Nate tinha os olhinhos abertos, incrivelmente azuis, olhando os brinquedinhos pendurados no berço. Estava quietinho, Shawn o dera banho (se molhando todo no processo), e ele estava bem. Perrie estava parada ao lado do berço, observando-o. O odiava. Podia ter olhinhos azuis e covinhas idênticas as do pai ao sorrir, mas não a ganhava. Como era possível? Ela mesma sonhou com engravidar de Shawn por anos - tentou e tentou - e nada aconteceu. Se ela engravidasse, não haveria mais esse segredo: Karen ia ter que aceitar. No fim se conformou que ele era estéril, mas então vem a super Camila e consegue engravidar. A injustiça que era a existência daquela criança era tão grande que ela tinha vontade de estrangulá-lo, ali no berço mesmo, apertar até aquela serenidade sumir do rosto dele, até os ossos se partirem...
Shawn: Pronto. - Disse, tranquilo, entrando no quarto com uma toalha em volta do pescoço, banho recém tomado e uma mamadeira na mão. Nate, que ignorava Perrie com uma classe digna de Camila, balançou os bracinhos ao ouvir a voz do pai. Reconhecia e gostava. - Vamo papa? - Chamou, e o menino riu de leve. Shawn sorriu, apanhando-o no colo.
Perrie: Existem babás pra isso. - Disse, se afastando, observando Shawn dar a mamadeira cuidadosamente ao menino. Era o leite de Camila, conservado em casa por uma maquina que o mantinha aquecido e em movimento, de forma que parecia novo.
Shawn: É meu filho. - Disse, sorrindo pro menino, que mamava avidamente, as mãozinhas segurando a mamadeira - Eu cuido dele. - Completou, simples.
Perrie: Você deixa Karen cuidar. - Assinalou, se sentando.
Shawn: Bom, minha mãe é... Minha mãe. - Disse, obvio. Karen vinha passar dias com Shawn e ele mesmo ia pra casa dela quando ficava saturado, de forma que ela cuidava do menino enquanto ele dormia feito uma pedra - De qualquer forma, ele já adequou o horário dele. Dorme a noite, não é? - Perguntou, brincando com o Nate, que deu um sorriso sem dentes, o bico da mamadeira ainda na boca. - Está melhorando. - Confirmou, aliviado.
Perrie: Se você diz... - Deu de ombros, desgostosa.
Shawn: É, sim. Já tem dado pra trabalhar um pouco em casa, dormir melhor a noite... Ele só acorda quando tem fome. - Disse, orgulhoso - Ei, você pode colocar aquele chocalho na bolsa dele? - Pediu, apontando na cama - Ajuda a dormir.
Eles iam passar o natal na casa de Karen, como sempre. A mala de Shawn estava pronta, assim como a bolsa do menino. Perrie enfiou o chocalho dentro da bolsa, desejando ser uma cobra, e assim que Nate terminou partiram. Segundo Perrie o carro dela estava na oficina, por isso ia de carona. Bom, quem faz o que quer...
Perrie: O que estamos fazendo aqui? - Perguntou, quando o motorista fez a curva, parando na frente da entrada do hospital - Sabe que eu não posso entrar. - Disse, obvia.
Shawn: Eu sei. Eu vou ver Camila. O motorista vai levar você até a casa de minha mãe e voltar pra cá. - Tranquilizou, apanhando só a bolsa do filho e assentindo pra ela, deixando-a furiosa no carro e descendo.
Foi meio curioso. Nate já ia fazer 6 meses, estava esperto, os cabelos perfeitamente lisos, pele clara e os olhos azuis. Era um bebê essencialmente fofo. Algumas enfermeiras pararam Shawn, pedindo pra olhar o menino. Ele as intimidava, mas a vontade de conferir o motivo pelo qual a paciente do quarto 412 preferira morrer era irresistível. Depois de alguns minutos ele conseguiu se soltar e chegar ao seu objetivo.
Camila estava deitada, a cabeceira da cama meio levantada, coberta por um edredom azul. Ele largou a bolsa do menino num canto e se aproximou.
Shawn: Sei que demorei, desculpe. - Disse a Camila, após se ajeitar de modo que o menino visse a mãe - Olha a mamãe, filho. - Disse, ajeitando o cabelinho do menino. - Ele está grande agora, Camila. É forte. Veja . - Ele apanhou a mão dela, levando até o bebê, fazendo-o tocá-lo.
Era muito triste. Nate olhava Camila, sereno, sem sorrir como costumava fazer, e essa continuava apagada, o cabelo caindo sobre os ombros, o tubo de oxigênio no rosto. Quando Shawn soltou, a mão dela caiu frouxa sobre a cama, sem vida. Ele suspirou, olhando Nate, que olhava a mãe, quieto. O menino estendeu a mãozinha, parecendo querer tocar e Shawn o aproximou. Ele agarrou o dedo da mãe, puxando-o, mas não teve força o suficiente. Shawn ficou ali por horas. Colocou Nate no colo de Camila um tempo, mas não suportava a imagem. Deixou que o menino se acostumasse com a imagem, mesmo que não tivesse o mesmo cheiro nem o mesmo toque.
Shawn: Nós estamos esperando. - Disse, por fim, mas Camila permaneceu apagada, pálida - Sei que você está tentando. Quando conseguir, estaremos aqui. - Garantiu, se inclinando e dando um beijo na testa dela, apanhando a bolsa do menino e saindo dali.
O natal veio e se foi. Nate adorou a festa, as luzes, e Greg. Principalmente Greg. Shawn quase enlouqueceu de preocupação, mas no fim ficou tudo bem. Passou o ano novo na casa da mãe, aproveitando que Karen cuidava de Nate pra dormir feito uma pedra, largado na cama, por um dia quase inteiro. Ser pai cansava. Os meses passaram, Nate crescia, e Shawn passou a trabalhar em casa. Quando precisava ir na empresa, pra reuniões ou algo, deixava o menino com Madison ou Sophia. Depois de algum tempo, quando o garoto se acostumou, passou a deixá-lo parte do dia com Karen, pra poder trabalhar. As coisas foram se normalizando. Camila continuava apagada.
Niall: Não faz sentido fazer uma festa grande, ele só está fazendo um ano. - Considerou, com Shawn.
Liam: Não é como se pudéssemos chamar os amigos dele ou algo assim. - Complementou.
Louis: Vem com o seu tio. - Disse, pondo Nate de pé. O menino já sabia engatinhar, mas andar eram outros 500.
Shawn: Liam, se meu filho cair, eu juro por tudo que é de mais sagrado... - Avisou, e Karen pôs a mão no ombro dele, sorrindo.
Karen: Se ele cair, vai se levantar. Com você acha que aprendeu a andar? - Perguntou, beijando a cabeça do filho.
Nate se desequilibrou no ar e Shawn se levantou, prestes a correr, mas o menino se equilibrou sozinho, e pareceu gostar de estar de pé. Usava um macacão azul claro, da cor dos olhos, o bumbum grande pela fralda descartável por baixo. Ele olhou Louis, indeciso, com uma mãozinha na boca.
Shawn: Louis... - Advertiu.
Louis: Vem cá, vem. - Disse, os braços estendidos.
Nate deu um passinho indeciso, depois mais um... E três corridos, e ia cair se Louis não o agarrasse, lançando-o no ar. O menino riu.
Louis: Pessoas de olhos azuis são mais inteligentes. - Disse, brincando com o menino no ar. - Dizem que quanto mais claro o olho, maior a inteligência. - Completou, satisfeito. Niall, Clair, Karen, Greg, Camila, Nate e Louis tinham olhos azuis, porém os de Louis, Camila e Nate eram os mais claros.
Shawn: Tire as suas mãos sujas do meu filho. - Cortou, debochado, apanhando Nate. - Vem cá, meu amor. - Disse, levando o menino, que sorria abertamente. Era um bebê plenamente feliz.
O aniversário de Nate terminou sendo um evento intimo, só pra família. Shawn levou o menino pra ver Camila cedo, passando a manhã com ela, e a tarde foram pra casa de Karen. Havia um bolo, doces, tudo, mas o que Nate mais gostava eram as bolas coloridas. Ficou sentadinho com Clair, os dois abraçando uma bola branca, querendo estourá-la. Clair, agora com 3 anos, lembrava muito o pai, seja com os olhos idênticos ou no jeito de se portar, apesar de ter o sorriso da mãe e a mesma textura do cabelo, apesar de ser mais claro. A bola escapuliu dos dois, pairando no ar e Nate gargalhou gostosamente enquanto Clair, que já andava, correu atrás da bola.
Niall: Clair. - Repreendeu. A menina olhou, afobada pra ir atrás da bola - Sem correr. Cuidado. - Disse, passando outra bola pra menina - Vá se sentar com seu primo. - Orientou e ela voltou, saltitando, pra um Nate que aparentemente tentava se levantar pra ir atrás da prima.
No parabéns Nate parou por um instante, assustado, então estava batendo palmas também, rindo nos braços do pai, muito a vontade. Se sentia seguro com Shawn. No fim Shawn o abaixou perto da única velinha no bolo, e o menino o olhou, confuso, segurando as mãozinhas. Shawn fingiu assoprar e teve que tentar algumas vez até que Nate o imitou, soprando a vela, e houveram mais palmas.
Perrie: ...Exatamente como eu disse. - Shawn riu, com uma careta, exatamente como antigamente. Ela estava confiante: Levara menos de um ano da primeira vez pra seduzi-lo. Não podia demorar muito mais agora.
Shawn: Você quer, filho? - Perguntou, vendo o menino olhar o pedaço de bolo de chocolate com um olhar duvidoso. Perrie suspirou, impaciente. Shawn separou um naquinho de bolo sem cobertura, levando-o com o dedo na boca do filho. O menino pareceu em duvida por um instante, então sorriu, parecendo satisfeito. Shawn riu.
Sophia: Estive pensando. - Disse, sentada no colo de Liam, lhe dando um pedaço de bolo na boca. Liam riu - Daqui a algum tempo... A gente podia se organizar, você sabe, fazer tudo direitinho...
Liam: Está enrolando. - Constatou, pondo um brigadeiro do prato na boca dela. Sophia riu, mastigando um doce.
Sophia: Hum... - Ela engoliu - Eu estava pensando em nos organizarmos e não sei... Vamos ter um? - Sugeriu, dando de ombros.
Liam: Um o que? - Perguntou, confuso, e foi a vez dela de pôr um brigadeiro na boca dela.
Sophia: Um filho, Liam! - Disse, carinhosa, acariciando o cabelo dele, que piscou, surpreso.
Liam: Você disse que não queria. - Lembrou, confuso.
Sophia: Não queria quando você me propôs, anos atrás, porque era cedo demais. Mas estou com 30 anos. - Disse, dando de ombros - Nós já nos estabilizamos financeiramente, está tudo bem, eu amo você... - Ela se abaixou, selando os lábios dele. - E então?
Liam: Quer ir agora? - Perguntou, animado, largando o prato de lado e carregando-a. Sophia riu gostosamente
Sophia: Não. - Liam passou o braço por debaixo da perna dela e ia carregá-la - Liam, não! Eu ainda estou no anticoncepcional. - Lembrou e ele parou - Mas posso parar.
Liam: Pare hoje. - Disse, enchendo-a de beijos.
Sophia: Vou pensar. - Disse, fazendo charme, mas era obvio que pararia.
A vida seguia, ia se arrumando, ganhando rumo. As pessoas encontravam seu próprio ritmo, tocavam sua própria vida, as coisas seguiam de forma natural... A vida dela havia parado naquele dia, dois anos atrás, quando o carro dela mergulhou no mar. Se resumia agora naquela cama de hospital, respirando por uma maquina, se alimentando e evacuando por sondas, dependendo de maquinas pra tudo, perdendo os momentos mais importantes da vida da criança pela qual ela escolhera morrer. Bastava esse período na vida dela fosse só uma virgula, e não um ponto final.