Catarina
Enquanto fico na poltrona, seguro forte Ana em meus braços, ela estava muito ferida, mas parecia conseguir respirar ainda. Seus olhos estavam fechados e eu ficava a todo momento verificando, para saber e confirmar que ainda estava viva.
Meu coração estava totalmente quebrado, as lágrimas eram incontroláveis e tudo isso porque eu não fazia ideia de como ajudá-la. Apenas encontrei água, e umas bebidas, qual usei para limpar e tentar estacar o sangramento.
Aquilo funcionara, mas eu tinha noção de que não era o suficiente. Eu sabia que ela estava morrendo, e aqui nesse local não tinha como evitar que isso acontecesse.
— Deus, eu imploro... não a leve... eu não consigo sem ela! — sussurro, enquanto pressiono meus lábios em sua testa.
Ela já não reagia, estava com dois ferimentos a bala, havia perdido muito sangue, isso sem contar que estava totalmente quebrada. Por fora, e mais ainda por dentro!
Desde que decolamos o piloto não se pronunciou, apenas garantiu a nossa retirada. Ana me contou que ele nos levaria direto para um porto, pois entraríamos no Brasil pelo mar.
Mas eu não sabia mais de nada, não sabia se alguém nos encontrará lá, ou se alguém poderá nos ajudar quando chegarmos.
A única certeza que eu tinha, era que ela estava morrendo lentamente, morrendo em meus braços!
— Catarina... — ela sussurra, rapidamente afasto meu rosto e a olho.
— Ana! — tiro os seus fios dourados de seu rosto, mas noto que ela ainda segue com os olhos fechados — Ana, fale comigo!
— Decolamos? — era a única palavra que ela respondeu, apesar de estar em desespero com tudo que acabara de acontecer aquelas palavras me lembraram da nossa realidade agora.
— Sim, nós conseguimos! — ela abre os olhos um pouco, logo depois mostra um fraco sorriso para mim.
— Então seu Deus nos ajudou de verdade, foi por pouco... COF... COF... — ela tosse, e sangue sai de seus lábios.
— Ana, está muito ferida... aqui não tem nada para poder ajudá-la! — meus lábios tremem, as lágrimas caem sobre seu rosto.
— Catarina, desde o início eu sabia que apenas uma de nós chegaria até o Brasil...
— Não Ana, nada disso. Não venha com essas palavras, como se estivesse se despedindo! — ela abre ainda mais os olhos, olhando-me seriamente.
— Não confie em ninguém, ele tem contatos por todo mundo... precisa encontrar sua casa... — ela fala com muita dificuldade — Precisa rever sua mãe, mas até lá... não confie em ninguém!
Fecho meus olhos enquanto escuto suas palavras, notando que em momento algum ela soma-se na nossa viagem, que em momento algum conta com uma saída para si própria.
— Tem dinheiro naquela bolsa, documentos falsos... será o suficiente para retornar até o estado que nasceu, e decidir oque fará depois! — abro novamente meus olhos, mirando nela e percebendo seu sangramento novamente voltar.
— Ana, faremos isso juntas... talvez possamos...
— Catarina, eu morrerei aqui! — ela me interrompe — Mas, não posso partir. Não antes de implorar que me perdoe por tudo que eu a condenei!
Aquelas palavras foram como um forte soco no estômago, eu não queria que ela morresse. Não queria que sua vida fosse apenas provinda de dor, em meu peito ela merecia uma segunda chance, uma para se redimir de verdade!
— É claro que te perdoo! Eu só queria que você também conseguisse sair de lá, vivesse!
— Eu consegui, graças a você! — ela volta a tossir, n**o com a cabeça enquanto mais lágrimas voltam a cair.
— Eu? Deus nos ajudou, ele irá fazer isso novamente agora!
— Eu, eu não acredito nessas coisas. Mas, você me trouxe esperança novamente, serei eternamente grata... mais ainda por me perdoar depois de tudo!
Novamente abraço-a fortemente, fungando enquanto a seguro contra meu corpo. Derramando cada lágrima sobre seu rosto, enquanto sentia sua mão acariciar o meu cabelo, mesmo que fracamente.
— Obrigada por me trazer esperança... — fecho meus olhos com mais força, só então ela começara a amolecer em meus braços, logo após ter murmurado aquilo para mim.
Começo a negar com a cabeça, principalmente porque eu sabia que novamente eu perdera alguém para essa estrada da dor. Ela morreu em meus braços, sofreu assim como eu ou até mesmo pior.
Não queria que fosse dessa forma, queria de coração que ela também alcançasse a liberdade. Por mais que em minha mente eu sabia que ela estava em paz, queria que pudesse ter levado consigo uma memória boa dessa vida!
Talvez eu tenha falho com ela, viverei com essa dor de saber que morreu por uma fuga que eu mesma coloquei em sua mente. Mas, eu sentia que ela havia conquistado a liberdade da sua alma, que o arrependimento de tudo que um dia havia corrompido sua bondade havia acabado.
Ela não era ninguém má de coração, apenas fez o que foi preciso para sobreviver. Não existia mais espaços para mágoa, para nada que um dia já havia afastado essa amizade que criei com ela. Só tinha espaços para a sua figura forte, que desafiara um sistema de condenação infernal, que suportou o impossível. Tudo isso não foi atoa, eu sei que não foi!
— Minha amiga, eu te perdoo! — digo passando a mão no seu rosto, fechando os seus belos olhos verdes.
Assim que faço coloco-a deitada ao lado, as lágrimas rolam meu rosto com toda força. Passo a mão em meu rosto, ainda tendo que acreditar em tudo que aconteceu.
— Aqui é o seu piloto, chegaremos em algumas horas. Boa sorte em sua chegada! — a voz anuncia pelo rádio da aeronave, tiro uma das mantas de baixo da poltrona e cubro o copo de Ana.
Logo em seguida me aproximo da bolsa grande ao chão, minhas mãos ainda tremiam, minha boca estava seca e as lágrimas não paravam. Mas, eu não poderia deixar que tudo isso que acontecera fosse em vão, eu preciso sobreviver, preciso reencontrar minha mãe, encontrar um modo de fugir de Vicent e o principal... não morrer no processo!