Arthur deixou Júlia na confeitaria que ela herdou de sua mãe, após fazerem os exames que comprovariam que os dois não ficaram juntos naquela noite por vontade própria. A moça estava muito abalada e por mais que ele se preocupasse com ela, nada poderia fazer, a mesma queria distância dele e ele atenderia ao seu pedido, involuntariamente ele destruiu o relacionamento dela com seu melhor amigo, sem querer ele acabou com tudo de bom que Júlia ainda tinha em sua vida. E por mais que ele fosse um playboy que muitos consideravam irresponsável, ele estava preocupado com a mulher que ele amava.
Ele errou. Errou muito. Errou quando não se afastou quando era tempo, decidindo continuar com a amizade com Marcos quando amava a sua noiva em segredo. Mas amar Júlia não era um erro pra ele, aquele amor que nutria por ela, era o combustível que o mantinha vivo. Ele também estava destruído, para Arthur aquilo também era muito doloroso, as duas pessoas que ele havia prejudicado eram pessoas muito importantes para ele. No entanto, tudo já tinha acontecido e nada poderia ser feito e tudo que ele mais desejava no momento era que Júlia ficasse bem e que se possível o casal voltasse a ser como eram antes.
Arthur estacionou o seu carro na garagem da casa de seus pais e se odiou por ter vendido o seu apartamento e ter começado a construir uma nova casa, ele não pretendia casar, então para quê uma casa maior? Tendo que voltar a morar com os seus pais.
Naquele horário não dava para ele simplesmente entrar sem ser percebido por eles e muito menos pela sua irmã, que já devia está correndo e brincando pela casa. Ele teria que enfrentar as perguntas e principalmente os sermões que seus pais lhe dariam. Então ele respirou fundo e resolveu entrar em casa, era melhor enfrentar tudo que estivesse por vir, logo de uma vez só. A chuva ainda caia sobre a cidade e parecia que não iria parar tão cedo. Ao se aproximar de casa, ele ouviu risadas de criança e de seus pais, em um dia normal ele correria até eles e faria uma grande bagunça, mas dessa vez ele só queria passar despercebido por eles, porém o faro de Molly e os olhos de águia de Alice não deixaram aquilo acontecer.
— Tutu, você chegou. — O mini furacão de cabelos castanhos e olhos azuis gritou, chamando a atenção de seus pais, enquanto Arthur sentia as patas e o peso de Molly se chocarem contra seu peito. A cachorra da raça labrador e de pêlos da cor de chocolate, o fez lembrar de Júlia, tinha sido ela que a resgatou e foi ele a única pessoa que quis adotar o animal, já que a madrasta dela e muito menos Marcos gostavam de animais em casa.
— Pelos hematomas, nosso filho se meteu em confusão de novo, Murilo. — A mãe de Arthur disse, se aproximando do esposo.
— É eu percebi, e o negócio parece ter sido mais sério, ele não entrou xingando e não precisou da nossa ajuda, bom, pelo menos até agora não fomos chamados em nenhuma delegacia e nem fomos marcados em nenhuma publicação em redes sociais. — O homem deu de ombros, esperando o filho se aproximar com a sua irmã mais nova no colo, enquanto a pequena passava seus dedinho finos de forma delicada em seus machucados.
— Mãe, pai, dessa vez eu não machuquei ninguém, não fisicamente. — Disse, enquanto os encarava com uma certa tristeza no olhar.
O casal mantinha um semblante calmo. Eles conheciam bem o filho que tinham e se ele entrou em casa sem xingar, ele não estava nada bem.
— Vamos conversar no seu quarto. — Murilo disse e o filho assentiu.
— Alice, fica aqui brincando com a Molly, não saia para o jardim e qualquer coisa chame a Mila. A mamãe vai conversar com o papai e com o seu irmão lá em cima. — Disse pegando a filha dos braços do irmão, que assentiu em seguida.
Arthur subiu as escadas sendo acompanhado por seus pais, que pareciam bastante preocupados com o filho e com o seu comportamento. Enquanto subia ele abria os botões de sua camisa, que estava toda amarrotada. Ele abriu a porta do seu quarto e passou as mãos pelos fios de cabelos lisos e castanhos, caminhou até a janela e abriu as cortinas, deixando o quarto mais claro.
— Podem começar com as perguntas ou sermões, tanto faz. — Disse colocando as mãos nos bolsos da calça.
— Nós queremos apenas ouvir de você o que aconteceu, te conhecemos e sabemos que dessa vez a merda foi feia. — Murilo sentou-se em uma poltrona de leitura, que ficava de frente para a cama de seu filho.
Diana, mãe de Arthur, caminhou até ele.
— Vem senta aqui. — Disse, segurando nos ombros do filho e o levando até a cama. — Agora fala o que aconteceu, você não é nada calmo quando se envolve em alguma briga. — Os pais dele tinham conhecimento do temperamento explosivo do filho.
— Você tem razão, pai, a merda dessa vez foi feia. — Diana fazia algumas caretas, enquanto olhava para o rosto machucado de Arthur, tentando ver através daqueles curativos.
— Então nos diga o que você fez e quem o deixou assim? — Murilo estava calmo e o seu coração de pai lhe dizia que aquela seria a última vez que o seu filho traria problemas para casa.
— Eu destruí a minha amizade com o Marcos, acabei com o noivado dele e consegui duplicar o ódio que a Júlia sentia por mim e o responsável pelos meus hematomas foi o Marcos, o meu melhor amigo, agora ex-melhor amigo. — Diana colocou a mão na boca, desacreditada no que estava ouvindo.
— Mas o que diabos você fez para acontecer tudo isso? — Murilo perguntou surpreso, porém manteve a calma, que era uma grande qualidade sua.
— Eu simplesmente transei com a noiva dele e ele nos flagrou juntos. — Respondeu de uma vez.
— Você enlouqueceu, Arthur? E a Júlia, ela quis isso? — Diana perguntou, alterando o seu tom de voz.
— Não mãe, eu não enlouqueci e já estava conformado de que eu nunca ia ter a mulher que eu amei a minha vida toda e que ainda amo. A Júlia e eu fomos drogados. — Respondeu.
— Isso faz mais sentido. Pelo que conhecemos dela, ela jamais trairia o noivo ou qualquer outra pessoa. — Murilo disse. — Mas se você acha que foi drogado, tem que fazer alguns exames para provar a inocência de vocês. — Continuou. Eles eram advogados e estavam acostumados com aquele tipo de acontecimento.
— Foi a primeira coisa que eu fiz quando a tirei daquela casa, o médico confirmou as minhas desconfianças e é quase certo que fomos dopados. — Respondeu. — Vocês acreditam que a víbora da Débora expulsou a Júlia de casa? — Olhou de Murilo para Diana.
— Isso não me deixa surpresa, aquela mulher não presta, ela nunca me enganou. — A advogada disse.
— Mas você não precisa se preocupar, eu sei que quando o resultado do teste sair, o Marcos vai entender e perdoar vocês dois e tudo volta a ser como era antes. — Murilo falou, dando um sorriso fraco.
— Ele até pode entender e pedir perdão a Júlia, mas nada vai voltar a ser como era antes, pai. O que ele fez com a Júlia ela não vai perdoar, nem eu o perdoarei. — Revelou.
— E o que ele fez com ela? — Diana perguntou.
— O Marcos ficou fora de si quando nos viu dormindo juntos, isso eu entendo, eu também ficaria, mas jamais faria o que ele fez. Primeiro ele começou a xingar ela, disse coisas horríveis com a Júlia, depois jogou água nela para que pudesse despertar e depois começou a me bater. Então ela tentou tirar ele de cima de mim e ele lhe deu uma bofetada. Bofetada essa que doeu em mim, bem mais do que os socos que ele me deu. — Falou com uma certa mágoa na voz.
— Como ele pôde bater em uma mulher? Por mais que ela estivesse errada, que não é o caso da Júlia, ele não podia ter feito isso. O Marcos sempre falou o quanto era apaixonado por ela, que daria a sua vida por ela e faz isso com a garota? Para mim, isso está longe de ser amor. — Diana ficou brava.
— Eu concordo com a sua mãe, independente do quão furioso um homem pode estar, bater em uma mulher nunca é uma opção e não importa o que ele estava sentindo, agressão nunca resolve nada, seja ela em homem ou em mulher. Veja só o seu estado. — Apontou para os seus machucados.
— Diante disso, a Júlia não o perdoa pelo que ele disse e muito menos pela agressão, sendo assim, de qualquer forma o noivado deles e a nossa amizade acabou. — Finalizou.
— Eu acredito em você, mas me responde uma coisa: que tipo de droga fez vocês ficarem juntos, sem se dar conta de quem eram? — Diana perguntou perguntou.
— A droga causa alucinações. Na cabeça da Júlia, ela estava com o Marcos, ele quem tinha passado a noite com ela e não eu. — Respondeu.
— E na sua cabeça, quem estava com você? Quem você via? — Arthur coçou a cabeça, e encarou seu pai, que esperava uma resposta.
— Quem vocês acham? — Murilo e Diana sabiam dos sentimentos que o filho nutria pela garota desde os seus 14 anos.
— A Júlia! Você não deixou de amá-la, mesmo que o romance dela com o Marcos já dura quase 15 anos, ou melhor, durou 15 anos. O amor que sente pela Júlia é um amor verdadeiro e único, o qual eu só vi nos romances de tv e em livros. — Diana completou.
— Então, se você só via ela, porque você não evitou chegar aonde chegaram? — Murilo perguntou.
— Porque todas as mulheres que eu já beijei e todas com quem eu fui pra cama, eu sempre imaginei que era a Júlia, era o rosto dela que eu via todas as vezes. — Respondeu.
— Isso é loucura, Arthur. — Disse.
— Não pai, isso é amor verdadeiro e um amor impossível de acontecer. — Falou.
— Mas Tutu, a Júlia, ela não sente nada por você, além de ódio. Ela sempre demonstrou indiferença com você e sempre tentou se manter distante. A Júlia nunca escondeu a mágoa que sente por você. — Arthur riu, era um riso carregado de dor.
— Eu só posso ter sido um homem muito horrível na minha vida passada para merecer tudo isso. Sempre amei a pessoa que me odeia e o pior de tudo é que eu a conheço melhor do que o próprio noivo. — Levantou-se, passando a mão pelos fios de cabelo.
— Conhece? — Diana perguntou.
— Eu sei sobre cada coisa que ela gosta de fazer, de comer, de vestir, eu sei de tudo. Eu conheço todas as expressões dela, desde quando algo lhe agrada ou não, quando está entediada, quando não gosta de alguém. Em todos os encontros que participei, ela sempre fingia gostar de todos aqueles colegas do Marcos, que sempre falavam de trabalho, trabalho e trabalho, sempre enaltecendo a profissão de médicos deles e menosprezando qualquer outra profissão, principalmente a dela. — Arthur tinha lágrimas nos olhos e a sua mãe também.
— Se um dia a Júlia deixar de te odiar, eu serei o primeiro a mostrar a ela quem realmente merece o amor dela. — Murilo disse.
— Você nunca perguntou a ela o porquê dela sentir tanta raiva de você, Tutu? — Um pouco chorosa, ela perguntou. Diana era uma mãe muito presente na vida de seus filhos e sempre sofreu junto com Arthur por amar uma mulher proibida para ele.
— Não, eu achava melhor que ela me odiasse. Se ela fosse gentil e carinhosa comigo, eu iria sofrer mais, iria ter o carinho dela e não era da forma que eu sempre desejei. — Respondeu.
— Espere a poeira baixar, dê um tempo para ela se curar do término com o Marcos, então fale com ela e pergunte o que houve para ela ter tanto ódio de você. Coloque ela contra a parede e as cartas na mesa, você não pode ficar com essa dúvida para sempre. — Murilo aconselhou.
— Eu não sei, pai. Não sei se quero continuar morando aqui. Talvez eu viaje, quem sabe morar em outro país, sem ver a Júlia, tudo isso que eu sinto acaba. — Diana riu.
— Eu vi você sair com várias mulheres, viver uma vida cheia de loucuras, beber até apagar e não esquecer esse sentimento. O que você tem aqui... — Tocou o peito dele. — Vai te acompanhar para onde você for, a distância não vai mudar nada. Só espera mais um pouquinho, tenta saber diretamente da Júlia o que é esse ódio que ela tem por você, aí então, com a sua resposta você decide o que fazer. Mas no momento, a única coisa que eu aconselho você a fazer: é ficar quieto e evitar encontrar ela e o Marcos enquanto esse assunto ainda estiver recente. — Disse.
— Quando o resultado do teste sair, apenas entregue a ela e deixe que ela resolva tudo com o Marcos. Fique em casa, descanse e se cuide. Também aconselho você a ficar longe de baladas ou de qualquer outra coisa que só te faça m*l. — Murilo aconselhou.
Arthur ficou por um bom tempo observando a chuva que caía lá fora, com a esperança de um dia se livrar de toda dor e sofrimento que estava sentindo. Talvez sua mãe tivesse razão, ir embora não ia resolver o seu problema, não iria deixar de amar Júlia apenas porque mudou de país, aquele amor que sentia por ela estava grudado em sua alma.