Catarina
São Paulo
Ando em meio as pessoas na rua pública, já havia me esquecido de como era estar em um local tão cheio. Os carros passando, os prédios altos, as avenidas engarrafadas. Tudo me fez tanta falta, que só realmente notara agora.
As pessoas falam em seus telefones, as mães seguram nas mãos dos seus filhos enquanto atravessam a rua, os carros buzinam mostrando quanto os seus motoristas estão irritados. Algo completamente simples, admito. Mas, que realmente já não me lembrava de como era, haviam virado apenas aquelas lembranças bem distantes, assim como a minha cidade natal e casa!
Seguro firme aquela bolsa em minhas mãos, passando pela saída do porto e vendo alguns táxis amarelos. Tinha também uma parada de ônibus bem perto, então decido ser para lá que irei.
Aproximo-me lentamente, algumas pessoas me olham, mas logo desviam seus olhos. Tinha poucas pessoas, entretanto quando vejo uma mãe e duas meninas decido me aproximar.
— Oi, licença... — ela me olha enquanto acalma a mais nova, que chorava — Desculpe, mas aqui nesse ponto passa algum ônibus que me leve até o Aeroporto?
Tento falar devagar, para garantir que ela me entenda claramente. Ela de início franzi as sobrancelhas, mas logo n**a com a cabeça.
— É, você pode pegar um que te leve até o bairro próximo. E de lá pode ir até o centro, para pegar o ônibus até o aeroporto! — franzi as sobrancelhas, confusa com toda aquela informação, não acreditava que seria tão difícil entender as palavras dela, mas só pude ter certeza de uma coisa... eu me perderia completamente nessa cidade grande!
— Muito obrigada! — digo voltando a olhar para um lado e para outro, já me sentindo perdida em como chegarei aonde quero.
Caminho até um pouco mais distante, me aproximando do ponto de táxis. Alguns homens mais velhos logo me olham enquanto acenam com suas mãos, aquilo não me passa segurança alguma, mas sei que provavelmente chegarei mais rápido se for direto para o aeroporto. E pelo que aquela mulher me disse, esse porto o qual cheguei está muito distante.
— Moça bonita, precisa de um carro? — ouço uma voz atrás de mim, viro-me e dou de cara com um homem jovem, aparentemente 25 anos, alto e moreno. Ele me olha de cima a baixo, com seu sorriso de canto enquanto tira seus óculos escuros.
— Preciso de um táxi, mas ali tem vários, sei me encontrar! — viro de costas, mas o homem rapidamente vem para minha frente.
— Aqueles homens não são confiáveis, e você... uma turista perdida, seria um alvo fácil! — estreito os meus olhos — Aonde deseja ir?
— Já falei, não preciso de sua ajuda. — conserto minha bolsa em meu ombro — Se me der licença, tenho meus compromissos!
Quando ia passar por ele vejo seu olhar pensativo, ele poderia ter até razão sobre aqueles homens, mas ele me pareceu muito menos confiável que qualquer outra pessoa que eu tenha cruzado aqui.
Respiro fundo e sigo o meu caminho, atravessando a rua e indo em direção aos táxis. Ao olhar por cima do meu ombro, vejo aquele homem falando ao telefone, aquilo me causou um arrepio. E se por um acaso ele estivesse falando com Vicent?
Se ele for um de seus capangas espalhados nesse mundo?
— Calma Catarina, respira... — sussurro a mim mesma, volto a olhar para um dos motoristas e me aproximo dele, que me olha atento.
— Bom dia, posso ajudá-la?
— Sim, na verdade quero uma viagem. — ele rapidamente abre a porta do veículo para mim — Até o aeroporto por favor! — ele concorda com a cabeça.
Mas, antes que eu pudesse entrar no carro um menino puxa minha bolsa com força, uma criança que eu não daria mais de 14 anos.
— Ei... — grito — Ele levou a minha bolsa, pode me ajudar Sr.?
O homem parece não entender muito o meu desespero, se afastando e fingindo que aquilo não acabara de acontecer em sua frente. Fico totalmente desesperada, principalmente por tudo que tenho está naquela bolsa.
Vendo que eu não teria ajuda, e sem muito tempo para pensar, começo a correr atrás daquele menino. Passando em meio a inúmeras pessoas que simplesmente ignoram o fato de eu estar perseguindo alguém que acaba de me roubar, corro o mais rápido que consigo, vendo o menino correr ainda mais agilmente.
— Ei, pare por favor!!!!! — grito e ele me ignora, alguns homens tentam até segurá-lo, mas ele os dribla facilmente.
Por um momento tenho que parar sem fôlego, me apoiando em uma parede enquanto tento encontrar aquele menino. Já estava mais afastada das ruas principais, em um local meio deserto e longe do congestionamento do trânsito.
Olho de um lado ao outro, decidida a não perder o que me foi tomado, não posso de forma alguma. Se não, não sei o que farei nessa cidade.
Então o vejo novamente, ele estava entrando em outra rua mais a frente. Tomo o fôlego e volto a correr em sua direção, quase tropeço algumas vezes, mas não poderia perdê-lo de vistas, não posso de forma alguma!
— Menino, por favor... — engulo minhas palavras ao virar a rua, vendo-o segurando minha bolsa e me olhando fixamente, enquanto passa ela para aquele homem que agora pouco tentava me indagar.
Mas, o que me fez travar foi notar mais dois carros pretos e grandes atrás deles, aquilo me alertou completamente do que poderia acontecer agora. Em uma tentativa de recuar sinto alguém em minhas costas, e antes que eu pudesse me virar sinto uma dor fina vindo do meu pescoço. Só consegui vê para a mão tatuada que segurava uma agulha e injetava seu líquido em mim, não consegui falar nada, meu corpo gradualmente amoleceu e meus joelhos se dobraram. Senti alguém me segurar antes que me chocasse ao chão, depois... Tudo escureceu!
Meu corpo dói, minha cabeça parecia que explodiria, e em meu pescoço sentia algo arder. Abro meus olhos lentamente, mas isso aumenta a dor, os fecho e levo a mão ao meu pescoço, sentindo um tipo de curativo no local. Minha boca parecia totalmente seca, e os músculos latejam ainda mais enquanto vou me movendo.
— Deus... o que aconteceu... — sussurro, forçando-me a abrir meus olhos, vendo que estou em um local totalmente escuro, e deitada sob uma cama grande.
Levanto o lençol vendo que ainda estou com as mesmas roupas, só então começo a lembrar de tudo que aconteceu naquela rua, pelo que vejo da janela ao lado já está de noite, o que significa que me induziram a um desmaio o dia inteiro.
O medo vêm, junto a inúmeras perguntas... Fora Vicent que me encontrou? Estou de volta a Albânia?
Só de pensar tais coisas meu corpo estremece, o coração aperta e só posso rezar para que tais coisas não tenham acontecido!
— Fiquei curioso quando recebi aquela ligação... — meu corpo treme ainda mais ao ouvir uma voz bem próxima, olho para de onde ela vinha.
Uma luz de um abajur é ligada, revelando um homem desconhecido, moreno sentando em uma poltrona ao canto. Ele segura minha bolsa enquanto me olha fixamente, seus olhos são verdes claros e seu corpo é repleto de tatuagens, o que ficava nítido já que estava sem camisa.
— Uma gringa aqui, e pela quantia de dinheiro que tem, parece que não é uma qualquer! — engulo em seco enquanto seguro aquele lençol fortemente em meu corpo.
— Não se preocupe, ainda não vi seu corpo!
— Ainda? Quem pensa que é para me sequestrar dessa forma? — trinco meus dentes, ele sorri de canto enquanto se levanta e se aproxima lentamente.
— Você deveria imaginar que é perigoso andar sozinha nessa cidade, praticamente eu estou te ajudando! — aquilo me faz tremer novamente, seria possível que tais desgraças caísse sobre mim duas vezes?
— Eu quero ir embora, tenho pessoas que estão me procurando e... — engulo as palavras quando ele desliza o dedo pelo meu cabelo, meu corpo inteiro tremia de medo, sem saber quem esse homem é, ou o que deseja comigo.
— Você está segura aqui branquinha, pela quantidade de documentos que tem parece que está fugindo de algo ou alguém... — minha respiração fica difícil, e uma lágrima rola em meu rosto.
— Não me toque por favor. — olho em seus olhos, ele estreita os dele.
— Não se preocupe, não farei nada... ainda não! — aquelas palavras foram como um forte soco no estômago, meu coração se quebra cada vez mais. Entretanto, agradeço mentalmente quando ele solta meu cabelo, se afastando e indo até à porta.
— Não pode me manter aqui, por favor eu desejo partir... — imploro enquanto as lágrimas embaçam ainda mais meus olhos.
— Seu sotaque é lindo, assim como você. — ele me olha por cima do ombro — Bem-vinda ao seu novo lar, branquinha!
Fecho meus olhos e mais lágrimas caem deles, como era possível que isso novamente esteja me acontecendo, eu cheguei perto de minha liberdade e agora estava vendo ela ser tomada por um desconhecido, não sei o que quer, quem é, ou por que está fazendo isso.
— Quem é você? — gaguejo em meio ao choro.
— Dante Soares, descobrirá mais sobre mim em breve! — o sorriso que ele me revela é bem-parecido ao de Vicent, aquilo me dá um embrulho no estômago, qual tive que respirar bem fundo para não vomitar em sua frente.
Ele se vira e abre a porta, pude vê rapidamente que ao lado de fora tinha vários outros, todos seguravam armas e o aguardava. Ele sai e fecha a porta, em meio ao choro me levanto rapidamente e corro até ela, girando a maçaneta, confirmando o que eu já sabia... está trancada!
Eu novamente estava trancada e a mercê de um desconhecido, a única diferença é que estou no Brasil. Mas, isso não me conforta em nada. Não sei o que ele fará com minhas coisas, o que ele fará comigo, o que será de mim!
Dobro meus joelhos enquanto seguro ainda na maçaneta, fechando meus olhos e em meio ao choro fazendo a única coisa que eu podia... orando e tentando achar uma saída desse novo pesadelo!
Tentando entender como pude novamente ser um alvo tão fácil, de como eu deveria ter usado mais das habilidades que observei por anos de Ana, a única coisa que posso fazer agora é implorar para que tudo ainda não tenha acabado para mim, não aguento pensar que novamente estou condenada a um inferno!