Pré-visualização gratuita O magnata de gelo
OLIVER NARRANDO
Me chamam de muita coisa por aí: frio, arrogante, calculista, vampiro corporativo, já ouvi tudo. E sabe o que é engraçado? Nenhum deles tá errado. Eu aprendi cedo que emoção demais só serve pra ferrar a gente.
Quando a porta bateu na minha cara pela última vez e eu fiquei parado no meio da rua com uma mala e nenhuma explicação… eu entendi que a vida não ia me dar manual de instruções. Então, eu virei meu próprio manual.
Hoje eu comando prédios, terrenos, contratos milionários e gente que treme só de me ver entrar na sala. É impressionante como as pessoas respeitam quem não demonstra nada. Frieza é um superpoder subestimado.
Meu dia começa do mesmo jeito há anos: silêncio, café preto, revista financeira, mais silêncio. Ninguém invade meu espaço. Ninguém faz perguntas que eu não quero responder. Ninguém toca em mim sem permissão. A rotina me protege. A distância me mantém vivo.
É assim que tem que ser. É assim que funciona. Mas naquela noite… naquela maldita noite chuvosa… o universo decidiu brincar comigo. Eu tava voltando de um jantar patético, três empresários tentando me convencer a investir num projeto podre que eu já sabia que ia falir. Recusei, claro. Parei o carro no acostamento só pra respirar e limpar a mente. E aí eu vi.
Uma silhueta encolhida na chuva, abraçando uma mochila como se fosse o último pedaço do mundo que sobrava pra ela. Eu não sei explicar, mas algo ali me travou. Não era pena. Não era preocupação. Apenas… curiosidade fria. Porque eu conheço esse olhar. O olhar de quem perdeu tudo. O olhar de quem sabe exatamente o que é ficar sozinho no meio do caos sem ninguém pra estender a mão.
E isso me irritou. Porque não era pra eu sentir nada.
Droga. — Murmurei pra mim mesmo, já ligando o pisca e encostando ao lado dela.
Eu devia ter ido embora. Eu devia ter passado direto. Eu devia ter seguido minha regra mais importante:
Nunca se apegar.
Mas eu abaixei o vidro do carro e falei a primeira coisa i****a que me veio à cabeça:
— Ei… você vai morrer aí fora.
E, sem saber, eu abri a porta que ia explodir toda a minha vida organizada.
Literalmente.
A garota levantou o rosto devagar, e por um segundo eu pensei que a chuva tinha grudado glitter nela.
Não, não glitter literal, mas tinha um brilho estranho no olhar dela, algo que não fazia sentido nenhum naquela situação miserável. Ela só encarou meu carro como se eu fosse um espírito que tinha brotado do nada.
— Eu tô bem — ela disse.
Mentira óbvia.
A voz dela tava rouca, trêmula. O tô bem soava mais como um eu desisti, mas não quero admitir. Eu devia ter ido embora aí. Mas meu dedo bateu no botão de destravar a porta antes que minha cabeça acompanhasse.
— Entra logo.
Ela hesitou.
Abaixou os olhos pro tênis encharcado, pro asfalto virando lagoa, pra mochila queimando na mão dela, literalmente, a p***a da alça tinha marcas de queimadura.
— Não vou aceitar caridade.
Quase ri. Sério. A última coisa que eu imaginei ouvir naquela noite foi alguém achando que eu estava oferecendo esmola.
— Não é caridade — respondi, seco. — É lógica. Você vai pegar pneumonia e eu não vou assistir isso acontecer da minha janela.
Ela ergueu a sobrancelha. E se aproximou. Quando entrou no carro, o cheiro queimado da mochila dominou o interior. Eu quase engasguei, e não foi pela fumaça. Foi porque eu reconheci aquele cheiro.
Fogo, madeira, tinta. Lembranças que eu enterrei anos atrás me deram um soco no estômago.
Travei os dedos no volante e respirei fundo.
Controle, Oliver. Foco. Nada de voltar praquele lugar.
— Qual seu nome? — perguntei, sem olhar pra ela.
— Eloá.
Silêncio.
Um nome leve demais pra uma situação pesada daquele jeito. Eu dirigi sem falar nada por algum tempo. Ela também não. A única coisa que se ouvia era a chuva batendo no teto do carro, como se o mundo tivesse decidido quebrar todos os telhados possíveis naquela noite.
— Meu ateliê pegou fogo — ela falou de repente, a voz baixa. — Perdi tudo.
Eu não olhei. Não era pra olhar. Não era pra sentir nada.
— Sinto muito — respondi no piloto automático.
E ela não discutiu, nem chorou, nem reclamou. Só virou o rosto pra janela, deixando a água borrar sua expressão. Mas tinha algo ali… algo que mexeu comigo de um jeito irritante. Ela não parecia quebrada. Parecia… sobrevivente. E sobreviventes sempre carregam histórias perigosas. Quando finalmente estacionei diante da minha mansão, ela arregalou os olhos.
— Eu… não posso ficar aqui.
— Pode — falei, já saindo do carro. — E vai. Só por esta noite.
Ela abriu a boca pra protestar, mas eu não dei espaço.
Já estava andando até a porta, e ela me seguiu, meio desconfiada, meio derrotada, completamente molhada. Quando entramos no saguão iluminado, o contraste entre ela e o lugar era quase cômico. Luxo pra todo lado. Eloá parecia ter saído de um furacão.
Eu tirei o casaco e joguei pro lado.
— Não se acostuma — avisei. — Amanhã você resolve sua vida e vai embora.
Ela encarou o chão por um instante, e só murmurou:
— Tudo bem. Eu também não gosto de ficar onde não sou bem-vinda.
Aquilo me atingiu de um jeito que eu não esperava. Porque, por um segundo, eu me vi nela. O garoto na rua com a mala. A porta fechando. E foi exatamente aí que percebi: Eu tinha acabado de cometer o erro mais e******o da minha vida.