Sol vestiu o preto como se fosse armadura. O tecido valorizava cada curva, os tênis brancos permaneciam — quase uma assinatura pessoal. Ela não se preocupou em disfarçar que estava se divertindo com aquilo tudo. Cada segundo era uma forma de cutucar Henzo.
No carro, o silêncio era tão denso que parecia engolir o som do motor. Henzo Moreau dirigia com o maxilar travado, as mãos firmes no volante, o olhar fixo na estrada. Sol, ao lado, cruzou as pernas e se recostou no banco, como se estivesse indo para um jantar casual e não para o próprio casamento com um dos homens mais perigosos da França.
— Vai ficar com essa cara até quando? Precisa sorrir, afinal está se casando e comigo, o que é um privilégio — ela provocou, inclinando-se levemente para ele.
Henzo não desviou os olhos da rua. — Até o dia que você parar de achar que isso aqui é uma brincadeira.
— Ah, mas é… — ela sorriu de canto. — É uma brincadeira, um inferno, uma forca.
Henzo soltou um riso curto, seco.
— Você não tem ideia no que está se metendo, Sol.
— E você não tem ideia do quanto eu odeio ser mandada.
O carro parou em frente ao salão reservado por Henzo. Do lado de fora, a elite da máfia francesa e nomes poderosos da alta sociedade aguardavam, como lobos farejando o primeiro sinal de fraqueza. Os flashes das câmeras privadas dos convidados estouravam, tentando registrar cada detalhe.
Henzo desceu primeiro, deu a volta e abriu a porta para Sol. Ela saiu com a mesma postura ereta, o queixo alto, e caminhou como se fosse dona do lugar. O vestido preto e os tênis brancos eram um soco visual — e todos perceberam.
Os cochichos começaram instantaneamente.
— É ela?
— De preto?
— O Subchefe vai surtar.
Henzo aproximou-se por trás, a mão firme na cintura dela, e murmurou baixo, só para ela ouvir: — Continue com essa pose, pequena… mas lembra: você está na minha coleira agora.
Sol inclinou a cabeça, sem olhar para ele. — Coleira? Ah, Henzo… você ainda vai descobrir quem é que está segurando a ponta dessa corrente.
E juntos, eles entraram no salão.
O clima era elétrico. Maurice, sentado na primeira fila, observava em silêncio absoluto, os olhos analisando cada detalhe. Madaleine e Violeta, ao lado dele, respiravam fundo, como se suas vidas dependessem de manter a calma.
Henzo manteve Sol firme ao seu lado, pronto para começar uma cerimônia que nenhum dos dois queria… mas que, a partir daquele momento, mudaria tudo.
O mestre de cerimônias ajeitou a batina, pigarreou e iniciou a cerimônia.
O salão estava silencioso, mas não era silêncio de emoção — era silêncio de tensão. Até as luzes pareciam mais quentes, pesadas.
Henzo e Sol estavam frente a frente. Ele, impecável no terno sob medida, olhos fixos nela. Ela, no vestido preto e tênis brancos, com um sorriso carregado de desafio, como se estivesse ali para se divertir às custas de todos.
— Henzo Moreau, aceita… — começou o padre.
— Aceito. — Henzo respondeu sem hesitar, olhando diretamente para ela. A resposta foi firme, quase como um aviso sem esperar o padre fazer a pergunta por completamente.
O padre virou-se para Sol.
— E você, Sol Varon, aceita se casar com Henzo Moreau?
Ela respirou fundo, e a resposta saiu clara, sem pressa:
— Sou obrigada a aceitar.
Um murmúrio percorreu o salão. O clima ficou pesado de repente. Algumas mulheres na plateia trocaram olhares, e outras sorriram de canto, como se admirassem a ousadia dela.
Henzo, ainda olhando para Sol, sorriu — aquele sorriso calculado, perigoso. Voltou-se para os convidados e, com um tom leve, disse:
— Ela está brincando, pessoal.
Então, aproximou-se dela, a voz baixa, quase um rosnado:
— Aceite logo, sua desgraçada.
Sol não piscou. Ergueu o queixo, sustentando o olhar dele.
— Eu aceito. Eu aceito… mas só porque sou obrigada.
As mulheres presentes sorriram mais abertamente dessa vez, algumas com malícia, outras com admiração. Maurice observava em silêncio, a mandíbula levemente contraída, enquanto Madaleine respirava fundo, tentando conter qualquer reação.
O padre, um pouco perdido, prosseguiu com a cerimônia.
Chegou o momento das alianças. O mestre de cerimônias fez um gesto, e um dos conselheiros se aproximou, trazendo a pequena almofada de veludo com as duas argolas douradas.
— Senhor Henzo Moreau, repita comigo… — disse o padre.
Henzo, sem hesitar, repetiu cada palavra com firmeza. Sua voz não tremia, mas o olhar nunca deixava o rosto de Sol, como se cada sílaba fosse mais para ela do que para os convidados.
— … e prometo amar e respeitar… — finalizou.
O padre então se voltou para Sol, entregando-lhe a fala.
— Senhora Sol Varon, repita comigo…
Ela olhou para o padre, depois para Henzo, e inclinou a cabeça, quase sorrindo.
— Ah, não. Eu não vou falar isso não. Não vou… não vou e não vou.
Um burburinho tomou conta do salão. Algumas mulheres arregalaram os olhos, outras disfarçaram sorrisos cúmplices. Maurice manteve a expressão impenetrável, mas o aperto na mão de Violeta denunciava irritação.
Henzo respirou fundo, fechando os olhos por um segundo como se contasse até dez. Então, sem dizer mais nada, pegou a aliança e, com um gesto rápido e firme, enfiou no dedo dela.
— Padre… adianta isso aí. — disse, seco, sem disfarçar a impaciência.
O mestre de cerimônias engoliu seco e apressou as últimas palavras. Sol, com a aliança no dedo, girou-a levemente, observando o ouro brilhar sob as luzes do salão, como se fosse apenas mais um acessório.
Henzo segurou a mão dela, apertando-a com força suficiente para deixar claro que a guerra deles estava só começando.
— Agora você é minha pertencente. — murmurou.
Sol sorriu, inclinando-se para ele.
— você vai descobrir rápido que não pertenço a ninguém.
O beijo protocolar foi rápido, quase uma colisão. E quando se afastaram, todos sabiam — aquele casamento não era uma união. Era uma declaração de batalha.