Declaração de Batalha

1004 Palavras
Sol vestiu o preto como se fosse armadura. O tecido valorizava cada curva, os tênis brancos permaneciam — quase uma assinatura pessoal. Ela não se preocupou em disfarçar que estava se divertindo com aquilo tudo. Cada segundo era uma forma de cutucar Henzo. No carro, o silêncio era tão denso que parecia engolir o som do motor. Henzo Moreau dirigia com o maxilar travado, as mãos firmes no volante, o olhar fixo na estrada. Sol, ao lado, cruzou as pernas e se recostou no banco, como se estivesse indo para um jantar casual e não para o próprio casamento com um dos homens mais perigosos da França. — Vai ficar com essa cara até quando? Precisa sorrir, afinal está se casando e comigo, o que é um privilégio — ela provocou, inclinando-se levemente para ele. Henzo não desviou os olhos da rua. — Até o dia que você parar de achar que isso aqui é uma brincadeira. — Ah, mas é… — ela sorriu de canto. — É uma brincadeira, um inferno, uma forca. Henzo soltou um riso curto, seco. — Você não tem ideia no que está se metendo, Sol. — E você não tem ideia do quanto eu odeio ser mandada. O carro parou em frente ao salão reservado por Henzo. Do lado de fora, a elite da máfia francesa e nomes poderosos da alta sociedade aguardavam, como lobos farejando o primeiro sinal de fraqueza. Os flashes das câmeras privadas dos convidados estouravam, tentando registrar cada detalhe. Henzo desceu primeiro, deu a volta e abriu a porta para Sol. Ela saiu com a mesma postura ereta, o queixo alto, e caminhou como se fosse dona do lugar. O vestido preto e os tênis brancos eram um soco visual — e todos perceberam. Os cochichos começaram instantaneamente. — É ela? — De preto? — O Subchefe vai surtar. Henzo aproximou-se por trás, a mão firme na cintura dela, e murmurou baixo, só para ela ouvir: — Continue com essa pose, pequena… mas lembra: você está na minha coleira agora. Sol inclinou a cabeça, sem olhar para ele. — Coleira? Ah, Henzo… você ainda vai descobrir quem é que está segurando a ponta dessa corrente. E juntos, eles entraram no salão. O clima era elétrico. Maurice, sentado na primeira fila, observava em silêncio absoluto, os olhos analisando cada detalhe. Madaleine e Violeta, ao lado dele, respiravam fundo, como se suas vidas dependessem de manter a calma. Henzo manteve Sol firme ao seu lado, pronto para começar uma cerimônia que nenhum dos dois queria… mas que, a partir daquele momento, mudaria tudo. O mestre de cerimônias ajeitou a batina, pigarreou e iniciou a cerimônia. O salão estava silencioso, mas não era silêncio de emoção — era silêncio de tensão. Até as luzes pareciam mais quentes, pesadas. Henzo e Sol estavam frente a frente. Ele, impecável no terno sob medida, olhos fixos nela. Ela, no vestido preto e tênis brancos, com um sorriso carregado de desafio, como se estivesse ali para se divertir às custas de todos. — Henzo Moreau, aceita… — começou o padre. — Aceito. — Henzo respondeu sem hesitar, olhando diretamente para ela. A resposta foi firme, quase como um aviso sem esperar o padre fazer a pergunta por completamente. O padre virou-se para Sol. — E você, Sol Varon, aceita se casar com Henzo Moreau? Ela respirou fundo, e a resposta saiu clara, sem pressa: — Sou obrigada a aceitar. Um murmúrio percorreu o salão. O clima ficou pesado de repente. Algumas mulheres na plateia trocaram olhares, e outras sorriram de canto, como se admirassem a ousadia dela. Henzo, ainda olhando para Sol, sorriu — aquele sorriso calculado, perigoso. Voltou-se para os convidados e, com um tom leve, disse: — Ela está brincando, pessoal. Então, aproximou-se dela, a voz baixa, quase um rosnado: — Aceite logo, sua desgraçada. Sol não piscou. Ergueu o queixo, sustentando o olhar dele. — Eu aceito. Eu aceito… mas só porque sou obrigada. As mulheres presentes sorriram mais abertamente dessa vez, algumas com malícia, outras com admiração. Maurice observava em silêncio, a mandíbula levemente contraída, enquanto Madaleine respirava fundo, tentando conter qualquer reação. O padre, um pouco perdido, prosseguiu com a cerimônia. Chegou o momento das alianças. O mestre de cerimônias fez um gesto, e um dos conselheiros se aproximou, trazendo a pequena almofada de veludo com as duas argolas douradas. — Senhor Henzo Moreau, repita comigo… — disse o padre. Henzo, sem hesitar, repetiu cada palavra com firmeza. Sua voz não tremia, mas o olhar nunca deixava o rosto de Sol, como se cada sílaba fosse mais para ela do que para os convidados. — … e prometo amar e respeitar… — finalizou. O padre então se voltou para Sol, entregando-lhe a fala. — Senhora Sol Varon, repita comigo… Ela olhou para o padre, depois para Henzo, e inclinou a cabeça, quase sorrindo. — Ah, não. Eu não vou falar isso não. Não vou… não vou e não vou. Um burburinho tomou conta do salão. Algumas mulheres arregalaram os olhos, outras disfarçaram sorrisos cúmplices. Maurice manteve a expressão impenetrável, mas o aperto na mão de Violeta denunciava irritação. Henzo respirou fundo, fechando os olhos por um segundo como se contasse até dez. Então, sem dizer mais nada, pegou a aliança e, com um gesto rápido e firme, enfiou no dedo dela. — Padre… adianta isso aí. — disse, seco, sem disfarçar a impaciência. O mestre de cerimônias engoliu seco e apressou as últimas palavras. Sol, com a aliança no dedo, girou-a levemente, observando o ouro brilhar sob as luzes do salão, como se fosse apenas mais um acessório. Henzo segurou a mão dela, apertando-a com força suficiente para deixar claro que a guerra deles estava só começando. — Agora você é minha pertencente. — murmurou. Sol sorriu, inclinando-se para ele. — você vai descobrir rápido que não pertenço a ninguém. O beijo protocolar foi rápido, quase uma colisão. E quando se afastaram, todos sabiam — aquele casamento não era uma união. Era uma declaração de batalha.
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