Perdida

1210 Palavras
"Vem comigo boneca" Seguro na mão do homem que causa arrepios com um único olhar, encaro Yukov por cima do ombro, ele tem um sorriso enorme, parece tão feliz que decido acompanhar o rapaz de olhos azuis e cabelo preto. Ele é tão alto. "Sabe o meu nome Maya?" Questiona arqueando a sobrancelha, noto que saímos do quarto e as risadas ficam para trás. "Tudo bem senão souber." "É que não lembro, mas já o vi num baile." "Meu nome é Hugo, tenho certeza de que nunca irá esquecer." "É um nome bonito, para onde vamos senhor Hugo?" "Você gosta de brincar?" "Muito mas a mamãe não deixa, ela disse que mulheres da máfia não podem brincar." Seu sorriso aumenta muito até que na sala para se agachando ficando da minha altura, o toque sutil dos dedos contra a bochecha não causa medo, em seu olhar enxergo um mar azul parecido com o que vi no filme da Ariel que Yukov me deixou assistir quando o papai e a mamãe viajaram. "Eu vou te ensinar a brincar como uma mulher da máfia, você vai ser a melhor de todas, Maya, quando estiver pronta voltarei por você." "Mas você já está aqui comigo." "Talvez não possa estar depois, por isso você precisa aprender a brincar." "Vai doer?" Sinto os olhos doendo um pouco lembrando dos chicotes da mamãe. "Um pouco." Encolho os ombros puxando a mão "Mas só aqui" toca na minha cabeça Levo a mão a testa piscando atordoada, ele estica as mãos e fico sem entender. "Vem minha bonequinha." "Para onde?" "Para os meus braços é aqui que você pertence." "Mas não posso mais ficar nos braços." "Comigo você pode tudo que quiser Maya, desde que me deixe te ensinar a brincar." "Posso tomar sorvete e ter um urso?" "Claro, bonequinha, mas lembre-se não gosto de falar duas vezes que essa seja a última na qual tenho que repetir: venha para os meus braços." Dou dois passos a frente esticando as mãos, sou envolvida pelos braços fortes sendo levada para fora da mansão com a cabeça contra o ombro dele, Hugo cheira a pão de mel e eu amo muito pão de mel. Acordo sufocada com o coração batendo de uma maneira descompassada, a necessidade no baixo ventre ainda presente, mas é a maciez contra as costas que cauda o estranhamento. Desmaiei no piso do carro de Dimitri, aquele maldito que ficou observando enquanto perdia a compostura, forçando o pior em mim a dar as caras, uma parte suja da qual tenho vergonha. Quantas mulheres sonham em apagar esses tipos de recordações dolorosas? Abaixo os olhos, encontrando a marca do tecido contra os punhos. Suspiro com pesar, quando saí para aprender a brincar não imaginava o quanto iria gostar. Mamãe estava certa quando disse que aprenderia na dor como ser uma mulher da máfia, ela só não imaginava o quanto gostaria disso. Encaro o teto branco do quarto no qual venho dormindo desde que tudo aconteceu naquela escada de incêndio. Nicklaus levando um tiro por Carolina, fazendo o meu coração queimar de inveja outra vez. Yukov a deseja como um louco, Nicklaus morreria por ela e o olhar de desejo que vi nos olhos de Dimitri só mostra o quanto a quer. Levanto o lençol percebendo que estou nua, claro, ele só me jogou aqui. Bufo com raiva sem querer levantar até escutar o som do lembrete no celular indicando sobre a prova prática que esqueci. Uma prova prática de teatro no qual devo realizar uma encenação. Para quem precisa manter a fachada no lugar é tão fácil quanto respirar, ergo o corpo dolorido esticando e estalando algumas partes. Todas na realidade sonham em ser a boneca perfeita, com lindos fios loiros, cintura fina, s***s empinados e uma b***a perfeita. Encaro meu corpo no espelho, por dentro é só mais uma alma perdida. Caminho na direção do banheiro tomando um longo banho no qual molho os fios, tirando um tempo ainda maior para secar, passar creme no corpo e fazer uma leve maquiagem de cílios marcados e boca traçada. Escolho um vestido de tamanho mid, com saia drapeada na cor verde e um conjunto de saltos brancos junto com uma bolsa de braço da mesma cor. Volto a encarar o espelho de corpo todo contra a porta, uma bonequinha perfeita. "Minha bonequinha" A voz grave repercute dentro da minha cabeça, fecho os olhos com força, contendo a vontade de chorar. Ele disse que viria me buscar, ele não veio me buscar, ele me deixou aqui sozinha, ele é meu dono e não quis mais brincar comigo. Inspiro profundamente o perfume doce que passei. Ele virá me buscar Ele vai brincar comigo Ele é o meu dono Ele adora a bonequinha Com um sorriso estampando os lábios, finalmente abro a porta saindo do quarto, travo no mesmo instante sentindo o cheiro de ovos e torrada. "Seja perfeita bonequinha, se mantenha educada e perfeita." Meu coração dispara outra vez, deveria ter levantado logo, não deveria ter tomado um banho tão longo. Não fiz o café da manhã Não fiz o café da manhã Caminho em passos largos pelo corredor em direção a cozinha segurando as lágrimas que desejam cair com força, porque fui tão estúpida? Meus saltos ecoam no piso de madeira, meu coração parece que vai pular fora do peito, não acredito que deixei uma empregada fazer o .... "Bom dia, Maya." A voz fica presa dentro da minha garganta, enquanto sinto o arregalar nos olhos, com a saliva descendo pela garganta como ácido. "Sente-se irei te servir num instante." Deixo a bolsa cair no chão, mas não recebo um único olhar na verdade ele fala tudo isso de costas, usando uma camiseta preta exibindo os braços sem tatuagens, algo raro dentro da organização, os ante braços cheios com as veias grossas marcando a pele até chegar nas malditas mãos cobertas pelas luvas pretas. Seus ombros estão relaxados, os fios molhados e os movimentos descontraídos como se estivesse seguro por estar em casa. Mas isso é uma fachada tão bem construída quanto a minha. "Sente-se Dimitri, me deixe terminar isso." "Desculpa, mas traidores não cozinham nessa casa, além disso tenho certeza que a minha comida é melhor que a sua." Ele se vira com um sorriso de lado no rosto exibindo o canino quebrado parecendo ser um charme com os olhos de cor âmbar num tom verde quase translúcido agora. "Eu deveria ter feito o café da manhã." Ser perfeita, perfeita bonequinha. "Acredito que deve estar perdida na sua antiga vida, Maya, nessa casa eu cozinho e você senta e come." Ele puxa um prato servindo os ovos completando com as torradas, pega uma xícara servindo um chá e em cima coloca uma linha fina de chantilly. "Como sabia?" Questiono olhando para a xícara. A comida, a xícara, a noite de ontem, os homens, o soldado, a voz de Nicklaus, Yukov em fúria. Sinto as mãos fortes cobertas por couro nos ombros, a barba raspando na lateral do pescoço acendendo todos os alertas da minha mente. "Eu sempre sei de tudo, boneca." Meu coração para enquanto Dimitri abre um largo sorriso, dando uma piscada ao ir na direção do quarto. "Coma tudo, não posso deixar você chegar atrasada na prova."
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