Pré-visualização gratuita 1. Maitê Barrett
O som da chuva forte batendo contra as janelas de arco da fachada do Le Miroir era o único ruído suave na noite de Oakhaven. Do lado de fora, a velha cidade de inspiração vitoriana afundava na névoa úmida, com suas ruas de paralelepípedos refletindo a luz amarelada dos postes de ferro. Mas do lado de dentro, cruzando as portas duplas de vaivém que separavam o salão refinado da área de serviço, o clima não tinha nada de poético.
A cozinha estava pegando fogo. Figurativamente, claro, embora o sous-chef Laurent parecesse a ponto de ter uma combustão espontânea bem ao lado da estação de grelhados.
— Três minutos para o entrecôte da mesa quatro! E cadê a p***a do glacê de vinho tinto?! — berrava o chef executivo, Marcus, um homem de quarenta e poucos anos cujo dólmã branco já estava completamente encharcado de suor na altura do colarinho. Ele passava a mão pelos cabelos raleados, manchando a própria testa com um traço de farinha. — Laurent, se você queimar essa redução, eu juro por Deus que te mando de volta para lavar pratos em uma taverna de beira de estrada!
Sustentei a colher de degustação com uma das mãos, mantendo a outra apoiada na minha cintura, e deixei escapar um riso baixo enquanto observava a correria insana ao meu redor. Panelas de cobre tiniam contra o aço inoxidável das bancadas, vapores aromáticos de alho confitado e manteiga queimada subiam até os exaustores barulhentos, e ajudantes de cozinha esbarravam uns nos outros como baratas tontas.
— Respira, Marcus — falei, dando um passo à frente com a tranquilidade de quem está passeando em um parque em um domingo ensolarado. — O glacê está perfeito. Fui eu quem finalizou a redução há cinco minutos.
Marcus virou-se para mim, os olhos esbugalhados de pura tensão.
— Você? Maitê, eu não te pedi para tocar nos molhos nobres hoje! Você deveria estar cuidando das entradas frias!
— Se eu estivesse apenas nas entradas frias, o seu glacê estaria com gosto de vinagre queimado porque o Laurent esqueceu de abaixar o fogo enquanto gritava com o estagiário — respondi, piscando um dos olhos e dando uma colherada rápida no molho denso e brilhante que repousava na minha panela. — Prove.
Marcus pegou uma colher limpa com rapidez, mergulhou no molho e levou à boca. Vi a tensão no maxilar dele ceder por uma fração de segundo, substituída por um suspiro involuntário de alívio. O sabor era aveludado, com o equilíbrio exato entre a acidez da fruta e o dulçor da cebola roxa caramelizada.
— Está... está bom. No ponto certo — resmungou ele, tentando recompor a postura autoritária. — Mas não saia da sua posição de novo! Hoje não é uma noite qualquer, Barrett! Você sabe quem acabou de cruzar a porta do salão!
Ah, sim. Eu sabia. O restaurante inteiro sabia. Na verdade, a cidade inteira parecia ter prendido a respiração no momento em que um sedan preto de luxo estacionou diante da entrada do Le Miroir.
Richard Bellmont.
Aos trinta e dois anos, o homem era uma lenda viva e o pesadelo pessoal de qualquer pessoa que ousasse usar um avental na Europa. Crítico gastronômico implacável, dono de três dos restaurantes mais conceituados do continente e herdeiro direto de um império culinário construído por sua falecida mãe — a lendária chef Claire Bellmont, uma mulher que acumulara cinco estrelas antes de partir precocemente —, Richard era temido. Diziam que seu paladar era capaz de identificar se a pimenta-do-reino usada em um prato fora moída há dez minutos ou há duas horas. Diziam também que ele nunca sorria, que usava ternos sob medida perfeitamente alinhados e que suas críticas no The Royal Journal podiam fechar um estabelecimento antes mesmo do amanhecer.
Para a brigada do Le Miroir, a presença de Richard Bellmont era a promessa de uma execução pública.
Para mim, Maitê Barrett? Ele era apenas mais um cara metido a b***a que levava a comida a sério demais.
Cresci em um ambiente onde o Caos com "C" maiúsculo era a única constante. Meus pais viveram um casamento turbulento que parecia uma guerra sem fim. Divorciaram-se quando eu tinha doze anos, mas a separação no papel nunca significou o fim da bagunça. Durante toda a minha adolescência e juventude, vi os dois entrarem em um ciclo vicioso e exaustivo de idas, vindas, brigas dramáticas no meio da noite e reconciliações ardentes que duravam no máximo dois meses. Eles se amavam, talvez, mas de uma forma tóxica e sufocante que destruía tudo ao redor.
Ver aquele espetáculo grotesco de dependência emocional me ensinou a lição mais importante da minha vida: o apego é uma armadilha.
Hoje, aos vinte e seis anos, eu me considerava uma mulher resolvida e absurdamente dona do meu próprio nariz. Eu amava a minha independência, amava a minha profissão e adorava viver a vida sem amarras. Vesti-me de leveza para não me afundar no lamaçal do drama. Eu saía, me divertia, bebia um bom vinho e ficava com homens atraentes sempre que me dava vontade. Gostava do jogo da sedução, do calor da pele e da paixão de uma noite intensa. Mas havia uma regra de ouro implacável que eu nunca, em hipótese alguma, quebrava: o cara podia ser um deus grego na cama, mas, assim que o sol surgia, eu juntava minhas coisas e ia embora antes do café esfriar.
Sem promessas de "nos vemos depois", sem trocas de mensagens melosas e sem dar satisfações a homem nenhum. Ninguém me dominava. Ninguém colocava uma rédea no meu pescoço.
— Barrett! Pare de sonhar acordada e pegue a bandeja da mesa cinco! — a voz estridente do Maître, Monsieur Pierre, me puxou de volta à realidade. Ele entrou na cozinha afobado, ajeitando a gravata borboleta com as mãos trêmulas. — Ele pediu o prato principal. O carro-chefe da casa.
— A costela de cordeiro com crosta de ervas e polenta cremosa? — perguntou Marcus, o tom de voz subindo uma oitava.
— Essa mesma! — Pierre passou o lenço pela testa. — E ele parecia extremamente de mau humor. Nem sequer olhou para o garçom quando fez o pedido. Se esse prato não estiver impecável, Marcus, nós seremos massacrados na edição do próximo domingo!