Capítulo 13

1307 Palavras
Catarina Na fronteira Olho cautelosamente enquanto desço do pequeno avião, haviam inúmeras pessoas passando, indo e vindo. Nenhuma delas realmente olhava em minha direção, pareciam ocupadas com suas próprias vidas. Alguns até mesmo pareciam estar fugindo de algo, assim como eu, já que correm rapidamente em direção de alguns barcos no porto. Eu não sei ao certo onde era esse local, só sei que aqui preciso encontrar uma forma de pagar um barco desse e me aproximar cada vez mais de minha antiga casa. Isso não era tão simples, eu não me lembrava de qual bairro, rua ou casa morava. Infelizmente o tempo distante não foi totalmente justo, eu não me lembrava ao certo como chegaria em minha casa. Só lembro ser em Maringá, mas, isso não me ajuda totalmente. Preciso ser rápida e cuidadosa, ainda mais por saber que Vicent provavelmente me caçará por todo lugar, se eu cair em suas mãos novamente, será definitivamente o meu fim. O corpo de Ana havia ficado no avião, eu não poderia nem mesmo dar um enterro para ela, e isso me quebrava ainda mais. Ela morrera e nem ao menos poderia deixar que o seu corpo recebesse um enterro digno! — Vou cuidar sobre o corpo dela, mas não posso ficar aqui... eles provavelmente vão me localizar! — a voz do piloto alerta bem atrás de mim, viro-me e o olho. — Obrigada, deixei uma quantia a mais por fazer isso, por favor! — ele concorda com a cabeça, vira-se e volta a entrar na aeronave. Respiro fundo e ergo aquela grande bolsa do chão, começo a me afastar caminhando e logo me vendo em meio aqueles milhares de pessoas. Elas falavam diversas línguas, mas a principal era o português. Uma que há muito tempo eu não praticara, sabia que não falava igual a antes, pois adquiri um grande sotaque. Mas, eu nunca esqueci como se falava, posso apenas precisar voltar a praticá-la. Infelizmente não terei tempo para isso, o modo de praticar será usando nessa situação. Na bolsa além de dinheiro, roupa qual já troquei, e documentos, havia também um dicionário em português. Se eu tiver muita dificuldade, ele será minha melhor saída! — Ei, aqui... precisa de um carro? Ou um barco? — um dos comerciantes grita de sua barraca, ele tinha várias notas em suas mãos, e não me parecera confiável. — Isso vai ser ainda mais difícil do que eu imaginava... — sussurro a mim mesma. Uma dura verdade, porque eu estava completamente só, não me restara escolhas ou saber em quem confiar, ou não. Como poderei saber quem realmente me levará até São Paulo, sem me fazer algo ou até mesmo me entregar? Eu já conheci a maldade de perto, não acredito que posso sair por aí julgando qualquer um como um ser de bom coração. As pessoas são ainda mais cruéis quando notam sua fraqueza, quando notam que podem usá-las contra você! E eu, quase tudo e todos atualmente me assusta. Faz-me lembrar o inferno que carrego em meu corpo, que está entranhado em mim. Não sei como conseguirei prosseguir daqui, mas, cada instante que demoro de partir, cada segundo a mais me lembra de que ele possa me encontrar! — Preciso pensar... Só de São Paulo posso pegar um ônibus até lá... preciso encontrar alguém para me levar! — digo baixinho a mim mesma, passando com cuidado pelas pessoas tentando abaixar meu rosto, para não arriscar ser reconhecida. — Oi, está a procurar um transporte? — uma jovem garota com curtos cabelos negros, morena e com olhos negros para em minha frente — Sou Júlia, trabalho com alguns barcos locais! Ela estende a sua mão esperando que eu a pegue, levanto um pouco o meu rosto, colocando uma mecha de cabelo atrás de minha orelha. — Catarina! — pego a mão da jovem. — Então Catarina, pelo sotaque sei que não é brasileira né? — solto sua mão, ela ergue uma sobrancelha — Olha temos barcos que vão direto para alguns estados, sairão em alguns minutos! Ela aponta com sua mão, sigo com os olhos vendo um local não muito distante onde estavam pessoas em alguns barcos, eram simples, mas eu sabia que precisava urgentemente sair desse lugar. Aqui estava completamente exposta, Vicent e seus capangas provavelmente iram procurar por portos, aeroportos, etc. Mesmo que ainda tenha um grande sentimento de hesitação em mim, ainda mais por se tratar de novamente confiar no escuro, confiar a minha vida... Decido que essa é a minha melhor escolha! Ainda mais que os outros comerciantes parecem mais lobos famintos, os qual eu não tentaria arriscar! — Para onde exatamente os seus barcos estão indo? — a jovem sorri com a minha pergunta, fico sem entender sua reação. — Ei, você que tem que dizer para aonde vai. Assim eu digo o valor do transporte! — Tem algum indo para... — hesito por um segundo — São Paulo? — Sim, esse já vai partir agora mesmo! — ela não hesita, olho em seus olhos atentamente. Eu sei que não posso confiar em ninguém, mas não me resta outra saída a não ser entrar naquele barco. Ainda mais por pressentir que Vicent poderia estar próximo, e o ódio que ele sentira eu podia imaginar completamente. Se ele conseguisse me alcançar aí sim, que eu estaria totalmente condenada. Prefiro arriscar a minha liberdade, do que imaginar voltar a estar presa naquele inferno! — Quanto custa? — digo olhando para a jovem, notando seus olhos brilharem. ──────❁────── O vento frio sopra meus cabelos, banha meu rosto e esfria cada vez mais meu coração. O medo era a única companhia que eu via, a insegurança insistia em abalar minhas esperanças, e o que pesava também era a morte de Ana. Ela também me ajudava a ter forças, ela me trouxe a vontade de continuar firme, ela e meu Deus! Eu tinha esperanças de que conseguiria viver longe daquele inferno, mas após sua morte, é tudo tão confuso. É difícil saber o que esperar daqui para frente, tudo que eu sei é que essa estrada que estou trilhando é silenciosa e mortal. Mas, eu não estou pronta para morrer, ainda não. Eu quero reencontrar minha mãe, quero por um minuto que seja esquecer de todas as dores que carrego, em seus braços! O barco começa a se afastar do porto lentamente, logo estamos no meio do mar cruzando nosso caminho. Algumas pessoas me olham, mas tento ficar em um canto mais afastado e sozinha. Tenho muito medo de alguém ser um dos informantes de Vicent, todo esse tempo naquele lugar foi o suficiente para saber que ele tem olhos, ouvidos em todo lugar. E informantes desde crianças, a idosos. Mesmo já estando fora da Albânia, eu não duvido que isso prevaleça em outros países! — Deus, obrigada por me ajudar. Entrego todo meu caminho em suas mãos, por mais que o medo ainda predomine minha mente, eu sei que guarda o melhor caminho para mim! Sussurro enquanto seguro o terço de meu pai, meus olhos lacrimejam enquanto tudo passa diante de mim. As lembranças, as dores, os machucados em minha alma. Mas, respiro fundo e tento conter que aquelas lágrimas caíam, não posso chamar atenção! Olho para as famílias em outro lado da embarcação, as crianças brincando alegremente, alguns homens bebiam algo e as mulheres conversavam baixo. Tinha poucas pessoas que assim como eu, viajam só. Um homem em frente a mim, falava ao celular enquanto olhava para a parte exposta de minhas pernas. Puxo o tecido ainda mais para baixo e ele leva os olhos aos meus, me olhando seriamente antes de desviar os olhos. Aquilo me deu um arrepio enorme na espinha, mas não posso me desesperar, preciso manter o foco e assim que chegar em São Paulo dar um jeito de entrar em um voo!
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