Na manhã seguinte, o sol atravessa as cortinas pesadas do apartamento. Henzo acorda, ainda com o corpo dolorido da reação alérgica, mas os sentidos em alerta. Ao descer, encontra Sol já sentada à mesa, impecável, a postura ereta como se estivesse numa encenação cuidadosamente ensaiada.
A mesa está posta com um capricho desconcertante: frutas frescas, pães, queijos, café quente e até flores no centro.
Ela ergue o olhar para ele e sorri — mas não mostra os dentes, apenas aquele sorriso enigmático que tanto o irrita.
— Bom dia, querido marido. — Sua voz sai suave, carregada de ironia. — Tomei a liberdade de mexer na sua cozinha e preparar um café especial.
Renzo para na entrada, encara a mesa e depois fixa o olhar em Sol, semicerrando os olhos.
— Que palhaçada é essa?
Ela apoia o queixo na mão, ainda sorrindo, como se saboreasse cada reação dele.
— Nenhuma palhaçada, só o papel de uma esposa exemplar. Não é isso que o conselho espera de mim?
Henzo dá alguns passos lentos em direção à mesa, mas não se senta. Seu olhar percorre cada prato como se fossem armas apontadas contra ele.
— Eu tenho certeza de que tem veneno em todas essas coisas.
O sorriso de Sol se alarga, mas ainda sem mostrar os dentes. Seus olhos brilham de malícia.
— Não tem não, querido marido. Sempre se come bem quando é feito por mim. — Ela cruza as mãos sobre a mesa, desafiadora. — Mas é claro, você não teria coragem de provar, talvez não seja homem suficiente para isso.
O silêncio pesa. Henzo aproxima-se um pouco mais, o olhar cravado nela como faca.
— Você acha que vai me enganar com encenações baratas? — Sua voz é baixa, mas firme, carregada de ameaça.
Sol ergue lentamente uma xícara de café, olha nos olhos dele e leva aos lábios. Bebe um gole devagar, como quem saboreia não a bebida, mas a provocação. Depois, coloca a xícara de volta no pires com delicadeza.
— Se tivesse veneno, eu já estaria morta. — Ela fala com uma calma cortante. — Mas, pelo visto, você prefere viver com medo de mim do que assumir que sou mais corajosa do que você.
Henzo cerra o maxilar, o olhar queimando de raiva e de algo que nem ele consegue definir.
A mesa continua posta, intacta. Entre eles, o café da manhã é menos uma refeição e mais um campo de batalha.
Henzo respira fundo, exasperado, mas acaba puxando uma cadeira e se sentando à mesa. O gesto é lento, desconfiado, como se até o ar pudesse estar envenenado. Seus olhos não desgrudam de Sol.
Ele estende a mão, pega uma maçã bem vermelha do centro da mesa e a ergue, quase como se fosse uma arma.
— Come primeiro. — ordena, a voz seca. — Morde a maçã.
Sol ergue as sobrancelhas, surpresa pela ousadia, mas logo solta uma risadinha contida. Inclina-se para frente, pega a maçã dele com delicadeza e dá uma mordida firme, sem desviar o olhar. Mastiga devagar, provocando, e depois engole com exagero teatral.
— Viu? — diz, sorrindo maliciosa. — Não tem nada de veneno, seu i****a. Onde, pelo amor de Deus, eu iria encontrar veneno nessa casa?
Henzo a observa em silêncio, os olhos semicerrados, e solta um resmungo carregado de suspeita:
— Eu tenho certeza de que você trouxe escondido na sua mala.
Sol não aguenta e solta uma gargalhada alta, vibrante, que ecoa pelo apartamento. Ri de verdade, inclinando a cabeça para trás.
— Você é realmente um babaca, Henzo. — diz entre risos. — Mais desconfiado do que um gato em telhado molhado.
Renzo continua sério, mas um músculo no canto da boca quase trai um sorriso contido. Ainda assim, ele não cede.
— Ria enquanto pode, Sol. — diz, firme. — Uma hora, sua sorte acaba.
Ela morde novamente a maçã com gosto, olhando direto para ele, e fala com a boca ainda quase cheia:
— E até lá, querido marido, você vai ter que me engolir. Literalmente.
Henzo pega o garfo devagar, cutuca a panqueca como se fosse dinamite prestes a explodir. Seus olhos continuam semicerrados, fixos em Sol.
— A panqueca está com uma cara boa. — comenta com desdém.
Sol apoia os cotovelos na mesa, o queixo na mão, e o observa como quem se diverte com uma criança teimosa.
— Então coma. — diz num tom suave e venenoso. — Eu fiz especialmente para você.
Henzo estreita os olhos ainda mais.
— Você primeiro. Morda.
Sol suspira, dramatizando como se fosse a coisa mais ridícula do mundo.
— Eu já falei que não tem veneno, Henzo.
Ele se inclina para frente, firme, a voz baixa como uma ordem de guerra:
— Se morder, eu como. Se não comer... eu também não vou comer.
O sorriso dela se abre devagar, cheio de deboche. Sol corta um pedaço pequeno, leva à boca e mastiga lentamente, fazendo questão de demonstrar prazer em cada movimento.
— Como eu previ... — ela diz após engolir, com um sorriso presunçoso. — Está uma delícia. Afinal, fui eu que fiz.
Depois, encosta o garfo de lado, olha direto nos olhos dele e solta, como quem crava uma faca no peito:
— Mas olha, Henzo... não se esqueça que às vezes morr£r envenenado é bem melhor do que conviver com você.
Henzo cerra o maxilar, mas não recua. Finalmente corta um pedaço da mesma panqueca, leva à boca devagar, mastigando ainda desconfiado, como se esperasse cair mort0 a qualquer segundo.
Sol o observa em silêncio, os olhos brilhando de pura provocação. Quando percebe que ele está realmente comendo, sorri com triunfo, mordendo o próprio lábio para segurar a risada.
A tensão entre eles não diminui. Pelo contrário — agora, até o simples ato de partilhar o café da manhã parece mais perigoso do que qualquer duelo de armas.
Sol permanecia sentada à mesa, os olhos fixos em Henzo, cada movimento dela calculado para provocá-lo. Girava a xícara de café entre os dedos, inclinando-a levemente, como se desafiasse: “Se tiver coragem, pegue.” O sorriso nos lábios era contido, mas carregado de malícia.
Henzo se aproximou devagar, com cuidado, mas firme. Estendeu o braço e pegou a xícara que ela segurava, bebendo o restante do café quente sem hesitar. Um gesto simples, mas ousado, que dizia claramente: “Não me subestime.”
Sol arqueou uma sobrancelha, mantendo o olhar fixo nele, sem qualquer surpresa.
— Hm… — murmurou, a voz baixa e debochada — gostou do café, ou só quis provar que não tem coragem de beber do café que está na garrafa?
Henzo colocou a xícara de volta na mesa, encarando-a com seriedade, mas havia um leve traço de humor nos olhos:
— Só queria confirmar que não tem veneno.
Sol riu, curto e provocador, mordendo devagar a panqueca que estava em seu prato.
— Veneno? Por favor… se eu quisesse, não faria café da manhã. Mas te ver desconfiado é divertido demais.
Henzo cerrou o maxilar, ainda sério, mas não pôde evitar o sorriso contido que ameaçava escapar:
— Divertido, hein? Pois saiba que não estou aqui para rir.
Sol apoiou o queixo na mão, inclinando-se um pouco, os olhos brilhando de provocação:
— Ah, mas eu estou, querido marido. E cada segundo desse café da manhã é só o começo, Só espero que você esteja preparado, porque eu estou preparadíssima.
O silêncio voltou, mas carregado de tensão, provocação e humor. Entre eles, cada gesto simples se transformava em um jogo, e ambos sabiam que aquele casamento não teria um minuto de monotonia.