Uma Declaração

1044 Palavras
O salão estava iluminado, as taças tilintando e a música suave preenchendo o ar, mas a atenção de todos se voltou para o centro, onde a mesa do ritual foi montada. O pacto de sangue — tradição antiga e simbólica — seria o selo final daquela união. Henzo observava Sol com aquele olhar penetrante, o mesmo que usava para medir a coragem dos homens no campo de batalha. Ele percebeu o leve tremor das mãos dela, o jeito como os olhos fugiam da pequena lâmina prateada colocada sobre a mesa. — Tá com medinho? — provocou, a voz carregada de deboche e um sorriso quase c***l nos lábios. Antes que ela respondesse, Madaleine interveio, com um tom suave, mas firme: — Henzo… ela não se dá bem com sangue. Desde que presenciou a morte do pai… é algo que a mexe por dentro. O comentário fez alguns convidados trocarem olhares curiosos, mas Henzo não recuou de imediato. Ele se aproximou de Sol, tão perto que ela pôde sentir a respiração dele, e murmurou para que só ela ouvisse: — Isso não é sobre gostar ou não… é sobre provar que você aguenta. Mesmo assim, ele não a obrigou a olhar diretamente para o sangue. Quando a lâmina cortou levemente a pele, ele desviou o ângulo para que ela não visse o fio vermelho escorrendo de ambas as mãos. Sol manteve os olhos fixos no rosto dele, como se aquele fosse o único ponto seguro no meio do desconforto. Henzo apertou a mão dela, unindo as feridas por alguns segundos — o contato firme, quase possessivo, selando o pacto. — Agora, está feito — disse ele, alto o suficiente para que todos ouvissem. O salão explodiu em aplausos, mas Sol ainda sentia o coração acelerado. E Henzo… bem, Henzo parecia aceitar seu destino, antes Sol desafiadora que uma noiva fingindo amor por ele. O salão parecia brilhar por fora, mas dentro dele, a atmosfera era de tensão cortante como lâmina. Nem Henzo nem Sol deram um passo que sugerisse rendição. Eles estavam ali porque tinham que estar, não porque queriam. Enquanto os convidados sorriam e brindavam, eles se lançavam olhares afiados — armas silenciosas numa guerra que ninguém ousava abrir, mas que ambos sabiam que estava declarada. Henzo mantinha a postura rígida, o corpo firme, o olhar incendiado. Cada palavra que trocavam era um duelo: provocação, resistência, sarcasmo. Sol não baixava o queixo, nem deixava transparecer cansaço. Sequer vestira o vestido branco como mandavam as regras; sua armadura preta e os tênis brancos eram um manifesto silencioso de rebeldia. Quando um convidado tentou fazer um brinde efusivo, olhando para o casal, Henzo o interrompeu com um gesto seco. Não havia espaço para celebração verdadeira naquela noite — apenas para a sobrevivência. No meio da festa, Sol se afastou, caminhou até a varanda e respirou fundo. Henzo a seguiu, sem pressa, como um predador rondando sua presa. — Por que insiste em fazer isso tão difícil? — murmurou ele, o rosto iluminado pela luz da lua. Sol sorriu, um sorriso frio e cheio de desafio. — Porque fácil não vale a pena, Henzo. Você deveria saber disso. — Talvez eu goste do desafio. — Ele deu um passo mais perto, os olhos brilhando com uma intensidade quase selvagem. — Mas não pense que isso vai mudar alguma coisa. — Não é um jogo querido esposo, eu só não gosto de você. Nenhum dos dois estava disposto a ceder, e naquele momento ficou evidente: aquele casamento não selava amor ou união — era a linha tênue entre o controle e a rebeldia, o início de um conflito que ainda estava longe de ter um vencedor. Chegou a hora da dança, pouco antes do jantar ser servido. O salão se encheu de murmúrios e olhares, enquanto Henzo estendeu a mão para Sol com uma firmeza quase imperativa. Sem deixar espaço para recusas, ele a puxou para perto, posicionando-a em seus braços. Sol não hesitou. Sabia dançar, e muito bem. O corpo dela se moveu com graça e precisão, quase desafiando o ambiente pesado que os cercava. Henzo, surpreso com a habilidade e o ritmo dela, soltou um elogio seco, mas sincero: — Você dança bem demais para alguém que insiste em complicar tudo. Sol inclinou-se para perto, a respiração quente roçando o ouvido dele, e provocou com um sorriso malicioso: — Aprendi dançar grudada nos italianos. Eles me ensinaram maravilhas que você jamais vai imaginar. O olhar dele se incendiou por um instante, misturando fascínio e irritação. Mas nada que pudesse enfraquecer a armadura de ferro que ambos vestiam naquela noite. A música continuou, a dança seguiu, e no meio daquele movimento quase sensuäl, Henzo e Sol mantinham o duelo silencioso — um jogo onde cada passo era uma declaração e cada toque, uma promessa de guerra. O jantar foi servido e o salão logo se encheu de elogios ao cardápio cuidadosamente escolhido. Taças tilintavam, os pratos chegavam fumegantes e sofisticados, e os convidados se mostravam satisfeitos — ao menos na superfície. Sol, por sua vez, mantinha um sorriso constante no rosto, daqueles que parecem guardar um segredo. Ela m*l encostava na comida, distraída demais para se alimentar direito, mas a diversão nos olhos dela denunciava que estava se divertindo às custas de Henzo e de toda aquela pompa. Henzo estava vermelho, e não só pelo calor da noite ou da iluminação. Ele afrouxou a gravata com um gesto irritado e baixinho perguntou para Sol, como se dividisse uma conspiração: — Tá sentindo muito calor? Porque eu tô quase derretendo aqui, seu inferno ambulante. Sol virou o rosto com aquela expressão de quem sabe exatamente o que está fazendo, e sorriu, doce e venenosa: — Não está tão quente assim, mas pode ser que você esteja exagerando. Ou talvez esteja sentindo a pressão. Henzo arqueou a sobrancelha, desconfiado, e aproximou-se mais, baixando o tom para quase um sussurro de advertência: — O que você fez, sua desgraçada? Já tô até com medo de abrir a boca. Ela soltou uma risada leve, como se fosse a coisa mais natural do mundo provocar aquele homem tão sério, e respondeu: — Eu só participei da escolha do buffet. Afinal, é meu casamento também, não é? Você fazia tanta questão, não lembra?
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