Manhã seguinte — nos bastidores das últimas horas antes do casamento.
O salão reservado por Henzo estava impecável. Os últimos ajustes eram feitos com precisão: flores frescas cuidadosamente arranjadas, a iluminação ajustada para destacar cada canto da sala, a música clássica tocava suavemente ao fundo. Todos os apóstolos, vestidos impecavelmente, estavam presentes e ansiosos, aguardando a entrada da noiva — menos Sol.
Violeta chegava com passos apressados e o rosto marcado pela preocupação. Com um gesto discreto, ela fez um sinal para Henzo, comunicando que Sol não viria. A jovem ainda estava largada, exausta e abatida, deitada em uma cama na casa onde morava, mas pelo menos não estava chorando.
— “Peço licença,” disse Henzo, com a voz carregada de tensão, e saiu rapidamente. Ele sabia que precisava encontrar Sol antes que tudo desmoronasse de vez.
Henzo Suava frio, as mãos inquietas. O noivo que nunca desejara aquele casamento sabia que cada minuto que passava sem Sol ali, o caos aumentava.
De repente, Henzo foi surpreendido. Ao longe, viu um carro luxuoso, preto e reluzente, parado na entrada do salão. De dentro dele, Sol desceu lentamente. A jovem parecia saída de uma passarela — linda e imponente. Mas havia algo ali que deixava claro que ela não vinha para seguir regras.
Ela vestia um vestido preto, longo e elegante, que contrapunha o branco tradicional esperado. E nos pés? Tênis brancos, simples e provocantes, como se estivesse zombando de toda a pompa e circunstância que a esperava.
Sol sorriu, aquele sorriso que Henzo já conhecia — desafiador, livre, selvagem.
— Estou linda? Futuro marido — perguntou ela, com uma voz doce e ao mesmo tempo carregada de ironia.
Henzo sentiu o calor subir pelo corpo, passou a mão pelos cabelos, afrouxou a gravata e respirou fundo. O suor escorria pela testa, os dedos trêmulos.
— Você vai me matar, sua desgraçada. — ele murmurou, sem conseguir esconder o nervosismo.
Sem perder tempo, Henzo avançou e, com uma firmeza contida, enfiou Sol no carro novamente.
— Vamos para sua casa agora. Você vai buscar o vestido de noiva. Todos estão te esperando. Está maluca?
Sol apenas sorriu, satisfeita. Ela não precisava responder. A mensagem estava clara: ela cumpria sua promessa de ser uma força descontrolada naquela história.
Henzo, sentado ao lado dela no carro, não conseguiu esconder seu sorriso torto, meio assustado.
— Seu inferno… acabou de começar.. É isso né, você está cumprindo o que me prometeu. — murmurou ele para si mesmo.
Henzo afrouxou ainda mais a gravata, inclinou-se levemente para Sol e deixou escapar um suspiro pesado.
— Você está brincando com fogo… só pode. Enlouqueceu de vez. — disse ele, com aquela voz grave e carregada de ameaça.
Sol, completamente imune à tensão que ele tentava impor, apenas deu de ombros, como se tudo aquilo fosse uma piada particular.
O carro parou em frente à casa modesta que ela dividia com Madalena. Henzo desceu primeiro, impaciente, abrindo a porta para Sol com um gesto brusco.
— Anda. — ordenou.
Mas Sol não se moveu.
— Não vou abrir a porta. — disse, cruzando os braços, com um sorrisinho debochado nos lábios.
Henzo sentiu o sangue ferver. Cada segundo perdido era um risco. Não apenas para ele ou para o casamento, mas para a própria segurança de Sol. O conselho não esperava atrasos. Ele sabia muito bem o que aconteceria se todos descobrissem que ela estava tentando ganhar tempo.
— Sol… — ele começou, mas já não havia paciência em sua voz. Em um movimento rápido e decidido, subiu os degraus, agarrou a maçaneta e girou com força.
Fechada.
— Burra. — rosnou ele. — Você não tem ideia do que está fazendo.
Sem hesitar, Henzo recuou um passo e arrombou a porta com um chute certeiro. A madeira bateu contra a parede com um estrondo, ecoando pela pequena casa. Ele entrou sem pedir licença, percorrendo os cômodos com passos pesados.
Sol permaneceu no batente, observando a cena como se fosse um espetáculo.
— Tá achando que é dono da casa agora? — provocou.
Henzo não respondeu. Abriu portas, empurrou cadeiras e vasculhou o quarto dela como um predador em busca de sua presa. Até que viu, pendurado no cabide, o vestido branco cuidadosamente guardado. Ele o pegou com firmeza, quase como se fosse uma arma.
— Vai colocar isso. Agora. — disse, encarando-a com os olhos faiscando.
Sol soltou uma risada curta, cruzou os braços e ergueu o queixo.
— Você pode me obrigar a vestir… mas nunca a ser sua esposa de verdade.
Henzo ficou parado por um segundo, apenas olhando para ela, a mandíbula trincada, o peito subindo e descendo rapidamente.
— Isso a gente vai ver, Sol. Isso a gente vai ver.
E, sem esperar mais um segundo, ele passou por ela, jogando o vestido em seus braços e caminhando em direção a sala. Ele sabia que, naquele momento, o casamento seria só o início da guerra particular entre os dois.
Sol obedeceu… mas do jeito dela. Pegou o vestido caríssimo vindo de Paris, abriu a gaveta da cômoda, retirou uma tesoura e, com calma quase teatral, começou a cortar a barra, as laterais, qualquer parte que pudesse deformar a peça perfeita. O som do tecido sendo rasgado enchia o quarto como uma provocação silenciosa.
Quando terminou, o vestido branco já não era mais um símbolo de pureza ou tradição — parecia uma afronta, uma obra distorcida feita só para irritar Henzo.
Ela caminhou até a sala, os passos firmes, o queixo erguido. Henzo, que a esperava de braços cruzados, ergueu lentamente o olhar para ela. Seus olhos escureceram.
— Você é corajosa… — disse ele, a voz baixa e perigosa. — Ninguém nunca, jamais, testou a minha paciência assim.
Sol abriu um sorriso insolente, os lábios pintados num tom ousado.
— Então hoje é um dia histórico, Henzo. Ou eu vou assim, com o vestido branco todo rasgado… ou caso de preto.
O silêncio entre eles foi quebrado pelo toque do celular de Henzo. Ele atendeu com um movimento rápido, levando o aparelho ao ouvido.
— Fale. — disse, curto e seco.
Do outro lado, a voz grave de Maurice.
— Os burburinhos começaram. Todo mundo quer saber onde está a noiva.
Henzo encarou Sol durante a ligação. Não respondeu Maurice. Apenas desligou.
Deu um passo à frente, tão próximo que Sol pôde sentir o calor de sua respiração.
— Veste o vestido preto. — ordenou. — Porque, se esse casamento não acontecer hoje, Maurice não vai me perdoar… em Madaleine ter que te visitar em um puteir0. É pra lá que você vai, Sol. Eu vou te mandar pessoalmente.
Sol não desviou o olhar, mas seu sorriso diminuiu um pouco. Ainda assim, a centelha de desafio continuava acesa.
Henzo pegou o casaco dele e atirou sobre os ombros dela.
— Cinco minutos. E, por Deus, não me faça perder mais tempo.