Catarina
— Vamos conseguir... — ouço Ana sussurrar, como se afirmasse aquilo para si mesma.
Ao olhar pelo retrovisor fora do carro vejo veículos grandes se aproximando, mesmo que ainda estivessem em uma boa distância, não mudava a realidade que os capangas de Vicent haviam nos encontrados, e graças a Daniell na tentativa de me matar, eles estavam bem próximos agora.
Teríamos um bom tempo se aquele desgraçado não tivesse parado o carro, se não tivesse tentado me matar!
Agora o pior de nossos pesadelos se aproximara, estavam perto, e eu tinha em mente que se pusessem suas mãos em nós, morreríamos de uma forma totalmente dolorosa. Isso sem contar no que Vicent fará a cada uma de nós duas, ele nos torturará e fará que imploremos por uma morte, tenho certeza disso. Conheci a maldade dele de perto, e após todos esses anos... carrego boa parte disso em minha pele!
— O avião... — sussurro, assim que o carro que estamos entra bruscamente pelo portão do aeroporto privado, havia apenas uma pequena aeronave nele, e eu sabia que ela carregava a única esperança que temos de sair desse inferno!
— Me ouça com atenção Catarina. — olho para Ana no mesmo segundo, enquanto ela continua dirigindo e aproximando o nosso carro cada vez mais do avião — Quando descermos, quero que corra o mais rápido que puder!
Arregalo meus olhos, começo a negar com a cabeça enquanto digo:
— Não Ana, vamos correr juntas... — meu queixo treme, juntamente a um aperto em meu peito.
— Catarina, não sei se sabe. Mas talvez nós duas nunca conseguiremos sair daqui, não juntas! — o carro cada vez mais se aproxima da aeronave.
— Ana, não fale isso... você me prometeu!!! — grito.
— Eu disse que tentaríamos, mas... eu já sabia desde o início! — ela freia o carro bruscamente, a poucos metros do avião — Eu prometi que te tiraria daqui, e preciso que me prometa que correrá o mais rápido possível!
— Eu... eu... — gaguejo, ela então põe a palma da mão em meu rosto, enquanto sua outra mão vasculha o banco apanhando aquela bolsa grande.
— Não temos tempo, apenas me prometa isso!
— Eu... tudo bem! — ela assenti, no mesmo instante empurra a bolsa para minhas mãos.
— Agora!!!!!!!
No mesmo segundo abro a minha porta, ela faz o mesmo. Sem esperar começo a correr como uma louca, quase tropeçando em meus pés e ficando quase sem fôlego. Ouço os passos de Ana vindo bem atrás de mim, eu sabia que ela me acompanhava. Mas, foi quando um som ecoou, que o desespero começara a se espalhar por meu corpo ainda mais!
PO PO PO PO
PO PO PO
Eu não precisei virar para saber, aquilo foram disparos. Disparos que estavam sendo direcionados em nossa direção, os capangas de Vicent enfim nos encontraram!
Eles estavam aqui para nos matar, e provavelmente iriam conseguir isso. Mas, mesmo com tanto se passando em minha mente, eu só consegui correr ainda mais rápido. Não poderia parar, se assim fizesse, tudo isso seria em vão. E ele estaria vencendo novamente!
— Mais rápido!!! — Ana grita, os sons dos disparos pareciam ainda mais perto, mas agradeci a Deus assim que alcancei a escada que dava acesso à aeronave.
Subo aqueles degraus em pânico, e quando entro totalmente consigo perceber que o piloto já nos esperava com os motores ligados. Pois, logo começa a mover o pequeno avião, mesmo com a entrada ainda aberta.
— Ana! — grito, quando percebo que ela não entrou como eu fiz.
Viro-me e o desespero me alcança, jogo a bolsa grande no chão enquanto vejo-a segurando nos degraus da escada. Corro rapidamente para alcançá-la, enquanto a porta se fecha lentamente uso toda minha força para me segurar e ponho meu braço ao lado de fora.
— Ana, segure em minha mão... — grito enquanto cada vez mais vamos tomando velocidade, ela ergue a cabeça e tenta esticar o braço, mas, quase escorrega e caí enquanto faz isso.
Só então noto a mancha em sua roupa, só então fica visível que ela levara um tiro. Seu sangue se espalhava na altura da sua coluna, e sua expressão de dor era totalmente notável.
— Ana, por favor...
PO PO PO PO PO
Os disparos continuam, quando olho vejo cinco carros e capangas se apoiando nas janelas. Segurando grandes armas em suas mãos, atirando em nossas direções enquanto mais carros surgem.
— Ana, as portas vão se fechar... pegue minha mão por favor! — imploro.
Supus que ela realmente desistira, mas, quando ergue novamente sua mão e encontra a minha forço meu corpo mais para frente, alcançando-a e puxando sem esperar mais.
Tento respirar fundo enquanto a trago para dentro, ela tenta me ajudar também, usando o que sobrara de sua força para isso.
Assim que seu corpo está totalmente na aeronave abraço-a fortemente, as portas estavam quase totalmente fechadas e o pequeno avião logo iria subir.
— Ana, conseguimos... vou cuidar de você... não desista! — imploro com os meus olhos molhados, ela respira fundo e me olha nos meus olhos.
— Obrigada, você me salv...
PO
O sangue respinga em meu rosto, fecho meus olhos com força. Quando os abro sinto o solavanco da aeronave que enfim subia, meu corpo é lançado longe devido à subida, o pânico estava espalhado por meu corpo, e assim que a turbulência para procuro por Ana.
Ela estava lançada em um canto de costas para mim, consigo vê um novo ferimento em suas costas, esse estava mais para cima, bem próximo ao seu coração.
— Ana... Não!!!! — grito, correndo em meio a todo o balanço que m*l conseguia me manter de pé.
Assim que alcanço seu corpo viro-a, vendo que ainda está com os olhos abertos. Ela parecia tentar respirar, mas, por sua expressão parecia que o ar não alcançava seus pulmões.
Faço pressão nos seus ferimentos, cortando um pedaço de meu vestido e colocando-o no local.
— Eu... eu não sei o que faço... — digo totalmente desesperada — Ana, por favor...
Minhas mãos tremem enquanto se cobrem com o seu sangue, ela não respondia, apenas continuava com um olhar desesperado tentando respirar.
Levanto-me e começo a vasculhar o local, tentando encontrar um kit de primeiros socorros, ou qualquer coisa que pudesse ajudá-la. Mas, não consigo encontrar nada.
Coloco minhas mãos sob meu rosto em pânico, meu rosto e corpo estavam manchados, e naquele momento parecera que nada que eu pudesse fazer iria realmente livrá-la da morte.
Viro-me e olho pela janela do avião, vendo aquela pista lá embaixo cheia de carros e capangas. Todos olhavam para cima, e enquanto cada vez mais íamos nos afastando noto suas reações...
Foi quando eu pude vê, apesar da distância e da velocidade que subíamos eu podia jurar que vi.
Vicent, ele saía de um daqueles veículos. Enquanto os outros corriam de um lado ao outro, ele apenas ficava lá, totalmente parado com uma arma em uma de suas mãos, olhando para cima como se soubesse que meu olhar estava naquela direção.
Poderia ser loucura, mas eu sabia que ele estava em fúria, e ainda pior, olhava para o jatinho como se enviasse uma promessa...
Uma promessa de que nos encontraria, até mesmo no inferno!