AYLA
O carro nos deixou na porta de casa.
Assim que desci, ajudei minha avó a sair.
— Devagar, vó.
— Ayla, eu ainda sei andar.
— Eu sei.
— Então para de me tratar como se eu tivesse noventa anos.
— Você quer que eu lembre sua idade?
Ela me lançou um olhar.
— Não.
— Então pronto.
Minha avó resmungou alguma coisa que preferi fingir que não ouvi.
Peguei a bolsa dela e entrei em casa.
Ainda estava me acostumando com aquele lugar.
A casa era simples, antiga e pequena, mas tinha alguma coisa acolhedora.
Talvez fossem as lembranças.
Talvez fosse minha avó.
Ou talvez fosse o fato de que, depois de tantos anos, eu estava novamente ali.
Coloquei a bolsa sobre a mesa.
— Está com fome?
Minha avó olhou para mim.
— Você está perguntando isso para mim ou para você?
— Para as duas.
— Então estou.
— Ótimo.
Abri a geladeira.
Fiquei olhando para dentro por alguns segundos.
— Vó?
— Hum?
— A gente precisa fazer compras.
— Eu sei.
— Não tem quase nada aqui.
— Tem comida.
— Onde?
Ela apontou.
— Ali.
Olhei.
— Isso é um tomate.
— É comida.
— Um tomate não é almoço.
— Para mim é.
— Agora entendi por que a senhora está tão fraca.
— Ayla!
Comecei a rir.
— Estou brincando.
— Sua mãe te ensinou a ser respondona.
— Não. Aprendi sozinha.
Minha avó balançou a cabeça.
— Eu mereço.
— Merece mesmo.
Separei algumas coisas e comecei a preparar nosso almoço.
Minha avó ficou sentada à mesa, me observando.
Eu podia sentir o olhar dela sobre mim.
— O que foi?
— Nada.
— Está me olhando.
— Não posso olhar para minha neta?
— Pode.
Continuei mexendo a panela.
— Mas você está com cara de quem está pensando alguma coisa.
Ela ficou em silêncio.
Olhei para trás.
— Vó?
— O quê?
— O que foi?
— Nada, menina.
— Eu conheço você.
Ela suspirou.
— Você acabou de chegar e já acha que sabe tudo.
— Conheço você há vinte anos.
— E eu conheço você há vinte.
— Então me conta.
Minha avó ficou alguns segundos em silêncio.
Depois apoiou os braços sobre a mesa.
— Estava pensando em uma coisa.
— Sabia.
— Pensei em alguém para te acompanhar no baile.
Parei de mexer a panela.
— Me acompanhar?
— Sim.
— Para quê?
— Para você não ficar sozinha.
Cruzei os braços.
— Vó, eu não sou criança.
— Eu sei.
— Então?
— Você acabou de chegar.
— E daí?
— Não conhece ninguém.
— Conheço você.
Ela me encarou.
— Eu não vou ao baile.
— Por quê?
— Porque sou velha.
— Você não é velha.
— Sou, sim.
— Não é.
— Ayla.
— Vó.
— Eu quero dormir.
— A senhora dorme cedo?
— Durmo.
— Então por que está falando em baile?
— Porque você vai.
Apontei para mim.
— Eu?
— Você.
— Sozinha?
— Não.
— Mas acabou de dizer que não vai.
Minha avó sorriu.
— Eu pensei na filha de uma amiga minha.
— Quem?
— Jurema.
— Não conheço.
— Você vai conhecer.
— E quem é a filha dela?
— Rafaela.
Pensei por alguns segundos.
— Ela tem quantos anos?
— É jovem.
— Isso não responde.
— Tem idade parecida com a sua.
— Quanto?
Minha avó revirou os olhos.
— Você está fazendo interrogatório?
— Só quero saber com quem vou sair.
— Ela é uma boa menina.
— Isso também não responde.
Minha avó começou a rir.
— Ela tem vinte e poucos anos.
— Então é quase da minha idade.
— Exatamente.
Voltei para o fogão.
— E você acha que nós vamos nos dar bem?
— Acho.
— Como sabe?
— Conheço a mãe dela.
— Isso não significa que vou gostar da filha.
— Ayla...
— Estou brincando.
Minha avó sorriu.
— Rafaela conhece o morro. Pode te levar ao baile, apresentar algumas pessoas e ficar de olho em você.
— Eu não preciso que ninguém fique de olho em mim.
— Precisa, sim.
— Vó!
— Precisa.
— Por quê?
Minha avó ficou séria.
— Porque você não conhece esse lugar.
Olhei para ela.
— Eu sei me cuidar.
— Eu sei.
— Então pronto.
— Mas isso não significa que você precisa andar sozinha.
Suspirei.
Minha avó tinha um jeito irritante de conseguir me fazer concordar com ela sem perceber.
— Tá bom.
Ela sorriu.
— Então você vai com a Rafaela.
— Eu disse que vou ao baile.
— É a mesma coisa.
— Não é.
— Para mim é.
— Vó...
Ela já estava pegando o celular.
— O que está fazendo?
— Mandando mensagem para Jurema.
— Agora?
— Agora.
— Mas você nem sabe se ela está disponível.
— Ela está.
— Como você sabe?
— Porque é minha amiga.
— Isso não significa que a filha dela esteja.
Minha avó ignorou completamente meu comentário.
Começou a digitar.
— Vó.
— O quê?
— Você não pode simplesmente mandar mensagem para uma mulher dizendo que a filha dela precisa sair comigo.
— Posso.
— E se ela não quiser?
— Ela vai querer.
— E se a Rafaela não gostar de mim?
Minha avó parou de digitar.
Olhou para mim.
— Quem não gostaria de você?
Fiquei sem resposta.
Minha avó voltou para o celular.
— Pronto.
— O que você escreveu?
— Nada demais.
— Me mostra.
— Não.
— Vó!
Ela virou o celular para longe.
— É segredo.
— Você é impossível.
— Sou sua avó.
— Isso não é desculpa.
— É sim.
Comecei a rir.
Ela terminou de mandar a mensagem e colocou o celular sobre a mesa.
— Pronto.
— E agora?
— Agora esperamos.
— Esperamos o quê?
— A Rafaela chegar.
Parei.
— Como assim?
Minha avó me olhou inocentemente.
— Ela vem hoje.
— Hoje?
— Sim.
— Para quê?
— Para vocês se conhecerem.
— Vó!
— O que foi?
— Você chamou uma desconhecida para vir aqui sem me avisar?
— Eu estou te avisando agora.
— Isso não vale!
Minha avó começou a rir.
— Você vai gostar dela.
— Como tem tanta certeza?
— Porque vocês duas são parecidas.
— Isso me preocupa.
— Por quê?
— Porque uma Ayla já é suficiente.
Minha avó gargalhou.
— Você não existe.
— Eu existo, sim.
— E dá trabalho.
— Eu vim cuidar da senhora.
— E já está mandando em mim.
— Alguém precisa.
Minha avó apontou para mim.
— Está vendo? É exatamente disso que estou falando.
Eu ri.
Voltei para a cozinha e terminei de preparar o almoço.
Enquanto colocava os pratos sobre a mesa, minha avó ficou em silêncio novamente.
— Vó?
— Hum?
— Está pensando em quê agora?
Ela me olhou.
— Em nada.
— Mentira.
— Você está muito curiosa.
— Aprendi com você.
Minha avó sorriu.
— Só estava pensando que é bom ter você aqui.
Meu sorriso desapareceu por alguns segundos.
Aquelas palavras tocaram alguma coisa dentro de mim.
— Eu também gosto de estar aqui.
— Mesmo?
— Mesmo.
— Então fica.
Olhei para ela.
— Eu vou ficar.
Minha avó segurou minha mão.
— Eu não quero que você fique aqui apenas por minha causa.
— Não é apenas por você.
Ela pareceu surpresa.
— Não?
Balancei a cabeça.
— Eu precisava de uma mudança.
Minha avó apertou minha mão.
— Então talvez o Vidigal tenha chegado na hora certa.
Sorri.
Talvez tivesse mesmo.
Eu ainda não sabia quanto tempo ficaria.
Não sabia o que aconteceria nos próximos dias.
Mas uma coisa era certa.
Aquele lugar já estava começando a mexer comigo.
E eu tinha a sensação de que o baile seria apenas o começo.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Olhei para a tela.
Uma mensagem da minha mãe.
"Chegou bem? Está tudo bem com sua avó?"
Sorri.
Respondi rapidamente.
"Chegamos bem. Está tudo certo. Vou cuidar dela."
Bloqueei o celular.
Minha avó me observava.
— Seus pais?
— Sim.
— Estão preocupados?
— Muito.
— Sua mãe sempre foi assim.
— Eu sei.
— E seu pai?
— Pior.
Nós duas rimos.
Foi quando ouvimos uma batida no portão.
Minha avó levantou os olhos.
— Deve ser ela.
— Ela quem?
Minha avó sorriu.
— Rafaela.
Meu coração acelerou levemente.
Eu não sabia quem era aquela garota.
Não sabia se realmente nos daríamos bem.
Mas, se ela conhecia o morro, talvez fosse exatamente a companhia que eu precisava.
Levantei-me da cadeira.
— Eu atendo.
Caminhei até a porta.
Antes de abrir, ouvi minha avó gritar:
— Ayla!
— O quê?
— Seja educada!
— Eu sempre sou!
— Não é, não!
— Vó!
Ouvi uma risada do outro lado do portão.
Parei.
Alguém tinha ouvido.
Abri a porta lentamente.
E encontrei uma garota parada do lado de fora.
Ela era jovem.
Bonita.
E tinha um sorriso enorme no rosto.
— Você é a Ayla?
— Sou.
Ela abriu ainda mais o sorriso.
— Eu sou a Rafaela.
Olhei para ela.
Então aquela era a garota que minha avó tinha escolhido para me acompanhar no baile.
— Prazer.
— Prazer é meu.
Ela entrou.
Minha avó apareceu logo atrás de mim.
— Finalmente!
— Dona Ana!
Rafaela correu para abraçar minha avó.
Fiquei observando as duas.
Minha avó parecia realmente feliz em vê-la.
Talvez aquilo desse certo.
Talvez eu realmente tivesse encontrado alguém para me acompanhar naquela nova vida.
— Então — Rafaela disse, olhando para mim —, você vai ao baile amanhã?
— Vou.
Ela sorriu.
— Ótimo.
— Por quê?
Rafaela piscou.
— Porque vai ser divertido.
— Você fala como se eu não tivesse nada para fazer.
— Você acabou de chegar.
— E daí?
— Então você precisa conhecer o Vidigal de verdade.
Minha avó olhou para mim.
Eu olhei para Rafaela.
— Acho que vou gostar disso.
Rafaela abriu um sorriso.
— Então se prepara, Ayla.
— Para quê?
Ela cruzou os braços.
— Porque amanhã à noite você vai descobrir que o Vidigal é muito mais do que você imaginava.
E, naquele momento, eu não fazia ideia de que o baile não seria apenas a minha primeira grande noite no morro.
Seria também a noite em que eu voltaria a encontrar o homem que, sem que eu percebesse...
Já começava a ocupar espaço demais nos meus pensamentos.
Corvo.