Catarina
"Suas lágrimas não se derramaram em vão, mesmo que o caminho seja árduo... Deus está cuidando de tudo!"
Mantenho meus olhos fechados enquanto faço minha oração, eu não tinha nada além do terço de meu pai. Não tinha nada de quando chegara aqui, nenhum documento, nenhum dinheiro, e minha esperança estava apenas em Deus.
Eu não poderia contar com mais nada, só poderia rezar e implorar que nos guiasse enquanto tentávamos escapar. Ana dizia que isso não era suficiente, que ele havia sido o primeiro a desistir de nós.
Mas, eu não acreditava nisso. Deus não é culpado pela maldade que habita o coração dos seres humanos, e mesmo que para alguns, crer fosse algo totalmente ingênuo da minha parte... Eu sabia que ele seria o único que poderia nos ajudar nesse momento!
Ele não desistira de nós, eu sabia que a luz no fim do túnel seria revelada!
— Catarina... abaixe-se mais! — Ana sussurra, abro meus olhos e logo faço.
O solavanco do carro é imenso, Daniell dirige como um louco. Mas, estávamos em fuga e não adiantaria se fossemos devagar, ou preocupados em não levantar suspeitas dos outros capangas na estrada. Seguíamos em alta velocidade pela parte Oeste, em direção a um pequeno aeroporto, o qual Ana me informou que já tem um avião nos esperando.
Ela havia subornado o piloto, e a outra parte do pagamento está dentro dessa grande bolsa ao meu lado, no banco de trás.
Apesar das circunstâncias, do medo que habitava em mim, e o pavor de pensar o que Vicent faria se conseguisse nos pegar... meu coração pela primeira vez em 9 anos, brilhava!
A esperança de que enfim eu estava livre daquele pesadelo, a esperança de que minha casa estava lá, juntamente a minha mãe me aguardando. Isso era maior que qualquer insegurança que ousasse se aproximar!
— Atenção, duas fugitivas e um dos nossos seguem pela estrada oeste. Peguem todos! — uma voz no rádio do carro anunciara, fazendo que Ana olhasse-me, virando seu corpo enquanto Daniell pisa com toda força no acelerador.
— Demorou até demais. — ele rosna.
— Sabíamos que aconteceria, vamos conseguir! — Ana coloca a mão em meu cabelo — Vai dar tudo certo, estamos perto!
Concordo com a cabeça sentindo o ar precário em meus pulmões, o medo me impedira de conseguir respirar, fora que meu corpo inteiro tremia enquanto me mantenho encolhida naquele banco. A paisagem pela janela passa tão depressa que era quase impossível de se enxergar qualquer coisa, o barulho do motor do carro ronca alto.
Mas, é quando vejo Ana apalpando algumas armas que meu corpo vibra em pânico, ela era totalmente diferente de mim, uma mulher segura, decidida e também forte. Ela não hesitaria em suas decisões, eu sei que ela preparou tudo, sei que durante esses anos que combinamos de fugir ela se certificou de que tudo saíra como planejou. Mas, as torturas que passei nas mãos daquele homem me alertam, eu não aguentaria ser levada novamente para aquele inferno.
Mesmo sabendo que o meu pensamento é um pecado, eu o mantenho, preferindo até mesmo tirar a minha vida se eu não ver mais escolhas, pois qualquer inferno parece melhor do que aquele o qual me vi sendo refém por mais de 9 anos!
— Isso é um erro Ana. — Daniell rosna novamente — Teríamos mais chances se não trouxesse ela conosco. — no mesmo segundo engulo em seco, ele me olha com um olhar de ódio pelo retrovisor.
— Eu te disse que ela viria, não sairíamos de lá sem ela.
— f**a-se! Ela tem uma placa imensa em suas costas, um alvo, na verdade! — ele retruca.
— Isso não é discutível, já disse que... — antes que ela terminasse ele acerta o seu rosto em uma forte cotovelada, arregalo os meus olhos com aquela cena, em seguida freia o carro bruscamente e vira o seu corpo para me olhar.
— Acontece que não recebo ordens de mulheres, e eu não vou morrer por sua culpa brasileira! — engulo em seco, ele retira o cinto de segurança enquanto força o corpo para frente, se aproximando mais de mim.
— Não encoste em mim, temos um acordo! — ele não para, logo sua mão segura forte em meu pescoço. — COF... COF... me solta... — tento lutar, mas ele é muito mais forte, logo o ar começa a se esvair de meu corpo.
— Vou deixá-la nessa estrada, ou deveria poupar você e matá-la bem aqui? — diz enquanto aperta ainda mais forte meu pescoço, me estrangulando naquele banco de trás.
Olho por cima de seu ombro vendo Ana balançando a cabeça, recordando sua consciência. Mas, ao mesmo tempo, a minha estava se desligando. Eu tentava empurrar sua face, até mesmo tentei enfiar meus dedos nos seus olhos, mas minha mão já começara a amolecer, não tinha mais forças, e a escuridão queria me engolir com toda força.
— UH... — rosno, enquanto meus olhos se fecham.
— Acredite, estou te poupando de algo muito pior... — ouço sua voz, até que...
PO
A sua mão solta meu pescoço, puxo o ar com força enquanto a consciência volta gradualmente. Um peso cai sobre meu corpo, quando minha visão desembaça noto que Daniell estava caído em meu colo, o sangue saíra de sua cabeça por um buraco bem na sua nuca, me sujando lentamente.
— COF... COF... Ana... — sussurro enquanto me conserto no banco, me afastando do corpo dele.
— Esse filho da p**a, há muito tempo eu queria fazer isso! — diz enquanto limpa o sangue que escorre em seu nariz.
— Ele ia me matar... — sussurro e ela concorda com a cabeça.
— Ele pensava que isso livraria sua morte, um completo i****a. — ela se estica no seu banco e abre a porta do motorista, logo em seguida empurra o corpo de Daniell com seus pés, fazendo cair para fora do carro — Venha, precisamos sair daqui... perdemos muito tempo!
Ela assume o volante e logo acelera o veículo, pulo para o banco da frente rapidamente e fico ao seu lado. Minha mente processava o que acabara de acontecer, principalmente que aquele infeliz estava realmente disposto a me matar bem aqui, cheguei perto de minha liberdade, e aquela era a primeira tentativa de morte que chegara até mim, mas, algo me afirmava que não seria a última!
— Obrigada. — sussurro ainda com os olhos baixos — Obrigada, por salvar minha vida!
— Eu devo mais que isso a você, vamos conseguir! — olho para ela, que me olha rapidamente.
Pega a minha mão e pisa ainda mais fundo no acelerador, o motor ronca ainda mais, entretanto naquele momento entrelaço os nossos dedos. Mesmo que as nossas chances, circunstâncias não sejam as melhores, a esperança de que nossa liberdade está mais perto do que longe me dá qualquer força que preciso. E mesmo que nossas vidas estejam em uma linha fina, era bem melhor do que enfrentar aquele inferno sem nem ao menos tentar!
— Corpo identificado na estrada, estamos perto delas! — a voz do capanga novamente anuncia pelo rádio, Ana me olha com as sobrancelhas franzidas, pisando ainda mais no acelerador sem soltar minha mão.