Ponto de Vista de Ellen
Eu precisava sair dali.
Agora.
Não importava como.
Não importava quem visse.
Eu só precisava… fugir.
Minhas mãos tremiam tanto que m*l consegui segurar o vestido enquanto o puxava de qualquer jeito sobre o corpo. O coração batia descompassado, forte demais, como se quisesse sair pela boca.
Minha cabeça girava.
As imagens se misturavam.
O escritório.
O sofá.
O toque dele.
A tatuagem.
O lobo.
Fechei os olhos por um segundo.
Mas foi pior.
Porque a lembrança veio com mais força.
Aquela noite.
A boate.
A música alta.
O cheiro de álcool.
As luzes piscando.
E ele.
O mesmo homem.
O mesmo corpo.
A mesma intensidade.
O mesmo… perigo.
— Não… — sussurrei.
Mas já era tarde demais.
Eu sabia.
Com uma certeza esmagadora.
Era ele.
O homem daquela noite.
O homem que eu não consegui lembrar do rosto.
O homem que tomou meu corpo enquanto minha mente estava perdida.
O homem que desapareceu.
O homem que mudou minha vida para sempre.
O homem…
Que era o pai da minha filha.
Meu estômago revirou.
O desespero tomou conta.
Eu não podia ficar ali.
Não podia olhar para ele.
Não podia deixar que ele descobrisse.
Não podia…
Não podia…
Corri.
Abri a porta do escritório com força.
O corredor da cobertura parecia mais longo do que nunca.
Meus passos ecoavam.
Descompassados.
Apressei o botão do elevador várias vezes.
— Anda… anda…
Quando as portas finalmente se abriram, entrei quase tropeçando.
Apertei o botão do térreo.
E foi só ali…
Quando o elevador começou a descer…
Que eu senti.
O ar faltou.
As pernas ficaram fracas.
Minhas mãos foram até o rosto.
A maquiagem…
A máscara…
Tudo ainda estava ali.
Mas eu já não me sentia protegida.
Nada me protegia daquilo.
Nada me protegia da verdade.
As portas se abriram.
E eu saí.
Correndo.
Algumas pessoas da festa estavam próximas da recepção.
Conversando.
Rindo.
Vivendo uma noite perfeita.
Mas quando me viram sair do elevador daquele jeito…
Descalça.
Com os sapatos na mão.
Respiração descontrolada.
Eles olharam.
Confusos.
Curiosos.
Talvez até julgando.
Mas eu não parei.
Não olhei para ninguém.
Atravessei a recepção quase correndo.
Ignorei qualquer tentativa de alguém falar comigo.
E saí.
O ar da rua bateu no meu rosto.
Frio.
Brusco.
Real.
Corri.
Sem direção.
Sem pensar.
Apenas me afastando.
Do prédio.
Dele.
Daquela noite.
Dos erros que pareciam me perseguir.
Meus pés doíam.
A respiração queimava.
Mas eu continuei.
Até não conseguir mais.
Duas quadras depois…
Parei.
Meu corpo cedeu.
E eu me sentei na calçada.
Os sapatos caíram das minhas mãos.
Meu peito subia e descia rapidamente.
E então…
Eu desabei.
As lágrimas vieram sem controle.
Fortes.
Dolorosas.
Incontroláveis.
— Não… não pode ser… — sussurrei entre os soluços.
Minhas mãos foram até o rosto.
Desesperadas.
— Não pode ser ele…
Mas era.
Eu sabia.
Eu sentia.
Não havia dúvida.
Aquela tatuagem.
O jeito.
O toque.
Tudo.
Tudo era o mesmo.
— Meu Deus…
Minha voz saiu fraca.
Quebrei completamente.
— Ele… ele é o pai da minha filha…
As palavras saíram como um sussurro quebrado.
Como se, ao dizê-las, se tornassem ainda mais reais.
Mais pesadas.
Mais impossíveis de ignorar.
Sara.
Minha pequena.
Minha razão de tudo.
Filha de um homem que eu m*l conhecia.
De um homem perigoso.
Frio.
Dominador.
Um homem que não se importava com ninguém.
Um homem que descartava mulheres como se não fossem nada.
Um homem que…
Agora sabia quem eu era.
Ou pelo menos…
Estava perto de descobrir.
O pânico voltou com força.
— O que eu vou fazer…?
Minhas mãos tremiam enquanto eu pegava o celular na bolsa.
Quase deixei cair.
Respirei fundo.
Tentei me controlar.
Mas era impossível.
Disquei o número.
Chamou.
Uma vez.
Duas.
— Atende… atende…
— Ellen? — a voz de Roberta veio do outro lado.
Imediatamente.
— O que aconteceu? Você está bem?
Minha garganta travou.
Eu tentei falar.
Mas nada saiu.
— Ellen?!
Respirei fundo.
Forçando as palavras a saírem.
— Por favor…
Minha voz saiu quebrada.
— Vem me buscar…
— Onde você está?
— Duas quadras… depois da festa…
Olhei ao redor, sem realmente ver.
— Por favor… vem me buscar…
O silêncio do outro lado durou um segundo.
Mas pareceu uma eternidade.
— Eu já estou indo — Roberta disse firme.
— Fica aí. Não sai do lugar.
Assenti, mesmo sabendo que ela não podia ver.
— Tá…
Desliguei.
E fiquei ali.
Sentada na calçada.
Abraçando meu próprio corpo.
Chorando.
O vestido azul, antes tão bonito, agora parecia pesado.
Como um lembrete.
Do erro.
Do desejo.
Da fraqueza.
— Eu fui uma i****a… — sussurrei.
Eu sabia que aquele homem era perigoso.
Eu sabia.
E mesmo assim…
Eu fui até ele.
Eu dancei com ele.
Eu beijei ele.
Eu…
Fechei os olhos com força.
Mais lágrimas.
— Eu não posso deixar ele descobrir…
A ideia me aterrorizava.
Se ele descobrisse sobre Sara…
Se ele descobrisse que tinha uma filha…
Eu não sabia o que ele faria.
E isso era o mais assustador.
Não demorou muito.
Mas pareceu uma eternidade.
Um carro parou na minha frente.
A porta se abriu.
— Ellen!
Roberta saiu rapidamente.
Seus olhos arregalaram ao me ver.
— Meu Deus…
Ela correu até mim.
— O que aconteceu com você?
Eu não consegui responder.
Apenas me levantei e me joguei nos braços dela.
— Ei… ei…
Ela me abraçou forte.
— Calma… eu estou aqui…
E isso foi o suficiente.
Porque eu desabei ainda mais.
Enterrei o rosto no ombro dela.
Chorando sem controle.
— Vai ficar tudo bem — ela disse, mesmo sem saber o que estava acontecendo.
Ela me ajudou a entrar no carro.
Sentou ao meu lado.
— Pode ir — disse ao motorista.
O carro começou a se mover.
E eu apenas…
Me agarrei a ela.
Encostei a cabeça no ombro dela.
Como uma criança assustada.
Como alguém que não sabia mais o que fazer.
— Quer me contar o que aconteceu? — ela perguntou baixo.
Mas eu não consegui.
Ainda não.
Porque dizer aquilo em voz alta…
Tornaria tudo real demais.
Então apenas chorei.
Enquanto o carro nos levava de volta para casa.
De volta para a minha realidade.
Mas, no fundo…
Eu sabia.
Nada mais seria como antes.
Porque agora…
O passado tinha voltado.
E ele tinha nome.
Ethan Wood. 🖤