AYLA
Rafaela parecia ser legal.
Na verdade, muito mais do que legal.
Em poucas horas de conversa, eu já tinha percebido que ela era exatamente o tipo de pessoa que conseguia falar sobre qualquer assunto e transformar uma simples conversa em uma história completamente absurda.
Minha avó tinha acertado.
Talvez nós realmente nos déssemos bem.
Depois que almoçamos, Rafaela continuou a conversar comigo sobre o baile.
Eu estava cada vez mais curiosa.
Era engraçado pensar que, há poucos dias, eu estava na minha cidade, vivendo a minha rotina normal, e agora estava ali, planejando minha primeira noite em um baile no Morro do Vidigal.
Minha mãe provavelmente teria um ataque se soubesse.
Meu pai nem se fala.
Por isso, obviamente, eu não pretendia contar todos os detalhes.
— Rafaela?
— Oi?
— Você pode ir comigo ao mercado?
Ela me olhou.
— Agora?
— Sim.
— Claro.
— Ainda estou meio perdida por aqui.
— Você chegou ontem, Ayla.
— Exatamente.
— E já quer conhecer tudo?
— Eu gosto de saber onde estou pisando.
Ela abriu um sorriso.
— Gostei de você.
— Obrigada.
— E também porque, se eu não for, você vai acabar perguntando para alguém onde fica o mercado e provavelmente vai parar no outro lado do morro.
— Eu tenho senso de direção.
Rafaela me encarou.
— Tem?
— Tenho.
— Então por que você não sabe onde fica o mercado?
Fiquei em silêncio.
— Isso não prova nada.
Ela começou a rir.
— Anda logo, mulher.
Peguei minha bolsa e avisei minha avó que sairíamos.
Ela levantou imediatamente os olhos.
— Para onde vocês vão?
— Ao mercado.
— Voltem antes de escurecer.
Olhei para Rafaela.
Depois para minha avó.
— Vó, eu tenho vinte anos.
— E eu tenho pressão alta.
— Isso não tem nada a ver.
— Tem tudo a ver.
Rafaela começou a rir.
— Relaxa, dona Ana. Eu cuido dela.
— É bom mesmo.
— Vó!
— Vai, menina.
Saí de casa balançando a cabeça.
Minha avó realmente achava que eu ainda tinha dez anos.
Assim que começamos a descer o morro, percebi que Rafaela conhecia praticamente todo mundo.
E quando digo todo mundo...
Era literalmente todo mundo.
— Oi, Rafa!
— Bom dia, Rafaela!
— E aí, Rafa?
Ela respondia a todos.
Eu observava tudo ao meu redor.
O movimento era muito maior do que eu tinha percebido no dia anterior.
Comércios pequenos.
Pessoas sentadas nas portas.
Crianças correndo.
Motos passando.
Música saindo de algumas casas.
Era como se o morro tivesse uma vida própria.
E, de certa forma, tinha.
— Aquela ali é a fofoqueira do morro.
Olhei rapidamente para a mulher que Rafaela apontava.
— O quê?
— Aquela ali.
— Você está falando sério?
— Muito.
A mulher estava sentada na porta de uma casa, conversando com outra senhora.
— Como você sabe?
— Porque ela sabe da vida de todo mundo.
— E você sabe disso como?
Rafaela colocou as mãos na cintura.
— Porque ela já contou coisas sobre mim.
— Então você também é assunto?
— Claro.
— E você não fica brava?
— Eu? Imagina.
Ela fez uma pausa dramática.
— Só fico brava quando ela inventa.
Comecei a rir.
— Então é verdade?
— O quê?
— Que você também fofoca.
— Eu não fofoco.
— Não?
— Eu compartilho informações.
— Ah, sim.
— É diferente.
— Claro.
Nós duas começamos a rir.
Continuamos descendo.
A cada poucos passos, Rafaela tinha uma história nova.
— Aquele ali é o dono do mercadinho.
— E aquele?
— O irmão dele.
— Como você sabe?
— Todo mundo sabe.
— Você conhece todo mundo mesmo.
— Eu cresci aqui.
— Dá para perceber.
Ela apontou para outro grupo.
— Aqueles ali trabalham juntos.
— Onde?
— Na boca.
Olhei discretamente.
Alguns homens estavam conversando.
— Entendi.
Rafaela continuou andando.
— Mas não fica olhando muito.
— Por quê?
— Curiosidade demais chama atenção.
— Eu só estava olhando.
— Eu sei.
Ela sorriu.
— Mas você ainda está aprendendo as regras daqui.
Lembrei imediatamente das palavras de Geleia.
O morro tem regras.
— Você conhece todas?
— Quase.
— E você pode me ensinar?
— Posso.
— Ótimo.
— Primeira regra.
— Qual?
Ela parou de andar.
— Nunca se mete onde não foi chamada.
Assenti.
— Justo.
— Segunda.
— Tem mais?
— Várias.
— Então me fala.
— Respeita quem te respeita.
— Fácil.
— Não compra briga dos outros.
— Também fácil.
— E não sai por aí perguntando sobre a vida de quem você não conhece.
Parei.
— Por que você olhou para mim quando falou isso?
— Porque você é curiosa.
— Não sou.
Rafaela começou a rir.
— Você acabou de me pedir uma lista de regras do morro.
— Isso é interesse.
— Curiosidade.
— Não.
— É sim.
Revirei os olhos.
— Continua.
Ela voltou a andar.
— E, principalmente, não fica dando confiança para qualquer homem.
— Rafaela!
— O quê?
— Eu sei me cuidar.
— Eu sei.
— Então pronto.
— Só estou avisando.
— Eu não vou dar confiança para ninguém.
Ela me olhou de lado.
— Nem para os patentes?
Franzi a testa.
— Patentes?
— Homens que têm posição alta na boca.
— Ah.
— Eles costumam chamar atenção.
— Para quem?
Rafaela parou de andar.
Olhou para mim.
Depois começou a gargalhar.
— O quê?
— Você não sabe o que é marmita?
— Não.
Ela quase se dobrou de tanto rir.
— Meu Deus!
— Que foi?
— Você é muito inocente!
— Eu não sou!
— É sim!
— Então me explica.
Rafaela respirou fundo, tentando parar de rir.
— Marmita é como a gente chama algumas mulheres que ficam rondando a boca que os cara só come e já era,e elas sempre estão atrás de patrocínio.
— Rondando?
— É.
— Fazendo o quê?
— Querendo ficar com os caras de lá.
— Ah.
— Principalmente os patentes altos.
Eu arregalei os olhos.
— Sério?
— Muito.
— E elas ficam literalmente rondando?
— Algumas quase acampam.
Não consegui segurar a risada.
— Você está inventando.
— Estou falando sério.
— Não acredito.
— Ayla, você vai entender quando for ao baile.
Eu já sentia que esse baile ia ser muito interessante......