Capítulo 2
Narrado por Gabriel
"Eu te falei que ia ser diferente, que ia mexer com a sua mente, não tem como voltar atrás."
— Trecho da música Medley da Gaiola de Kevin O Chris.
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O Morro da Esperança era meu reino, meu legado. Não importava quantas vezes alguém tentasse invadir ou desafiar a minha autoridade; no fim, todos entendiam que eu era quem ditava as regras aqui. Mas naquele dia, algo diferente mexia comigo. E não era só o calor de rachar que fazia o asfalto quase derreter sob os pés ou o burburinho constante das crianças correndo com seus pipas voando baixo.
Era ela. A advogada de pele clara e olhos determinados. Mariana Duarte. Do jeito que desfilava pelo morro com aquele blazer, ela parecia estar completamente fora do contexto, mas, de alguma forma, encaixava. A sua presença exalava coragem, e coragem era um atributo raro. Principalmente para quem vinha do outro lado do túnel, da cidade onde os ternos e as decisões burocráticas nunca chegavam a lugares como esse.
Ela tinha algo diferente, e aquilo me deixava alerta.
— E aí, Biel, qual vai ser? — A voz de Tonhão, um dos meus parceiros mais antigos, me tirou do transe.
O cara estava com uma cara séria, o tipo de expressão que só aparecia quando as coisas estavam para desandar.
— Tô de olho. Continua na contenção e avisa se vir algo estranho, mas fica suave. — Respondi, ajeitando a camiseta no corpo e voltando a olhar para baixo, onde Mariana conversava com uma das pequenas do morro, a Bia, com aquele sorriso que iluminava até os becos mais escuros.
Ela não fazia ideia do perigo que corria pisando ali sozinha, mas eu estava curioso pra ver até onde a tal coragem dela ia.
A gente sabia que a polícia vinha com tudo quando queria fazer uma operação surpresa, e que alguns "amigos" poderiam virar a casaca sem aviso. A advogada ali era um fator novo. Ela trazia uma brisa diferente que podia tanto refrescar quanto virar vendaval. Mas eu sabia dançar conforme a música, e se a vida resolveu me mandar aquele desafio em forma de mulher, eu tava pronto pra jogar.
Vi quando ela se virou, pronta para ir embora. Mas, antes que sumisse na esquina, deixei escapar, num tom mais baixo, mas alto o suficiente para ela ouvir:
— Vai ser interessante ver até onde você aguenta, Doutora Mariana Duarte.
Ela hesitou, o ombro enrijeceu por um segundo, mas continuou andando. Um sorriso de canto surgiu no meu rosto. Aquela advogada ia mexer com o equilíbrio do meu mundo, e eu sabia que não era à toa que me sentia assim. Algo grande estava por vir, e eu estava pronto para encarar, fosse lá o que fosse.
A tarde passou devagar, com o sol se arrastando pelo céu, tingindo tudo de laranja e vermelho. As risadas das crianças diminuíram à medida que o dia caía, e o cheiro de comida caseira deu lugar ao cheiro de churrasquinho e cerveja gelada que começava a brotar nas esquinas. As vielas ganhavam uma luz própria à noite, iluminadas por lâmpadas improvisadas e o brilho dos celulares. O morro respirava uma energia que só quem vive ali entende — uma mistura de tensão constante e vida pulsante, como se cada segundo fosse precioso.
— Biel, tem movimento estranho na área da ladeira. Um carro preto, vidro escuro, rodando devagar. — O recado chegou por um dos moleques que corre pelo morro, sempre com o olhar atento e os pés ligeiros.
Meu instinto gritou perigo, e, antes que a noite caísse de vez, eu já sabia que alguma coisa estava para acontecer.
Eu cerrei os punhos e soltei um suspiro pesado. Era sempre assim, uma calmaria que nunca durava muito. Mas o que me deixou com a mente inquieta foi pensar em Mariana no meio desse fogo cruzado. Ela não fazia ideia do terreno perigoso onde estava pisando, e, se algo desse errado, eu sabia que não poderia permitir que ela fosse pega no meio disso.
— Tonhão, junta os caras. Quero todo mundo de olho e pronto pra agir se precisar. — o meu tom era firme, e ele apenas assentiu antes de sumir pela viela, chamando os outros.
Enquanto esperava notícias, me recostei num canto escuro, observando o movimento abaixo. As luzes piscavam nas janelas, as conversas baixas se espalhavam pelo ar, e eu não conseguia tirar a imagem de Mariana da cabeça. A expressão desafiadora, o jeito como ela não se deixou intimidar por mim — aquilo era diferente, e diferente sempre trazia problemas. Ou oportunidades.
Uma moto surgiu do nada, parando bruscamente ao meu lado. Era Davi, um dos garotos que cuidavam da parte de vigia.
— Biel, o carro tá parado na esquina, mas não desceu ninguém. Tá com cara de tocaia.
Eu respirei fundo, sentindo a adrenalina começar a correr pelas veias. Era um teste. Alguém queria saber até onde eu estava disposto a ir para proteger o que era meu. E eu sempre ia até o fim.
O som de um tiro ecoou no ar, cortando a noite como uma lâmina. Os meus músculos se retesaram, e antes que qualquer pensamento racional tomasse forma, a única coisa na minha mente era:
Mariana ainda estava por perto?