a caçada começa

1077 Palavras
Ponto de Vista de Ethan Wood Ela fugiu. De novo. E dessa vez… eu deixei. — Droga! A palavra saiu entre os dentes enquanto eu atravessava o corredor da cobertura em passos largos. Nem me dei ao trabalho de pegar o sapato. Estava descalço, a camisa ainda aberta, a calça vestida às pressas. Mas nada disso importava. Só uma coisa importava. Ela. Abri a porta com força e saí. O corredor parecia longo demais. O elevador demorou mais do que deveria. — Anda logo… — rosnei, apertando o botão várias vezes. Minha mente trabalhava rápido. Reconstituindo cada detalhe. O jeito que ela me beijou. A forma como o corpo dela reagiu ao meu. Aquela familiaridade. E, então… O momento. O olhar dela quando viu minha tatuagem. Choque. Reconhecimento. Medo. Ela sabia. E aquilo confirmou tudo. Era ela. A garota da boate. A única que escapou. A única que eu nunca encontrei. A única que ficou na minha cabeça por dois anos. E agora… Ela tinha feito de novo. As portas do elevador se abriram. Entrei imediatamente. — Térreo. Minha respiração ainda estava pesada. Mas não era só pelo esforço físico. Era pela adrenalina. Pela excitação. Pelo desafio. Porque, pela primeira vez em muito tempo… Algo fugiu do meu controle. E eu não aceitava isso. As portas se abriram no térreo. Saí sem olhar para ninguém. Mas senti. Os olhares. As pessoas da festa me encarando. Surpresas. Confusas. Talvez chocadas ao me ver daquele jeito. Descalço. Desarrumado. Fora do controle. Mas eu não me importava. Passei direto pela recepção. — Você! — chamei o segurança. Ele se endireitou imediatamente. — Senhor Wood! — Uma mulher acabou de sair daqui. Máscara, vestido azul. Você viu? Ele assentiu rápido. — Sim, senhor. Ela passou correndo… como um furacão. Minha mandíbula travou. — Para onde? — Saiu pela rua. Não consegui ver a direção. Soltei um xingamento baixo. E saí. O ar da noite me atingiu forte. Olhei para a direita. Depois para a esquerda. Nada. Nenhum sinal. Nenhum rastro. A rua estava movimentada, mas comum demais. Pessoas normais. Carros passando. E ela… Já tinha desaparecido. De novo. Passei a mão pelo cabelo, frustrado. — Droga! Dei alguns passos à frente. Olhei novamente. Como se, por insistência, ela fosse reaparecer. Mas não. Ela era boa nisso. Boa em fugir. Boa em desaparecer. Boa em me deixar querendo mais. E isso… Aquilo me irritava. Mas também… Me provocava. Voltei para dentro do prédio com passos firmes. — Quero as imagens das câmeras — falei diretamente para o segurança. Ele nem questionou. — Sim, senhor. Fui até a sala de monitoramento. As telas foram ligadas. Imagens começaram a aparecer. Procurei por ela. E lá estava. Saindo do elevador. Correndo pela recepção. Descalça. Vestido azul. Máscara ainda no rosto. Parecia… desesperada. A imagem mudou. Agora do lado de fora. Ela correndo pela calçada. E então… Nada. Ela saiu do alcance das câmeras. Desapareceu na cidade. Como se nunca tivesse estado ali. Bati a mão na mesa. — Droga! O segurança ficou em silêncio. Inteligente. Eu não estava com paciência. — Quero todas as câmeras externas revisadas — ordenei. — Ruas próximas, estacionamentos, tudo. — Sim, senhor. Saí dali sem esperar resposta. O caminho de volta até a cobertura foi mais lento. Mas não porque eu queria. Era porque minha mente estava ocupada demais. Organizando. Ligando os pontos. Pensando. Dois anos. Dois anos sem respostas. E agora… Ela apareceu. Entrou na minha empresa. Dançou comigo. Se entregou. E fugiu. De novo. Um sorriso lento surgiu no meu rosto. — Cinderela… Entrei no escritório. A porta se fechou atrás de mim com um clique baixo. O silêncio tomou conta do ambiente. Olhei ao redor. O sofá. O chão. As marcas do que tinha acabado de acontecer. Passei a mão pelo rosto. Respirei fundo. E então meus olhos pararam em algo. No chão. Perto do sofá. Aproximei-me devagar. E vi. Um pequeno pedaço de renda branca. Delicado. Esquecido. Abaixei-me e peguei. Passei os dedos pelo tecido. Leve. Suave. E ainda com o perfume dela. Levei até o rosto. Fechei os olhos por um segundo. E sorri. — Ah… Cinderela… Minha voz saiu baixa. Satisfeita. — Você sempre deixa algo para trás. Como em toda história. Sempre há um rastro. Uma pista. Um erro. E eu nunca deixo erros passarem. Peguei o celular. Disquei rapidamente. Chamou uma vez. — Fala — a voz de Marcos veio do outro lado. — Preciso de você. — Já começou interessante. O que foi? Olhei novamente para a peça em minha mão. — Preciso encontrar alguém. — Quem? Um pequeno silêncio. Então respondi: — Cinderela. Ele riu. — Agora você tá vendo desenho? Ignorei. — É a mesma garota da boate. O silêncio do outro lado mudou. — Aquela? — Aquela. — Você tá brincando. — Não. Passei a mão pelo cabelo. — Ela estava aqui. Na festa. — E você deixou ela escapar? Minha mandíbula travou. — Ela fugiu. — De novo? — De novo. Ele soltou um assobio baixo. — Impressionante. — Não tem nada de impressionante nisso. — Tem sim. Nunca vi alguém fugir de você duas vezes. Ignorei a provocação. — Ela estava usando máscara. Não vi o rosto. — E você não tirou? Pensei por um segundo. Na verdade… Eu não quis tirar. — Não. — Por quê? Olhei novamente para o objeto em minha mão. — Porque eu quis jogar. Ele riu. — Claro que quis. — Ela me reconheceu. — Como? — Pela tatuagem. — Então ela sabe quem você é. — Sim. — E você não sabe quem ela é. Silêncio. Aquilo me incomodava. Muito. — Ainda não. Marcos soltou um suspiro. — Tá. Eu já estou indo pra aí. — Rápido. — Sempre. Desliguei. Fiquei sozinho novamente. No silêncio do escritório. Segurando a única coisa que ela deixou para trás. Uma pista. Um convite. Um erro. Caminhei até a janela. A cidade se estendia abaixo de mim. Grande. Caótica. Cheia de pessoas. Mas, naquele momento… Ela era a única que importava. — Você não vai fugir de mim de novo… — murmurei. Apertei o tecido entre os dedos. Um sorriso perigoso surgiu no meu rosto. Porque agora… Aquilo não era mais apenas desejo. Era obsessão. Era caça. E eu sempre termino o que começo. Sempre. — Corre o quanto quiser, Cinderela… Minha voz saiu baixa. Escura. — Eu vou te encontrar. E quando encontrar… Dessa vez… Você não vai embora à meia-noite. 🖤
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