quatorze anos atras
Maya
Carrego com dificuldade a bandeja com xícara de porcelana, ensaiando para os possíveis bailes que irei participar um dia.
"Cabeça erguida Maya." Ela grita outra vez acertando os meus pés com o chicote de tiras.
Nervosa tropeço para o lado, observando em câmera lenta a surra que irei levar enquanto a bandeja vai para frente levando as porcelanas, fecho os olhos atordoada quando a voz grave ecoa.
"Não seja tão c***l com ela, mamãe."
Abro os olhos encontrando com Yukov usando seus suspensórios e o casaco do terno na mãos direita enquanto na esquerda segura a bandeja com as porcelanas tortas, mas sem estarem quebradas como imaginava.
Ele dá passos firmes e se aproxima da nossa mãe lhe dando um beijo na testa. Yeda se derrete em sorrisos para o filho primogênito, mamãe não sorri pra mim, as vezes sinto inveja de como ela tem tanto carinho para o meu irmão e nada para mim.
"Maya é uma decepção, Yukov, não consegue nem andar com uma bandeja nas mãos." Diz resignada colocando uma das mechas loiras atrás da orelha.
"Minha irmãzinha não nasceu para ser empregada, ela vai ser uma princesa." Ele responde sorrindo e piscando o olho para mim.
Assenti sorrindo ficando feliz pelo amor do meu irmão, ele é o único que realmente me ama. Empolgada fico em pé, limpando a saia do vestido, fico na pontinha dos dedos já que hoje estamos treinando sem salto, seguro a lateral do vestido e fico curvada em agradecimento. Num breve instante escuto seus passos pela madeira, até ver a ponta dos sapatos sociais, a mão grande com a aliança de noivado no dedo anelar aparece.
Seguro sua mão e beijo em cima da jóia , um sinal de respeito por ser o segundo homem da casa e de submissão.
Seus dedos tocam o meu queixo puxando o meu olhar para cima, encontro seu olhar caloroso, os cabelos sempre bem cortados e a barba feita.
"Boa menina." Abre um sorriso enorme fazendo o meu coração saltitar por finalmente ser reconhecida em algo ao invés de apanhar. "Diga o que deseja de presente."
"Yukov, ela vai se acostumar m*l, você e o seu pai colocam essa garota a perder." Mamãe fala alto fazendo minhas pernas tremerem.
A dor na ponta dos pés quase me faz cair, mas suspiro sustentando tudo.
"Gostaria de ganhar um urso de pelúcia e um chocolate." Murmuro baixo.
"Irei trazê-los, mas para ter o segundo presente precisará cumprir mais tarefas."
Sinto os olhos lacrimejando pela emoção em ter um urso como todas as coleguinhas do colégio, todas levam seus ursos para a aula e mesmo vendo que algumas choram um pouco ao abraçar o bichinho tenho certeza de que não se sentem sozinhas como me sinto.
"Eu não acredito nisso.. eu.." Mamãe não termina de falar, o som de algo quebrando chama a minha atenção, mas meu irmãozão não deixa ver.
"Você o que Yeda?" A voz do papai ruge pela casa estremecendo todos os meus ossos.
Tenho medo dele, seu olhar é assustador e a maneira como fala não deixa espaços para que alguém o questione.
"Eu acho que os dois já estão servidos senhor."
A risada do papai parece com a voz dos monstros dos poucos filmes que posso assistir. Sinto os olhos enchendo de lágrimas.
"Carne nova sempre vai ser melhor do que carne velha, agora vá se arrumar, temos um baile para ir."
"Sim Senhor."
Escuto os passos até Yukov finalmente sair da minha frente e papai aparecer, seus olhos verdes tão parecidos com os meus.
"Suba e vá para o seu quarto Maya, quando chegarmos sua mãe irá lhe chamar para que possa realizar a tarefa e receber os presentes."
Abro um sorriso curto assentindo mas apresso os passos para sair de perto deles.
Ao chegar no quarto vejo que o controle da televisão está em cima da minha cama ou seja mamãe liberou para que possa assistir, pulo feliz.
"Tome um banho primeiro Maya." Ela aparece na porta com uma toalha em volta do corpo e o cigarro nos lábios.
Uma marca vermelha em seu rosto atrai a minha atenção. Ela suspira e sai.
Obediente, vou tomar um banho e volto para a cama ligando a televisão rapidamente achando o filme da Cinderela, é o meu favorito.
O sono vai chegando..
..
..
"Acorda Maya, vamos garota inútil." Sinto o beliscão no braço.
"Mamãe?"
"Vamos logo, ou seu pai vai me castigar pela sua burrice."
Abro os olhos e pulo da cama, ela tem um pequeno vestido vermelho que se abre numa saia bailarina com pequenos saltos baixos dourados. Se o vestido fosse azul seria idêntico ao da Cinderela.
Sonolenta consigo ficar pronta com a ajuda dela escovando o meu cabelo.
"Agora sim, você vai aprender, garota inútil." Murmura.
"Aprender o que, mamãe?" Questiono
"A ser uma mulher da máfia, uma mulher perfeita." Ela segura o meu queixo com força fixando nossos olhares no espelho. "Essa é a face do m*l, não ouse dizer uma única palavra fora dessa casa Maya, está entendendo?"
Com os olhos cheios de lágrima afirmo.
"Ótimo, não me decepcione ou aquelas chicotadas serão cócegas."
"Sim senhora."
Ela termina de mexer nos meus fios e se ergue, puxando minha mão, caminhamos pela casa descendo os degraus, uma porta que jamais vi está entre aberta, ao passarmos por ela, uma sala com lareira aparece e poltronas uma ao lado da outra e uma mesa de centro pequena.
Não reconheço ninguém além do papai e do meu irmão.
Os homens abrem sorrisos, mas fico incomodada pela maneira como olham para mim.
"Um rubi para os nossos olhos, Marskim." Um dos homens fala chamando pelo meu pai.
"Perfeita." Papai responde.
incapaz de outra reação abro um sorriso enorme feliz por finalmente agradar o meu pai em algo.
"Venha Maya, venha até a mesa." Yukov pede com um sorriso nos lábios.
É quando finalmente noto que eles estava no canto da sala, no escuro, noto duas mulheres com as cabeças baixas e nuas cada uma ao lado de uma das paredes da lareira. Elas tem ferros nos pescoços e nos punhos.
Insegura, fico parada até sentir o empurrão nas costas encontrando o olhar duro da minha mãe. Dou passos inseguros, Yukov estende a mão e seguro nela confiando em seu sorriso subo na pequena mesa.
"No leilão de hoje, a maior barganha irá ganhar a virgindade de Maya Kiskovna, a mais nova da coleção e de uma linhagem digna, senhores, preciso dizer que sinto inveja do felizardo que arrematar minha doce irmã."
Não entendo nada do que ele fala, só sinto medo, quero descer da mesa, mas ele aperta a minha mão com força. É quando outro homem sai da escuridão atraindo minha atenção, seu olhar azul e frio, faz meu coração acelerar com tanto medo.
"Não precisa abrir a roda de lances Yukov, dou o maior valor pela menina."
"Você é muito arrogante de imaginar ter mais dinheiro do que nós, Hugo." Um homem barbado com alguns fios brancos fala.
"Faça a sua oferta e irá passar vergonha, Sub chefe."
Enquanto busco ficar concentrada na respiração não desvio o olhar do tal Hugo, penso no urso e no chocolate que irei ganhar, quanto tempo faz que mamãe não me deixa comer chocolate para não engordar. Percebo eles falando números e mais números. Até o homem de cabelos brancos jogar um copo de vidro na parede com raiva e o moço de olhos azuis abrir um sorriso tão grande que faz com que meus joelhos se curvem pelo medo.
Grito acordando de mais uma noite na qual visito a parte mais c***l do passado, a noite em que descobri que não existe espaço no paraíso para crianças da máfia.