Surrado

594 Palavras
Alondra acordou com o telefone simples tocando. Nem Whatss@pp pegava. — Renato... — Estou na entrada. Abra a porta, me deixe entrar. — Não. É muito tarde. Não devo receber visitas essa hora. — Estou ferido e preciso de ajuda. Se me encontrarem aqui ou na rua, vão me m***r. Vai ficar viúva antes mesmo do casamento, abra a porta, preciso mesmo da sua ajuda. Ela pulou da cama e foi abrir a porta. Por sorte, a dona daquela pensão tinha o sono pesado, ou ia expulsá-la por abrir a porta tão tarde. Ali era um lugar de muito respeito. Ela logo notou. Renato tinha o rosto machucado, sangrando e era todo uma bagunça. O ajudou a ir para o pequeno conjugado dela. — Temos que ir ao hospital. — Não posso, não posso, Alondra. Tenho mesmo que arrumar dinheiro para pagar o que estou devendo. Alondra cuidou dos ferimentos dele. Um olho estava roxo, a boca cortada e a barriga machucada. Ela não entendia bem, mas achava que as costelas deviam estar quebradas. Ao menos era isso que imaginava... Deu suco e água gelada. Ele se deitou e ela deu um medicamento para a dor. — O que houve? — Estou devendo algumas pessoas e não tenho dinheiro para pagar. — Devendo o quê? Se não tem nada, nem carro, nem casa, nem mesmo roupas caras tem, como pode dever alguém a ponto de ser espancado? Ela ficou aterrorizada. Nunca se imaginou vivendo um pesadelo daquele, o noivo espancado por dívidas. — Peguei um dinheiro emprestado, Alondra. — Para quê, Renato? Para quê? — Jogar, jogar. Achei que jogando eu ganharia muito dinheiro, mas não foi assim. Perdi tudo, tentei novamente e novamente, não ganhei o que achava que ganharia. — Está jogando em bingos? — Não. Eram jogos online. Eu ganhei algum dinheiro, comprei algumas coisas, foi com esse dinheiro que aluguei uma casa. Mas agora estou devendo. Fui pegando dinheiro e mais dinheiro na esperança de fazer um bom jogo e mudar de vida. — Quanto? — Um milhão de pesos mexicanos. — Meu Deus, Renato... É muito dinheiro. Com aquele valor se comprava uma casa de alto padrão. Alondra ficou desesperada, porque não tinha esse dinheiro. Claro que não tinha. Ela tinha exatamente duzentos mil pesos mexicanos em sua conta. — Não devia ter feito isso, Renato. — Eu achei que ganharia muito dinheiro jogando. Algumas pessoas jogavam e ganhavam muito. Influenciadores ganham dinheiro jogando, Alondra, você não entende. — Até que eu sou uma i****a, Renato. Sei que não é verdade. Ninguém fica milionário com jogos online. Durma. Tenho que trabalhar quando o dia amanhecer, você me decepcionou mais uma vez. — Não pode ir trabalhar. Está correndo perigo também. — O quê? Não havia feito nada. — Sabem de você. Se eu não pagar, eu morro, você morre e até mesmo a Maria morre. Todo mundo vai morrer, porque peguei dinheiro de gente pesada. Alondra socou o peito dele com força. — Por quê, Renato? Por quê? Eu só queria uma vida tranquila, uma casa simples e um casamento. Só isso, e agora não posso nem ir trabalhar. Bem que Maria me avisou... E agora até a minha amiga está em perigo. — Eu também queria tudo isso. Tudo isso. Mas sem dinheiro não dá. — Se você trabalhasse, a gente não estava assim. Ele fechou os olhos. Não conseguia ficar com eles abertos por causa dos ferimentos, mas Alondra só sentia raiva. Se deitou no tapete, enrolada em um edredom, porque não queria se deitar com Renato.
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