Capítulo 2

746 Palavras
Rebeca ergueu os olhos, ainda segurando uma peça de roupa nas mãos, quando viu Carla entrando na loja com um brilho diferente no olhar. Não era um sorriso comum. Era daqueles que vinham carregados de novidade — e, conhecendo Carla, também de confusão boa. — Rebeca… você não vai acreditar no que acabou de acontecer! — disse ela, quase sem fôlego, largando a bolsa no balcão. Rebeca arqueou a sobrancelha, já acostumada com o jeito dramático da amiga. — O que foi dessa vez, Carla? Ganhou na loteria e esqueceu de me avisar? Carla riu, jogando o cabelo para trás. — Quase isso! Mas é melhor… hoje à noite vai ter um churrasco ali na esquina, sabe? Naquela casa grande com som alto todo fim de semana? Rebeca assentiu. Ela conhecia bem. Era impossível não conhecer. Todo sábado o bairro ganhava vida com música, risadas e o cheiro irresistível de carne assando no ar. — Sei… e daí? Carla se aproximou, apoiando as mãos no balcão como se estivesse prestes a revelar um segredo de Estado. — Vai ter uma banda de pagode. Mas não é qualquer banda, não! Dizem que os caras são bons mesmo, daqueles que fazem todo mundo dançar até esquecer dos problemas. Rebeca soltou um leve suspiro, voltando a dobrar a roupa. — Carla… você sabe que eu não tenho tempo pra isso. A loja abre cedo amanhã, tem estoque pra organizar… — Ah, não começa! — interrompeu Carla, fazendo uma careta. — Você vive pra essa loja, mulher! Trabalha, trabalha, trabalha… e esquece de viver. Rebeca parou por um instante. Aquela frase bateu mais forte do que deveria. — Eu tô vivendo, Carla. Isso aqui é meu sonho. Carla suavizou o tom, percebendo. — Eu sei… e você construiu tudo isso sozinha. Eu admiro demais você por isso. Mas viver não é só trabalhar, Rebeca. Às vezes a gente precisa respirar… se permitir. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi daqueles que fazem a gente pensar. Rebeca fechou os olhos por um segundo. Fazia quanto tempo que ela não saía assim, sem compromisso? Sem pensar em contas, clientes, entregas? Tempo demais. — Vai ser só um churrasco — continuou Carla, mais calma agora. — Gente do bairro, música boa, comida… e a gente precisa disso. Eu preciso… e você também. Rebeca abriu os olhos e olhou para a amiga. Carla estava sendo sincera. Não era só animação — era um convite vindo do coração. — Você não desiste, né? — disse Rebeca, com um leve sorriso. Carla abriu um sorriso enorme, vitoriosa. — Nunca! Rebeca respirou fundo, como se estivesse tomando uma decisão importante. — Tá bom… eu vou. Carla soltou um gritinho, batendo palmas. — Eu sabia! Eu sabia que você ia dizer sim! — Mas calma — completou Rebeca, apontando o dedo. — A gente não vai ficar até tarde. E nada de exageros. Carla cruzou os braços, fingindo indignação. — Eu? Exagerar? Nunca! As duas riram. O restante do dia passou mais leve. Até Rebeca percebeu que algo havia mudado. Só de saber que faria algo diferente naquela noite, sentia um tipo de ansiedade boa — daquelas que não experimentava há muito tempo. Quando fecharam a loja, o céu já começava a ganhar tons alaranjados. O calor do dia dava lugar a uma brisa mais agradável, e o bairro começava a ganhar vida. — Vai pra casa se arrumar — disse Carla, pegando a bolsa. — E capricha, viu? Hoje a gente vai arrasar. Rebeca riu. — Eu vou do jeito que eu sou. Carla piscou. — E isso já é suficiente. Mais tarde, enquanto se olhava no espelho, Rebeca pensou em tudo que tinha vivido até ali. Na menina do interior, na luta, nas dificuldades… e agora, ali, prestes a sair para um simples churrasco. Parecia algo pequeno. Mas, no fundo, ela sentia que não era. Do outro lado da rua, o som do pagode já começava a ecoar. Risadas, conversas e o cheiro de churrasco tomavam conta do ambiente. O bairro inteiro parecia pulsar. Quando Rebeca saiu de casa e encontrou Carla esperando, toda animada, percebeu algo diferente no ar. — Preparada? — perguntou Carla, com um sorriso cheio de expectativa. Rebeca olhou em direção à esquina iluminada, de onde vinha a música. E, pela primeira vez em muito tempo, respondeu sem hesitar: — Tô. As duas caminharam juntas, sem saber que aquela noite simples… mudaria mais do que apenas a rotina. Mudaria destinos.
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