Capítulo 3

867 Palavras
Capítulo 3 Narrado por Mariana "Eu tentei fugir, mas é você que eu quero. Tô me envolvendo e já não tem jeito, quero te encontrar no nosso segredo." — Trecho da música Nosso Segredo de Dilsinho. --- O céu já começava a escurecer quando desci as últimas vielas do Morro da Esperança. O ar estava pesado, carregado de uma tensão que eu não sabia ao certo de onde vinha, mas que fazia os pelos da minha nuca se arrepiarem. As vozes animadas das crianças e o som das rodas dos carrinhos de rolimã ainda ecoavam ao longe, mas havia algo no vento quente que soprava entre as casas apertadas que me fazia sentir uma presença sombria se aproximando. Passei por uma senhora sentada em uma cadeira de plástico na frente da casa, balançando a cabeça no ritmo da música que tocava em um rádio antigo. Ela me deu um aceno leve e um sorriso desdentado, mas os olhos dela se estreitaram por um instante, como se soubesse de algo que eu não sabia. Respirei fundo e apertei o passo, sentindo o olhar de Biel queimando nas minhas costas mesmo de longe. Eu não podia negar que aquela troca rápida de olhares havia me deixado com o coração na boca. Gabriel Silva era diferente de tudo que eu já tinha encontrado. O tipo de homem que traz uma aura de perigo e sedução, como uma chama que atrai e assusta ao mesmo tempo. E eu? Eu estava tão perto de ser queimada que começava a questionar as minhas decisões. “Mariana, foca no trabalho”, sussurrei para mim mesma, na tentativa de afastar a imagem dele da minha mente. Precisava reunir informações para o caso de Vanessa, e cada detalhe contava. Mas antes que pudesse me afastar mais, ouvi o som de pneus cantando, um barulho seco e um estalo que fez o meu coração parar por um segundo. Um tiro. Não, vários tiros. O barulho ecoou pelo morro e, por um momento, tudo ficou em silêncio. O riso das crianças sumiu, as músicas cessaram, e o burburinho virou uma tensão esmagadora. Senti o pânico crescer dentro de mim enquanto olhava ao redor, tentando entender de onde vinha o som. — Moça, corre pra cá! — A voz de um adolescente me puxou de volta à realidade, apontando para uma casa com a porta aberta. Sem pensar duas vezes, segui as suas instruções e entrei na casa escura, ouvindo os passos de outros moradores correndo para se abrigar. O cheiro de comida recém-feita se misturava com o suor e a poeira que parecia dançar no ar em câmera lenta. O meu coração martelava tão forte no peito que eu quase não conseguia ouvir mais nada. Encostei na parede, tentando controlar a respiração, enquanto a voz autoritária de Biel se destacava na confusão lá fora. — Todo mundo pra dentro, agora! — Ele gritava, a voz grave ecoando pela rua e reverberando dentro de mim de uma maneira que eu não queria admitir. Mesmo sem vê-lo, eu sabia que ele estava em movimento, controlando a situação com uma calma que só alguém acostumado com o caos podia ter. Olhei pela fresta da janela e o vi passando com passos firmes, a expressão cerrada e os olhos atentos, como um leão cuidando do seu território. Ele estava a poucos metros de onde eu me escondia, mas parecia alheio à minha presença. Mas, de algum jeito, mesmo no meio daquele caos, eu sabia que ele sentia que eu ainda estava ali. Que estava me protegendo, mesmo que fosse inconscientemente. — Não é seguro pra você aqui — disse uma voz atrás de mim, me fazendo saltar. Uma senhora de cabelos grisalhos e olhos aflitos me encarava com uma mistura de medo e preocupação. — Cê tem que descer antes que piore. Assenti, mas meus pés não se moviam. Parte de mim queria ficar, queria entender até onde Gabriel Silva ia para proteger o que era dele. E parte de mim sabia que, se ficasse, o perigo me envolveria de uma forma que eu talvez não pudesse mais controlar. — Vem, menina. Eu te ajudo. — A senhora me pegou pelo braço e me puxou com mais força do que eu esperava, me guiando pela porta dos fundos e por um caminho estreito entre as casas. A adrenalina corria nas minhas veias, e eu sentia cada som, cada sombra, como um alerta de que algo mais estava por vir. Quando finalmente cheguei à parte baixa do morro, onde o asfalto e a cidade grande se encontravam, me permiti respirar com mais calma. Mas antes que pudesse processar o que tinha acabado de acontecer, senti o meu celular vibrar no bolso. “Mensagem de número desconhecido.” “O que você acha que está fazendo, doutora? Não é seguro brincar com fogo. E eu sou o fogo.” O meu coração gelou, e o nome que ecoou na minha mente era o de apenas uma pessoa: Gabriel. Fechei os olhos por um instante, sentindo uma mistura de medo e excitação. Porque, mesmo sabendo do risco, uma parte de mim queria responder e ver até onde aquela dança perigosa poderia nos levar.
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