Maringá - PR
2012
Catarina Melo
Era mais uma tarde de terça-feira, caminhava calmamente em direção a minha casa após uma tarde de trabalho. Mesmo tendo apenas 12 anos, já trabalhava depois do horário de minha escola, era bom ter a oportunidade de ajudar minha mãe com o trabalho de meio turno na mercearia do Sr. João.
Não era nada muito cansativo, e como precisávamos de dinheiro, não hesitei em aceitar!
Ainda mais que desde que meu papai sofrera aquele acidente, o qual lhe custou sua vida, a situação financeira de nossa vida humilde piorou bastante. Daquele dia em diante eu sabia que agora só restávamos nós, eu, minha mãe, e nosso Deus. E que eu precisava ajuda-la de qualquer maneira, caso contrário nossa vida que já era bem humilde se resumiria em passar ainda mais necessidades!
— Mamãe? — digo enquanto abro o cadeado e o portão da nossa casa, adentrando o local e deixando minha bolsa no sofá da casa simples — Mamãe, está em casa? — não ouço a sua voz em resposta, e como está tudo desligado creio que não esteja aqui.
Sigo em direção ao banheiro, tirando meus sapatos e minhas roupas. Tiro também aquele terço do meu pescoço, qual ficou para mim desde a partida de meu pai. Entro no boxe e ligo a água, deixando que envolva todo meu pequeno corpo. Meus cabelos na altura dos ombros são molhados, assim como o restante de meu corpo.
— Filha?? — quando terminava ouço a voz de minha mãe, juntamente a um barulho na porta. Ela chegara em casa então!
— Já vou sair mamãe!!
— Venha, quero mostra-la uma coisa! — rapidamente termino o banho e pego a minha toalha em seguida.
Abro a porta do banheiro e sigo para a sala, vendo-a sentada no sofá com um sorriso no seu rosto. Minha mãe é muito linda, desde a morte de meu pai era difícil vê esse lindo traço em seus lábios, mas quando aparece a deixa ainda mais deslumbrante. Com seus cabelos ondulados castanhos, seus olhos esverdeados.
— O que houve? Onde esteve? — pergunto me aproximando, ainda enrolada com a toalha e enxugando um pouco da água que escorria em meu rosto.
— Filha, estava em uma palestra com a Suelen. Uma palestra na praça aqui perto, e... trago ótimas notícias! — minha curiosidade se aguça, vou até seu lado e me sento, vendo que tem um panfleto em mão, junto a uma lista de documentos.
— Conta mãe, estou curiosa! — ela sorrir de canto.
— Apareceu uma oportunidade de estudo para crianças carentes filha, haviam pessoas nessa palestra que estavam disposta a dar uma oportunidade de verdade para gente como nós! — a olho atentamente enquanto me entrega o papel e continua — Eles tem uma academia de intercâmbio para formação de jovens, levando conhecimento e oportunidade para aqueles que decidem arriscar em algo, e em uma profissão de verdade, desde cedo!
Arregalo meus olhos ao vê na frente do panfleto aquela bandeira, a bandeira dos Estados Unidos. Cada linha que começo a ler, vejo que essa academia de formação promete ensino no exterior, uma oportunidade de estudo avançados com muitas das despesas pagas.
No mesmo instante volto meus olhos para minha mãe, que sorri largamente e com os olhos meios molhados.
— Mas... isso é verdade mesmo mamãe?
— Sim filha, eu perguntei tudo a aquela mulher... Anastácia seu nome! Ela me informou, e a muitas outras mães, que assim como eu se interessaram. — um sorriso começa a surgir nos meus lábios, mas logo ele vai desaparecendo — Filha? Você não gostou da ideia?
— Não é isso mãe, juro que amei essa oportunidade que a senhora me mostrou...
— Mas? — ela diz me olhando no fundo dos olhos.
— Mas não quero deixá-la, como vai ficar aqui sem mim... eu acho que não irei! — no mesmo instante ela sorrir e me leva para seus braços, me abraçando e sussurrando:
— Minha menina, eu nunca hesitaria em vê-la dando um passo que fosse para o seu futuro. Eu quero vê-la formada, estudada e com uma vida estável. Aqui nesse interior que vivemos, isso parece tão distante. Mas não agora, agora você pode enfim dá um passo de verdade para ter um futuro melhor, eu farei faxinas, trabalharei a noite se for preciso. — ela faz uma breve pausa, enquanto respira fundo — Mas por você minha pequena, eu faria o possível e o impossível para vê-la com uma vida de verdade. Eu me cuidarei, Deus irá me proteger enquanto você brilhará!!
Me afasto lentamente de seus braços, olhando-a nos olhos e vendo as lágrimas de esperança que saiam deles. Limpo-as com a ponta de meus dedos, e sou um sorriso de canto.
— Então... eu vou? — ela coloca as mãos no meu rosto, dando um beijo em cada lado de minhas bochechas e em seguida diz:
— Sim minha princesa, vai!!
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Quando chego no pequeno aeroporto da minha cidade me sentia uma menina boba, olhandotudo encantada e sorridente. Ainda me custava a acreditar que minha vidamudaria totalmente dessa forma, principalmente do momento em que eu embarcassenaquele avião!
Já tinha se passado alguns dias desde que minha mamãe trouxera aquela notícia,durante esses dias fomos nos preparando e fazendo todos os exames quesolicitaram. E hoje, enfim é o dia de partir!
— Mãe, eu já estou com muitas saudades... — digo segurando firme em sua mão,enquanto caminhamos pelo local de embarque.
— Ah minha princesa... — ela para de caminhar e se ajoelha em minha frente,soltando minha bolsa de viagem e segurando minha mão — Eu estarei sempre comvocê, sei que quando voltar aqui para o Brasil em alguns anos trará históriasde suas experiências, e também tudo que aprendeu no exterior. Você sempre foi esforçada, e meu maior orgulho do mundo!
A abraço fortemente, deixando que uma lágrima role em meu rosto. Ela acaricia omeu cabelo e sussurra em meu ouvido:
— Eu te amo minha pequena, estarei aqui para quando você voltar!
— Eu também te amo, muito mesmo mamãe! — sinto ela fungar, o que indica quetambém chora.
Mas então uma voz robótica enche o lugar, anunciando que o meu vôo irá decolarem breve. Anunciando e chamando todos os passageiros, aperto-a ainda mais fortepor um longo instante, quando nos afastamos ela limpa meus olhos, em seguida osseus e se levanta.
— Está na hora, minha pequena! — concordo com a cabeça enquanto voltamos a andarde mãos dadas.
Seguimos em direção a um grande corredor, a mulher confere a passagem que minhamãe entrega. Logo depois libera a minha passagem, novamente me viro para minhamamãe, que me assim que deixa minha bolsa de viagem em uma esteira se aproxima.
— Nunca se esqueça, me mande notícias. Esse é o número da casa de Suelen, ligueassim que chegar lá, e... — ela toca a ponta do meu nariz, me fazendo fechar os olhos — Eu te amo!!
— Eu também te amo mãe, avisarei assim que chegar! — pego o papel em sua mão, com o número anotado e guardo-o no bolso da minha calça.
— Deus te acompanhe!! — ouço ela sussurrar baixinho, enquanto vou seguindo pelo corredor com a ajuda de uma das comissárias.
Dou uma última olhada por cima de meu ombro, vendo-a acenando para mim com um sorriso no rosto, embora seus olhos ainda estivessem molhados. Aceno de volta e em seguida sigo meu caminho, entrando com cuidado no grande avião e me sentando no acento mostrado pela aeromoça.
Coloco minha mão contra a pequena janela de vidro, pensando em como tudo mudará. Em como tive essa oportunidade e farei o possível para aproveitá-la, voltando com estudo e uma meta de dar uma vida melhor para ela. Pego o terço de meu pai em meu bolso, dando um beijo demorado no objeto, ao afastá-lo sussurro baixinho:
— Finalmente poderei fazer algo de verdade por ela, vou ajuda-la pai. Sei que está cuidando de mim, sempre cuidara aonde quer que eu vá. Eu te amo!
Aperto meu cinto e em seguida me acomodo no meu acento, com o sentimento puro em meu coração, de que minha vida está mudando. E para melhor!
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Depois de longas horas de vôo, o avião enfim pousa no grande e iluminado aeroporto. As luzes da noite e a grande lua iluminam meu rosto enquanto desembarco. Cada passo que dava sentia ainda mais o frio em minha barriga, sem saber muito o queesperar das pessoas que ficaram de me buscar. Mas sei que tentarei ao máximoagradá-los, não posso arriscar perder uma grande oportunidade como essa.
Respiro fundo e assim que passo pelas grandes portas da saída, vejo inúmeras pessoascom placas em suas mãos, recebendo os passageiros que chegavam. Olho de um lado ao outro, enquanto conserto a mochila em minhas costas, tendo cuidado para não soltar também minha mala na outra mão.
— Precisa de ajuda? — tomo um susto ao me chocar com uma mulher, ela é bem alta,com longos cabelos loiros e olhos verdes, aparentando ter um pouco menos de 30 anos.
Noto como está bem vestida, e como tem dois homens atrás de si, como sefossem seus seguranças.
— Desculpe, não quis esbarrar em você! — digo baixo, ela ergue uma sobrancelha edá um sorriso de canto.
— Não esbarrou, creio que estava mesmo te esperando. — mantenho meu olhar nodela, enquanto vejo-a tirar um pequeno caderno de seu bolso — Catarina Reis,correto?
Concordo com a cabeça, notando como ela fala muito bem minha língua. Não há traços de sotaques, ou nada disso.
— Sim, você é a Anastácia? — ela guarda o papel em seu bolso sem me responder,logo lança um olhar para os dois homens, que rapidamente apanham minha mala e minha bolsa.
— Venha comigo, estávamos te esperando. — diz se virando e acenando com a cabeça.
Começo então a acompanha-la, os sons do seu salto ecoam pelo aeroporto. Passo amão desajeitadamente em meu cabelo, tentando de alguma forma me mostrarapresentável para ela, já que como minha mãe me disse, ela está liderando essaoportunidade para tantas de nós.
Permanecemos em silêncio enquanto passamos por inúmeras pessoas, ela caminha e mexeem seu celular tranquilamente, por um momento até pareceu que havia esquecidoque eu a acompanhava. Mas, quando percebo que ao invés de irmos em direção a saída,estamos indo para outra pista de decolagem do aeroporto fico confusa.
Olho para a mulher e os homens que nos acompanham, mas ninguém parece estar agindo errado ou nada do tipo. Mas minha mãe foi bem clara, ela me disse que assim que chegássemos ao aeroporto nos dirigiríamos a grande e linda escola de intercâmbio.
Quando percebo estarmos nos aproximando de um tipo de avião, só que menor. Meu sexto sentido literalmente me alerta, o piloto abre a porta e ela começa a subir os degraus, paro na subida e a olho com as sobrancelhas franzidas.
— Vamos Catarina, não temos todo tempo do mundo! — diz me olhando por cima do seu ombro, no mesmo instante sinto a mão de um dos seguranças nas minhas costas.
Respiro fundo e afasto essa hesitação de minha mente, tentando me tranquilizar e seguir meu caminho. Seguro no apoio da escada e subo os degraus, indo com ela até o interior da aeronave.
Olho tudo espantada pelo luxo, principalmente contando que muitos dos itens nunca havia visto de perto, apenas em revistas e na televisão simples da minha casa.
— Sente-se aqui. — ela aponta, vou até a poltrona e coloco o cinto.
— Vamos voar novamente? — ela guarda o aparelho em sua bolsa de mão e só então me olha, se sentando em um lugar bem a minha frente.
— Sim. — sua resposta é fria, tanto que sinto um arrepio correr em minha coluna.
Pisco algumas vezes enquanto respiro fundo, os homens que a acompanhava lhe dão minhas bolsas e ela abre as duas. Pegando minhas coisas e olhando peça por peça, aquilo me incomoda de certa forma, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa um segurança tira a pequena carteira de minha mão. Aquilo me assustou, principalmente pela forma que o fez.
— Ei, esses são meus documentos. Me devolva! — o homem não me olha, apenas entrega o item a Anastácia.
Ela olha tudo e literalmente senti que algo aqui estava errado, senti que o que estavam fazendo, e a forma que me tratavam, não era de uma boas-vindas para uma aluna nova!
No mesmo instante meu pequeno coração se aperta, sinto minhas mãos tremerem sem saber o que realmente esperar. E para meu horror, a aeronave começa a decolar lentamente.
Ou seja, eu não via nenhuma outra escolha, a não ser... perguntar!
— Pode... — gaguejo — Poderia por favor, devolver meus documentos? — Anastácia ergue seu olhar, provavelmente notando o medo em minha voz.
— Não precisará mais deles. — aquilo me causou ainda mais medo — Me diga Catarina, você já sangrou?
Aquela pergunta me pegou como uma grande bofetada em meu rosto, não sabia realmente aonde ela queria chegar. Mas literalmente eu percebera que, não íamos para uma escola de intercâmbio juvenil!
— Eu... eu... — gaguejo ainda mais, tentando trazer as palavras a minha boca, tentando também esconder o constrangimento que era receber essa pergunta na frente desses homens.
— Então, sim ou não? — ela não hesita.
— Não. — digo baixando meus olhos, que a essa altura estavam completamente cheios de lágrimas.
— Hum, 12 anos... — ela sussurra, mas não ouso voltar a olhá-la — Há muito tempo não temos uma menina tão nova, e inocente assim!
Minhas mãos tremem, meu coração se quebra e tento conter a respiração irregular que meu corpo me dava. Desvio meus olhos para a janela da aeronave, mas ouço um barulho de algo ser aberto, parecia uma garrafa de bebida.
— Talvez isso seja bom, ao menos terá mais tempo para treinar. — ela continua — Ele irá gostar de você, ele sempre gosta das morenas!
Fecho meus olhos no mesmo instante, deixando por fim que as lágrimas caiam dele. Deixando que literalmente aquela dor em meu peito transbordasse, e só então me alertando de que cai em algo muito maior do que pensava. Meus olhos não desgrudam da janela, e das nuvens ao nosso redor.
Ergo minha mão e enxugo o meu rosto com as costas dela, tentando dizer para mim mesma que tudo ficará bem. Que isso tudo é um engano, uma pegadinha, ou até mesmo um pesadelo.
Que eu ainda esteja naquele avião, adormecida e a caminho dos Estados Unidos!
Mas lá no fundo da minha mente, do meu peito, e da minha dura realidade que via à frente, eu sabia que era tudo verdade.Que agora infelizmente meu destino havia sido corrompido, e que apenas Deus poderia me ajudar!
Passo a mão no bolso da minha calça, agradecendo mentalmente pelo terço de meu pai estar no meu nele, e eles não terem levado.
Olho novamente para aquela mulher, que tem uma taça de vinho em sua mão enquanto me olha no fundo dos olhos, parecendo que aquelas lágrimas que saem de mim não à afetasse, ou pior... como se soubesse que de onde elas viam, teriam muito mais!