Capítulo 4

1022 Palavras
Capítulo 4 Narrado por Gabriel "Se eu disser que não sinto nada, é mentira. Tô preso nesse jogo, e a partida é você." — Trecho da música Liberdade Provisória de Henrique e Juliano. --- A noite havia caído sobre o Morro da Esperança, mas a tensão continuava pulsando, como um tambor invisível que ecoava no peito de cada morador. Eu me encostei na parede da viela principal, o suor frio escorrendo pela têmpora, enquanto o cheiro metálico da pólvora ainda flutuava no ar. O barulho dos tiros tinha cessado, mas o eco deles parecia ter ficado preso nos meus ouvidos. — p***a, Biel, isso foi sinistro, mano. Quem cê acha que foi? — Tonhão se aproximou, ainda com o peito arfando e os olhos inquietos, varrendo a rua de cima a baixo. — Não sei, mas vou descobrir. — A resposta saiu firme, mas por dentro, o turbilhão era real. A coisa estava começando a sair do controle, e eu não podia permitir isso. O meu olhar caiu para a esquina onde a advogada tinha sumido mais cedo. A cena dela subindo o morro, destemida, não saía da minha cabeça. Tinha algo nela que mexia com o meu senso de proteção de um jeito que eu odiava admitir. No fundo, eu sabia que Mariana era mais do que uma advogada teimosa metida em assuntos que não devia. Ela era um lembrete de um mundo que eu sempre quis esquecer e de uma liberdade que eu não podia ter. E, ainda assim, ali estava eu, querendo mais uma vez desafiar as regras que eu mesmo inventei. Dei um passo à frente e olhei para o horizonte da cidade, onde as luzes dos prédios e dos carros brilhavam como pequenas estrelas. A realidade do asfalto parecia tão distante e, ao mesmo tempo, tão tentadora. O celular vibrou no meu bolso, e a mensagem que eu enviei mais cedo não saía da minha mente. “Se ela for esperta, vai entender que isso não é um jogo.” Mas uma parte de mim queria que ela não fosse tão esperta assim. — Biel, a polícia vai subir — avisou Davi, aparecendo do nada, com a respiração ofegante. O moleque tinha faro pra notícia, sempre sabia antes dos outros quando a casa ia cair. — Então já sabe. Todo mundo pra posição e nada de confronto. Hoje não é dia de guerra. Os olhos de Davi brilharam com a excitação misturada ao medo. A ordem estava dada. Eu precisava manter o controle e, mais do que isso, precisava garantir que Mariana não fosse pega no meio do furacão. Mas ela já estava, só não sabia disso. A primeira viatura apareceu, seguida por outras duas, e o silêncio pesado da noite deu lugar a um murmúrio coletivo. Vi Tonhão trocando olhares com os outros, e uma das moradoras gritou para as crianças se esconderem. Mas não era só o medo que pairava no ar. Era a adrenalina de saber que, ali, tudo podia mudar num piscar de olhos. Eu me movi pela viela, passando pelas sombras e observando cada movimento. Então, do canto do olho, uma silhueta familiar surgiu. Mariana. Ela estava mais longe do que deveria, hesitando na entrada do morro, como se não soubesse se ia embora ou voltava. Um calor irritante subiu pela minha garganta. Que tipo de mulher era tão teimosa a ponto de não entender que aquilo não era lugar pra ela? — Que merda você tá fazendo aqui, doutora? — sussurrei para mim mesmo, apertando os punhos e dando passos rápidos na direção dela. Cheguei perto o suficiente para ver a surpresa nos olhos dela quando me aproximei. O peito dela subia e descia com a respiração pesada, e o olhar estava entre o medo e a determinação. — Você não devia estar aqui. — a minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, mas o momento não permitia delicadeza. — Eu sei. — A resposta dela foi um fio de voz, mas o olhar que me lançou tinha fogo. — Mas eu precisava garantir que uma das meninas que você tá protegendo não fosse pega. O choque se misturou com uma raiva irracional. Ela sabia? Como ela sabia? E por que diabos estava se arriscando por alguém que nem era responsabilidade dela? — Isso aqui não é o seu tribunal, Mariana. Aqui as regras são outras, e você não tem escudo e nem peito de aço. — Dei um passo à frente, reduzindo a distância entre nós até que eu pudesse sentir a respiração dela, quente e irregular. Uma faísca passou entre nós, intensa e rápida, mas suficiente para fazer o meu coração bater fora do ritmo. Ela não recuou. Nem um centímetro. — Eu sei. Mas também sei que você vai me proteger. Houve um momento de silêncio, onde a tensão e a eletricidade no ar quase faziam o mundo ao nosso redor desaparecer. Mas o grito de um policial quebrou a bolha, e eu soube que não tínhamos mais tempo. — Vem comigo. — Puxei o braço dela, sentindo a pele quente sob os meus dedos e a resistência momentânea antes de ela ceder. A leveza daquele toque contrastava com o caos que acontecia ao nosso redor. Sirenes, gritos, passos correndo. O som da minha própria respiração misturada com a dela. E então, antes que eu percebesse, ela estava ao meu lado, atravessando a viela escura, cada passo se tornando um pacto não declarado. Chegamos a um esconderijo mais escuro, onde a luz das lanternas não alcançava, e me virei para encará-la. O silêncio que seguiu foi tão intenso que até o som das sirenes pareceu diminuir. — Isso foi louco. — a minha voz era um sussurro que quase se perdeu no ar. Mas, antes que pudesse dizer mais, senti a mão dela tocar o meu rosto, e a faísca de antes virou fogo. Mariana estava mais perto do que eu achava que seria possível. E naquele instante, tudo que estava para acontecer no morro parecia pequeno demais diante da certeza de que a advogada e o traficante estavam cruzando uma linha que nunca poderiam desfazer.
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