Sustentando Bravura

1023 Palavras
O jatinho particular estava silencioso, apenas o ronco constante dos motores quebrava a tensão. Henzo ajeitou-se ao lado dela, cruzando uma perna sobre a outra, o olhar atento, divertido e perigoso ao mesmo tempo. — Quer que eu segure sua mão, minha pertencente? — perguntou com um sorriso enviesado, testando os limites dela. Sol manteve o rosto sereno, sem ceder espaço. Sorriu sem mostrar os dentes, como quem guarda mais segredos do que demonstra. — Quantos anos acha que eu tenho? — devolveu a pergunta, deixando-o por um instante desconcertado. Henzo arqueou uma sobrancelha, intrigado. — Você não tem medo de voar? Ela soltou uma risada curta, quase debochada. — Como acha que eu fugi de vocês, seus idiotas? Dirigindo da França até a Itália? Não, né. O tom dela o fez rir baixo, sincero, e ele passou a observá-la com outros olhos, como se Sol fosse uma peça rara e difícil de decifrar. O silêncio que se seguiu não era desconfortável, mas denso, carregado de provocações veladas. Henzo se inclinou mais perto, o perfume dele misturando-se ao dela. — Então você é mais ousada do que pensei. — Seus olhos a perscrutavam como quem analisava uma arma recém-descoberta. — Isso só torna as coisas mais interessantes. Sol não desviou o olhar. Encostou a cabeça no encosto da poltrona e cruzou os braços, fechando a conversa com a mesma altivez que a caracterizava. — Ou só mais esperta que você, o que não é muito difícil ser mais inteligente e ter mais cérebro que você. E deixou que o silêncio tomasse conta outra vez, como quem tinha a última palavra. O jato particular da máfia francesa tocou suavemente a pista do aeroporto internacional no Brasil. O calor úmido da noite invadiu a cabine assim que as portas se abriram, e Sol foi a primeira a descer os degraus, o vento balançando seus cabelos e trazendo o cheiro forte da cidade grande. Henzo vinha logo atrás, imponente, os olhos cravados nela como se cada passo dela fosse dele por direito. Um comboio de carros de luxo os aguardava. No silêncio da viagem até o hotel, Henzo observava Sol pela janela espelhada do veículo, curioso com a calma dela diante de tudo. Chegando ao destino, o motorista abriu a porta para Sol. Diante dela erguia-se um dos hotéis mais luxuosos e caros do Brasil — fachada de vidro, luzes refletindo na noite, imponente como um palácio moderno. Henzo sorriu, quase divertido com a reação que esperava dela, e caminhou ao lado enquanto entravam. O saguão iluminado, de mármore branco e decoração sofisticada, parecia brilhar mais sob os olhos atentos dos hóspedes curiosos. — Gostou, Sol? — perguntou Henzo, a voz baixa e carregada de ironia. — Sei que foi criada sem luxo, mas esse aí… — ele apontou para o alto do prédio com um gesto de soberania — … é o hotel mais caro que tem no Brasil. E adivinha? É meu. Sol parou por um instante, olhando em volta, absorvendo o excesso de riqueza, e soltou uma risada curta, seca. — Meu Deus… eu só devo tá pagando pecado. Ela ajeitou a mala em mãos e seguiu em direção ao elevador. Henzo, divertido, caminhou atrás, encurtando a distância entre eles. — Está em um hotel luxuoso como esse, com tudo à sua disposição, e ainda diz que está pagando pecado? muitas mulheres dariam a vida por isso aqui — ele provocou, inclinando-se para perto dela. Sol não se abalou. Com passos firmes, entrou no elevador e só então virou-se para ele, a expressão séria e dura. — O tipo de homem que eu mais temia… é meu marido. Não vou suportar esse martírio. As palavras dela caíram como lâmina. Henzo a fitou por um instante em silêncio, mas em seus olhos surgiu aquele brilho frio de desafio, como se cada negativa dela fosse apenas mais um convite para provar que o destino já estava traçado. Henzo parou por um instante diante da fala dela. O tom de Sol não era brincadeira, era duro, quase como uma sentença. Ele a observou caminhando com passos firmes pelo quarto do hotel, o salto tocando no mármore polido, o reflexo da imensa janela iluminando sua pele clara. — Martírio? — repetiu ele, com um sorriso que não escondia a pontada de orgulho ferido. — Você fala como se fosse uma condenada… Sol pousou a mala no suporte de couro, ajeitou o cabelo e virou-se lentamente para ele. O olhar dela era frio, mas carregava uma intensidade que queimava. — E não sou? — rebateu com ironia. — O tipo de homem que mais temi na vida agora se chama meu marido. É um destino c***l, Henzo. Ele se aproximou alguns passos, sem pressa. O ar entre os dois pareceu ficar mais pesado. Henzo inclinou levemente a cabeça, analisando cada detalhe dela, como se tentasse decifrar se havia ódio ou apenas medo nas palavras de Sol. — c***l… ou inevitável? — ele perguntou em voz baixa, quase sussurrando. — Porque você pode até dizer que não me teme, mas não consegue esconder que gosta de chamar minha atenção. Sol riu, mas foi um riso curto, abafado, como se tentasse afastar aquela insinuação. — O que posso fazer se minha presença é tão importante pra você? — Ela caminhou até a varanda, abriu a porta de vidro e deixou que o vento da noite entrasse. — Você acha que um hotel de luxo, joias ou o seu sobrenome vão me deslumbrar? Henzo… eu já vi o inferno de perto, nada disso me impressiona. Henzo a seguiu até a varanda, parando bem atrás dela, tão perto que o calor de sua respiração roçou o pescoço de Sol. — Então veja isso como um novo inferno, minha pertencente. — ele murmurou, firme, mas sem levantar a voz. — Porque daqui não tem fuga. Sol fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e respondeu sem se virar: — Você pode ter me acorrentado no papel, Henzo. Mas nunca vai possuir a minha alma. Ele sorriu, quase divertido, e recuou um passo. — Vamos ver até quando você vai sustentar essa bravura.
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