Alondra acordou e se lembrou de tudo o que aconteceu, foi para o banho e deixou a porta bem trancada, não queria Renato perto dela
Quando saiu, Renato acordava.
— Alondra, meu amor...
— Não me chame de meu amor. Não me chame, Renato. Estou odiando você.
— Eu não fiz por mal...
— Fez, sim. Se levante, arrume-se e vá para a sua casa. Eu vou trabalhar.
— Não pode ir.
— Eu não fiz nada, nada. Não vou ficar presa, não devo nada a ninguém.
Ela saiu e foi tomar café da manhã com Maria, tinha mesmo a esperança de que cobrassem somente de Renato, já que a dívida era dele. Não era justo que se tornasse uma prisioneira.. Andou olhando para os lados, com medo, mas não havia mesmo ninguém a seguindo.
No entanto, quando chegou à porta da floricultura, tudo estava queimado, o fogo ainda ardia, e não restava nada das flores bonitas, do prédio bonito que ela e Maria havia pintado, ainda tinha macacão manchado de tinta.. Porque sempre cuidavam da pintura, aquele prédio tinha tanto dela e da amiga..
Ela começou a se desesperar mais ainda, mas Maria surgiu e a abraçou.
— Maria, o que houve?
— Colocaram fogo, Alondra. Colocaram fogo. Estamos sem trabalho, sem dinheiro. Sem a floricultura, não temos nada para fazer da vida, nada. Não consigo mais trabalhar. Ou melhor, vamos ter que procurar um trabalho, sofrer humilhações e suportar patrões assediadores, o que vai ser você menina, ingênua do jeito que é... Eu ao menos posso me virar, mas você.. vai ser uma presa fácil para os tubarões vestidos de ternos..
Alondra ficou abraçada a ela, chorando, dez minutos depois, um rapaz veio entregar um bilhete, era um desses rapazes que ninguém sabia o nome de verdade, todos conheciam por um apelido, e que chegava e sumia pelas ruas mexicanas rapidamente..
Nele estava escrito:
"A próxima é você e sua amiga, se Renato não pagar o que deve. Vão queimar também junto com o vig@rista do Renato"
Alondra ficou estagnada no lugar.
Maria percebeu que alguma coisa havia acontecido e leu o bilhete..
— Maria, adianta irmos à polícia?
— Não adianta, Alondra. Não adianta. A polícia está metida nisso até os dentes, são gangues grandes.. Não adiante mesmo.
— Me perdoa, Maria. Me perdoa.
— Não tem culpa. A culpa é do Renato. A culpa é do Renato. Você não tem culpa.
O lugar foi isolado. A polícia anotou o que Maria disse: que, quando chegou, o lugar já estava pegando fogo, ela tinha ido a padaria comprar o café da manhã.
Maria não tinha para onde ir. Estava morando definitivamente na floricultura para não pagar aluguel. Agora teria que alugar outro lugar.
— Vamos para a pensão que eu moro. Podemos nos ajeitar, Maria. Eu vou dar um jeito.
— Não vai dar um jeito, minha Alondra. Você é só uma menina. Mas termine com ele, Alondra, não pode mais sonhar com esse casamento, não pode.
— Vou, Maria. Apenas fui uma sonhadora, uma sonhadora estúpid@..
Foram para a pensão.
A governanta do lugar abraçou Maria, não era bem uma governanta, mas ajudava a manter as coisas funcionando.
— Fiquei sabendo o que aconteceu, Maria. Eu sinto muito, mas pode ficar aqui com a Alondra.
— Obrigada, dona Genoveva. Obrigada. Obrigada mesmo. Mas tenho que procurar trabalho.
— Renato..
Alondra quis saber.
Dona Genoveva ainda olhou para dentro.
__ Ainda lá ..mas ele não pode ficar, é uma pensão para mulheres o mande ir embora , Alondra..
__ Vou mandar, senhora, agora mesmo.
Entraram..
Renato estava deitado.
— Vá embora, Renato.
— Não posso, Alondra.
— Vai embora. Vai embora. Colocaram fogo na floricultura, fogo, o fogo destruiu tudo.. Não temos como trabalhar mais. Não temos por sua culpa.
— Podia fazer o que a Roma fez, Alondra, e ficaríamos livres.
Ela riu, um riso histérico e triste.
— Quer me vender como uma prostitut@ para pagar a sua dívida? Fora daqui! Fora daqui, Renato!
Ele se levantou, pegou o par de tênis e saiu.
Alondra foi ao chão, quase em desespero. Não conseguia parar de chorar, só tinha chorado assim quando a avó morreu.
Maria a abraçou.
— Não vamos ter saída, Maria. Vou ter que aceitar.
— Não pode, Alondra.
— Não posso ficar aqui e deixar você morrer por causa do Renato. Ele deve muito dinheiro. Se eu vender a minha virgind@de pago a dívida dele. Nós mudamos e abrimos outra floricultura e vivemos juntas.
— Nunca vai se recuperar, Alondra, se fizer um acordo assim.
— Mas também, se não fizer, vamos morrer, Maria. Vamos morrer por minha culpa, porque fui burr@ e sonhadora. Ninguém... Se eu já tivesse terminado com o Renato, não estaríamos uma situação dessas.
***
Do outro lado da cidade, o juiz tinha um convite para um leilão de virgind@de.Achava aquilo bárbaro, mas Índia tinha dito que ele devia ir ver com os seus próprios olhos. Só depois de observar, poderia decidir como agir..