rafaela ficou séria.
— Porque você pode não se importar com ele.
Ela fez uma pausa.
— Mas ele é o Rei do Morro.
Meu estômago se apertou.
— E daí?
Rafaela voltou a andar.
— E daí que, quando você entra no mundo de um homem como ele...
Ela olhou por cima do ombro.
— Você precisa ter certeza de que sabe onde está pisando.
Fiquei parada por alguns segundos.
Depois fui atrás dela.
Eu não sabia por que aquelas palavras tinham mexido comigo.
Talvez porque, pela primeira vez, eu estivesse começando a perceber que minha curiosidade por Corvo poderia ser mais perigosa do que eu imaginava.
E o pior?
Eu ainda nem tinha ido ao baile.
Mas alguma coisa me dizia que, depois daquela noite...
Nada seria tão simples.