CAPÍTULO 9

1759 Palavras
AYLA O carro nos deixou na porta de casa. Assim que desci, ajudei minha avó a sair. — Devagar, vó. — Ayla, eu ainda sei andar. — Eu sei. — Então para de me tratar como se eu tivesse noventa anos. — Você quer que eu lembre sua idade? Ela me lançou um olhar. — Não. — Então pronto. Minha avó resmungou alguma coisa que preferi fingir que não ouvi. Peguei a bolsa dela e entrei em casa. Ainda estava me acostumando com aquele lugar. A casa era simples, antiga e pequena, mas tinha alguma coisa acolhedora. Talvez fossem as lembranças. Talvez fosse minha avó. Ou talvez fosse o fato de que, depois de tantos anos, eu estava novamente ali. Coloquei a bolsa sobre a mesa. — Está com fome? Minha avó olhou para mim. — Você está perguntando isso para mim ou para você? — Para as duas. — Então estou. — Ótimo. Abri a geladeira. Fiquei olhando para dentro por alguns segundos. — Vó? — Hum? — A gente precisa fazer compras. — Eu sei. — Não tem quase nada aqui. — Tem comida. — Onde? Ela apontou. — Ali. Olhei. — Isso é um tomate. — É comida. — Um tomate não é almoço. — Para mim é. — Agora entendi por que a senhora está tão fraca. — Ayla! Comecei a rir. — Estou brincando. — Sua mãe te ensinou a ser respondona. — Não. Aprendi sozinha. Minha avó balançou a cabeça. — Eu mereço. — Merece mesmo. Separei algumas coisas e comecei a preparar nosso almoço. Minha avó ficou sentada à mesa, me observando. Eu podia sentir o olhar dela sobre mim. — O que foi? — Nada. — Está me olhando. — Não posso olhar para minha neta? — Pode. Continuei mexendo a panela. — Mas você está com cara de quem está pensando alguma coisa. Ela ficou em silêncio. Olhei para trás. — Vó? — O quê? — O que foi? — Nada, menina. — Eu conheço você. Ela suspirou. — Você acabou de chegar e já acha que sabe tudo. — Conheço você há vinte anos. — E eu conheço você há vinte. — Então me conta. Minha avó ficou alguns segundos em silêncio. Depois apoiou os braços sobre a mesa. — Estava pensando em uma coisa. — Sabia. — Pensei em alguém para te acompanhar no baile. Parei de mexer a panela. — Me acompanhar? — Sim. — Para quê? — Para você não ficar sozinha. Cruzei os braços. — Vó, eu não sou criança. — Eu sei. — Então? — Você acabou de chegar. — E daí? — Não conhece ninguém. — Conheço você. Ela me encarou. — Eu não vou ao baile. — Por quê? — Porque sou velha. — Você não é velha. — Sou, sim. — Não é. — Ayla. — Vó. — Eu quero dormir. — A senhora dorme cedo? — Durmo. — Então por que está falando em baile? — Porque você vai. Apontei para mim. — Eu? — Você. — Sozinha? — Não. — Mas acabou de dizer que não vai. Minha avó sorriu. — Eu pensei na filha de uma amiga minha. — Quem? — Jurema. — Não conheço. — Você vai conhecer. — E quem é a filha dela? — Rafaela. Pensei por alguns segundos. — Ela tem quantos anos? — É jovem. — Isso não responde. — Tem idade parecida com a sua. — Quanto? Minha avó revirou os olhos. — Você está fazendo interrogatório? — Só quero saber com quem vou sair. — Ela é uma boa menina. — Isso também não responde. Minha avó começou a rir. — Ela tem vinte e poucos anos. — Então é quase da minha idade. — Exatamente. Voltei para o fogão. — E você acha que nós vamos nos dar bem? — Acho. — Como sabe? — Conheço a mãe dela. — Isso não significa que vou gostar da filha. — Ayla... — Estou brincando. Minha avó sorriu. — Rafaela conhece o morro. Pode te levar ao baile, apresentar algumas pessoas e ficar de olho em você. — Eu não preciso que ninguém fique de olho em mim. — Precisa, sim. — Vó! — Precisa. — Por quê? Minha avó ficou séria. — Porque você não conhece esse lugar. Olhei para ela. — Eu sei me cuidar. — Eu sei. — Então pronto. — Mas isso não significa que você precisa andar sozinha. Suspirei. Minha avó tinha um jeito irritante de conseguir me fazer concordar com ela sem perceber. — Tá bom. Ela sorriu. — Então você vai com a Rafaela. — Eu disse que vou ao baile. — É a mesma coisa. — Não é. — Para mim é. — Vó... Ela já estava pegando o celular. — O que está fazendo? — Mandando mensagem para Jurema. — Agora? — Agora. — Mas você nem sabe se ela está disponível. — Ela está. — Como você sabe? — Porque é minha amiga. — Isso não significa que a filha dela esteja. Minha avó ignorou completamente meu comentário. Começou a digitar. — Vó. — O quê? — Você não pode simplesmente mandar mensagem para uma mulher dizendo que a filha dela precisa sair comigo. — Posso. — E se ela não quiser? — Ela vai querer. — E se a Rafaela não gostar de mim? Minha avó parou de digitar. Olhou para mim. — Quem não gostaria de você? Fiquei sem resposta. Minha avó voltou para o celular. — Pronto. — O que você escreveu? — Nada demais. — Me mostra. — Não. — Vó! Ela virou o celular para longe. — É segredo. — Você é impossível. — Sou sua avó. — Isso não é desculpa. — É sim. Comecei a rir. Ela terminou de mandar a mensagem e colocou o celular sobre a mesa. — Pronto. — E agora? — Agora esperamos. — Esperamos o quê? — A Rafaela chegar. Parei. — Como assim? Minha avó me olhou inocentemente. — Ela vem hoje. — Hoje? — Sim. — Para quê? — Para vocês se conhecerem. — Vó! — O que foi? — Você chamou uma desconhecida para vir aqui sem me avisar? — Eu estou te avisando agora. — Isso não vale! Minha avó começou a rir. — Você vai gostar dela. — Como tem tanta certeza? — Porque vocês duas são parecidas. — Isso me preocupa. — Por quê? — Porque uma Ayla já é suficiente. Minha avó gargalhou. — Você não existe. — Eu existo, sim. — E dá trabalho. — Eu vim cuidar da senhora. — E já está mandando em mim. — Alguém precisa. Minha avó apontou para mim. — Está vendo? É exatamente disso que estou falando. Eu ri. Voltei para a cozinha e terminei de preparar o almoço. Enquanto colocava os pratos sobre a mesa, minha avó ficou em silêncio novamente. — Vó? — Hum? — Está pensando em quê agora? Ela me olhou. — Em nada. — Mentira. — Você está muito curiosa. — Aprendi com você. Minha avó sorriu. — Só estava pensando que é bom ter você aqui. Meu sorriso desapareceu por alguns segundos. Aquelas palavras tocaram alguma coisa dentro de mim. — Eu também gosto de estar aqui. — Mesmo? — Mesmo. — Então fica. Olhei para ela. — Eu vou ficar. Minha avó segurou minha mão. — Eu não quero que você fique aqui apenas por minha causa. — Não é apenas por você. Ela pareceu surpresa. — Não? Balancei a cabeça. — Eu precisava de uma mudança. Minha avó apertou minha mão. — Então talvez o Vidigal tenha chegado na hora certa. Sorri. Talvez tivesse mesmo. Eu ainda não sabia quanto tempo ficaria. Não sabia o que aconteceria nos próximos dias. Mas uma coisa era certa. Aquele lugar já estava começando a mexer comigo. E eu tinha a sensação de que o baile seria apenas o começo. Meu celular vibrou sobre a mesa. Olhei para a tela. Uma mensagem da minha mãe. "Chegou bem? Está tudo bem com sua avó?" Sorri. Respondi rapidamente. "Chegamos bem. Está tudo certo. Vou cuidar dela." Bloqueei o celular. Minha avó me observava. — Seus pais? — Sim. — Estão preocupados? — Muito. — Sua mãe sempre foi assim. — Eu sei. — E seu pai? — Pior. Nós duas rimos. Foi quando ouvimos uma batida no portão. Minha avó levantou os olhos. — Deve ser ela. — Ela quem? Minha avó sorriu. — Rafaela. Meu coração acelerou levemente. Eu não sabia quem era aquela garota. Não sabia se realmente nos daríamos bem. Mas, se ela conhecia o morro, talvez fosse exatamente a companhia que eu precisava. Levantei-me da cadeira. — Eu atendo. Caminhei até a porta. Antes de abrir, ouvi minha avó gritar: — Ayla! — O quê? — Seja educada! — Eu sempre sou! — Não é, não! — Vó! Ouvi uma risada do outro lado do portão. Parei. Alguém tinha ouvido. Abri a porta lentamente. E encontrei uma garota parada do lado de fora. Ela era jovem. Bonita. E tinha um sorriso enorme no rosto. — Você é a Ayla? — Sou. Ela abriu ainda mais o sorriso. — Eu sou a Rafaela. Olhei para ela. Então aquela era a garota que minha avó tinha escolhido para me acompanhar no baile. — Prazer. — Prazer é meu. Ela entrou. Minha avó apareceu logo atrás de mim. — Finalmente! — Dona Ana! Rafaela correu para abraçar minha avó. Fiquei observando as duas. Minha avó parecia realmente feliz em vê-la. Talvez aquilo desse certo. Talvez eu realmente tivesse encontrado alguém para me acompanhar naquela nova vida. — Então — Rafaela disse, olhando para mim —, você vai ao baile amanhã? — Vou. Ela sorriu. — Ótimo. — Por quê? Rafaela piscou. — Porque vai ser divertido. — Você fala como se eu não tivesse nada para fazer. — Você acabou de chegar. — E daí? — Então você precisa conhecer o Vidigal de verdade. Minha avó olhou para mim. Eu olhei para Rafaela. — Acho que vou gostar disso. Rafaela abriu um sorriso. — Então se prepara, Ayla. — Para quê? Ela cruzou os braços. — Porque amanhã à noite você vai descobrir que o Vidigal é muito mais do que você imaginava. E, naquele momento, eu não fazia ideia de que o baile não seria apenas a minha primeira grande noite no morro. Seria também a noite em que eu voltaria a encontrar o homem que, sem que eu percebesse... Já começava a ocupar espaço demais nos meus pensamentos. Corvo.
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