Henzo tirou a chave da porta dela com firmeza, abriu a gaveta do aparador e pegou a reserva sem hesitar.
— Quem manda aqui sou eu. — disse, com a voz grave e fria.
Sol não recuou, pelo contrário, arqueou uma sobrancelha e sorriu de canto.
— Já falei que você não manda nem no seu cabelo. — provocou, como se não se importasse.
Henzo saiu do quarto sem pressa, mas quando chegou no corredor parou. O silêncio pesou por alguns segundos antes que ele virasse a cabeça de lado, ainda sem olhar diretamente para ela.
— Sabe, Sol… eu deveria revogar o que é por direito meu. Hoje, agora mesmo. — a voz dele tinha um veneno calculado, misturado com aquela calma perigosa que só ele sabia ter. — Mas tô precisando de adrenalina, sabe?
Ele sorriu debochado, quase como se fosse um desafio.
Sol cruzou os braços e apoiou no batente da porta.
— Vai a um puteir0, marido? — perguntou com ironia, degustando cada sílaba.
Henzo girou de leve o rosto, sorrindo como quem tinha certeza que a provocação dela não passaria impune.
— Vou sim. Lá tem mulheres que adoram ser dominadas por mim. — respondeu, achando que atingiria o orgulho dela.
Mas Sol gargalhou baixinho, sem um pingo de ciúmes.
— Eu imagino o sacrifício que não seja pra elas… — disse firme, a voz carregada de sarcasmo. — Ter que gritar dizendo que está bom.
O sorriso dele apagou. O ego que vinha carregado no peito desmoronou em silêncio.
Sol deu um passo para dentro do quarto, mas não fechou a porta.
— Afinal… quem manda é o cliente, não é mesmo? — completou, com a calma venenosa de quem sabe exatamente onde ferir.
Henzo respirou fundo quando percebeu que o ego dele tinha acabado de ser atingido. Sol, deitou na cama, o olhou com aquele sorrisinho de canto que sempre o desmontava e o irritava ao mesmo tempo. Ele avançou até a porta, mas antes de sair de vez, girou o corpo devagar, encarando-a com aquele olhar frio e carregado de ironia.
— Sabe, Sol… talvez você esteja certa. Quem manda é o cliente. Mas no teu caso, eu não sou cliente. Eu sou dono. — a voz dele saiu baixa, quase um sussurro cortante.
Ela arqueou uma sobrancelha, se apoiando sobre os cotovelos, sem perder a calma.
— Dono? — riu de leve. — Então se acostume com um bem rebelde, porque se pensa que vai me ter como suas outras… vai quebrar a cara.
Henzo cerrou o maxilar, caminhou de volta até a beira da cama e inclinou o corpo, ficando perto o bastante para que ela sentisse a respiração dele.
— Você ainda não entendeu, Sol. Eu não aceito e não permito que ninguém, quebre as regras. — murmurou, deixando o peso da voz carregar o veneno da provocação.
Ela manteve o olhar firme, sem recuar.
— Então se prepare pra viciar, aceitar e se acostumar, marido… porque obedecer nunca esteve nos meus planos.
Henzo se afastou, mas um sorriso torto e perigoso ainda estampava o rosto. m*l sabia Henzo, que a adrenalina que procurava não estava em puteir0s ou em outras mulheres. Estava ali. Dentro do quarto dela.
Henzo bateu a porta atrás de si sem dar explicações. O som das chaves ainda ecoava no corredor, mas Sol não se deu ao trabalho de ir atrás. Não sabia se ele tinha ido para o puteir0, como era de seu costume, ou se havia recolhido a raiva para dentro do próprio quarto. No fundo, pouco lhe importava.
Respirou fundo, olhou para a mala no canto do quarto e começou a dobrar suas roupas, colocando-as dentro com calma, como se cada peça fosse um ato de resistência silenciosa. Quando terminou, foi para o banho. Deixou a água escorrer pelo corpo e levou consigo parte do peso do dia.
Envolta na toalha, deitou-se na cama. Pela primeira vez, agradeceu em silêncio por Henzo não ter tentado consumar aquele casamento que sabia — mais cedo ou mais tarde — seria exigido dela. Puxou as cobertas, fechou os olhos e adormeceu rápido, como quem se rende ao cansaço e, ao mesmo tempo, a uma pequena vitória.
Henzo não foi para o puteir0 naquela noite. Pelo contrário, subiu para o quarto, jogou o corpo na poltrona e ficou um bom tempo em silêncio, apenas com um copo de uísque na mão. Sabia que no dia seguinte teria de levantar cedo, a viagem para o Brasil não seria curta, e o casamento de Barão e Lupita exigia sua presença impecável. Ele não podia se dar ao luxo de chegar cansado ou desarrumado, ainda mais agora, quando precisava manter a postura diante de todos.
Na manhã seguinte, ainda antes do sol nascer, Henzo já estava de pé. O banho frio ajudou a clarear a mente e apagar o resto da noite anterior. Vestiu-se com a calma de sempre, escolhendo um terno leve para a viagem. Quando desceu para o saguão, encontrou Sol já pronta, com a mala ao lado da poltrona, evitando encará-lo por muito tempo.
— Vejo que dessa vez não precisei arrastar você — disse Henzo, com o tom seco, mas sem a agressividade da noite anterior.
Sol apenas apertou os lábios, preferindo não responder. Sabia que o silêncio, muitas vezes, era sua melhor arma para não provocar uma explosão dele.
No carro que os levaria até o aeroporto, Henzo ajeitou-se no banco traseiro e passou a mão pelo relógio no pulso. — Esse casamento vai ser cheio de gente importante. Quero você atenta, Sol. É hora de mostrar que sabe se portar.
Ela respirou fundo, olhando pela janela. O coração batia um pouco mais rápido, mas não pela viagem em si. Sabia que esse casamento poderia ser um divisor de águas, que ali estariam peças importantes no tabuleiro da máfia, alianças, traições, olhares que poderiam definir destinos e Sol só conseguia enxergar oportunidades.
E, no meio de tudo isso, ela ainda era a esposa de Henzo, uma esposa que, cedo ou tarde, teria o dever de se entregar de fato a ele e sua cabeça só pensava em como fugiria.