Véspera do Casamento

1194 Palavras
Henzo encarou Sol por mais um instante. Ela continuava firme, tentando parecer inabalável. Mas ele conhecia os sinais: o maxilar tenso, a respiração descompassada, o brilho raivoso nos olhos. E foi aí que ele decidiu provocá-la do pior jeito possível. Deu um passo à frente, rápido, firme — e sem aviso, encostou os lábios nos dela num selinho seco, debochado, calculado apenas para irritar. Sol arregalou os olhos e recuou com um estalo. — Seu nojent0! — ela gritou, cuspindo no chão como se quisesse tirar dele o gosto amargo da afronta. — Você é um desgraçado! Eu te odeio, Henzo! Ela correu até a porta e a escancarou, os olhos de ódio. — Sai da minha casa, agora! Vai pro inferno! Henzo riu. Riu alto. Sem pressa. Sem culpa. — Nos vemos no altar, princesa. Leva um lenço. Vai precisar. E saiu, fechando a porta com um estrondo, ainda com o riso preso na garganta. Ao entrar no carro, deixou-se cair no banco como se tivesse acabado de vencer um jogo que não foi ele mesmo quem inventou. Olhou o volante por um segundo, depois o retrovisor, e disse só para si: — É... até que pode ser divertido. Bonita ela é. Temperamental... mas bonita. Ligou o motor e partiu, ainda sorrindo. Dentro da casa, Sol permaneceu parada por alguns segundos. O silêncio a esmagava. Seu corpo tremia de raiva, o peito arfava como se o ar já não coubesse dentro dela. E, pela terceira vez naquela semana, Sol chorou. Chorou de frustração. De impotência. De raiva por estar presa a um destino que não escolheu. Por ter que usar um vestido que não queria, andar até um altar que odiava... E encarar o homem que, por mais que ela negasse, sabia exatamente como a tirar do eixo. Ela não queria Henzo. Mas ele já estava em tudo. Até nas lágrimas que agora manchavam o sofá onde ela jurou nunca amar ninguém. Os dias seguintes foram um turbilhão de preparativos — todos comandados por Henzo. Convite selado com o brasão da máfia. Lista de convidados com todos os conselheiros confirmados. Igreja escolhida a dedo — imponente, fria, cheia de colunas e olhares inquisidores. Salão reservado para uma recepção luxuosa e, claro, vigilante. Henzo cuidou de tudo com a frieza de quem organizava um funeral. Porque, para ele, aquilo também era o fim de uma liberdade que nunca pediu, mas que sabia que Sol perderia com mais dor. Sol, por sua vez, trancou-se no orgulho e se recusou a ceder uma vírgula. Violeta tentou de todas as formas convencê-la. — Sol, pelo menos experimenta o vestido... ajuda em alguma coisa. Ele tá tentando. — Tentando o quê? Escolher a fita do meu enforcamento? — retrucou Sol, amarga. — Não vou mover um dedo pra facilitar a vida daquele idiotä. Madalene tentou mais de uma vez puxá-la de volta para a razão: — Minha filha... quanto mais você resistir, mais força dá ao Conselho. Henzo está tentando evitar o pior. — Ele tá tentando evitar que a reputação dele fique manchada. Só isso. — Você acha que ele faria tudo isso por si mesmo? Ele tá expondo o nome dele por você. — Eu não pedi. E não vou agradecer. Sol se recusava a provar o vestido que Henzo encomendara de um dos ateliês mais exclusivos de Paris. Uma peça sob medida, cara, de renda francesa pura. O estilista chegou a ir até a casa, mas ela o mandou embora antes de sequer olhar a caixa. — Querem que eu vá vestida com o que ele escolheu? Pois vou com preto. E de tênis. Violeta suspirava, esgotada. Henzo, acompanhava tudo com uma calma perigosa. Ele não mandava flores. Não fazia jantares. Não tentava agradar. Mas em silêncio, organizava tudo para que o casamento saísse impecável. Porque no mundo deles, perfeição era sobrevivência. Na véspera, Sol ainda não tinha escolhido buquê, nem penteado, nem sapato. O vestido estava guardado no closet, ainda com a etiqueta. E ela, deitada na cama, olhava para o teto como se esperasse acordar de um pesadelo. Ela ainda acreditava que poderia fugir. Mas o tempo estava acabando. E o destino... já estava todo costurado. Na véspera do casamento, o céu estava carregado, como se até o tempo soubesse que algo se partia por dentro dela. Henzo bateu na porta da casa mais uma vez. Três toques firmes, impacientes. Madalene, que já o esperava, abriu com um leve sorriso cansado e um brilho preocupado nos olhos. — Entre, meu filho. — disse ela, dando passagem. — Ela está no quarto. Como sempre, fingindo que o mundo lá fora não existe. Henzo assentiu com um leve movimento de cabeça e entrou. — Ela já está acostumada a fingir. Mas hoje, não vai adiantar. Ele caminhou até o fim do corredor estreito. Antes de abrir a porta, Madalene o encarou e piscou discretamente, como quem dizia: Vai com jeito, mas vai. Henzo apenas empurrou a porta sem cerimônia. Sol estava deitada na cama, completamente coberta, o corpo tenso por baixo do lençol. Quando ouviu a voz dele se aproximando, fechou os olhos e prendeu a respiração, como se isso fosse suficiente para se tornar invisível. Henzo encostou-se no batente da porta e cruzou os braços. — Sol... você pode enganar o mundo inteiro com essa pose de indiferente. Pode fingir que dorme, que não se importa, que não sente nada. Mas eu... eu consigo farejar você. Deu alguns passos à frente, a voz grave e baixa. — Consigo detectar uma respiração disfarçada. Um medo escondido. Até mesmo uma lágrima contida. Isso tudo tem cheiro. E, Sol... você não está dormindo. O silêncio de Sol foi sua única resposta. O lençol tremeu levemente quando ela segurou o ar. Henzo parou ao lado da cama, impassível. — Vim te avisar uma última vez: não tente nenhuma gracinha. Não pense em fugir. Não ache que Maurice ou eu podemos te proteger se você cruzar a linha. O Conselho está na sua porta, mesmo que você não os veja. E se você der um passo em falso, ninguém vai conseguir te salvar. Nem eu. Ele não esperava resposta. E não ficou esperando. Antes de sair, parou na porta e murmurou, como se falasse consigo mesmo: — Se fosse pra casar com uma boneca perfeita, eu teria escolhido uma daquelas melindrosas moldadas pra serem esposas. Eu odeio esse tipo de mulher. Virou o rosto, como se olhasse além. — Casar com você, Sol... vai ser um sacrifício menor, mas ainda assim, um sacrifício, então você não é a única aqui que será sacrificada amanhã. E saiu, sem olhar pra trás. Sol só abriu os olhos quando a porta se fechou. O peito subia e descia de raiva contida. As mãos tremiam. Não era medo. Era frustração. De estar presa. De não poder reagir. De ser empurrada para um altar ao lado de um homem que a conhecia bem demais… e ainda assim, parecia não conhecê-la em nada. As lágrimas vieram de novo, silenciosas. Mas ela jurou para si mesma, ali, deitada no escuro: Esse casamento pode até acontecer… mas Henzo Moreau vai se arrepender de cada voto que disser.
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