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O Peso da Promessa
O vento que sobrava no alto do Morro do Jacarezinho trazia o cheiro forte de terra molhada e a fumaça distante dos churrasquinhos da subida. Do terraço da casa do seu pai, Kael encarava a imensidão das luzes que cortavam a favela, com o copo de uísque barato e gelo segurado na mão direita.
Com vinte e dois anos, o vulgo Lobo já pesava nos ombros mais do que a maioria dos caras da sua idade aguentaria.
Subchefe do Jacarezinho, braço direito de Nando, ele aprendeu cedo que respeito não se pede, se impõe. Mas havia uma única coisa no morro que ele não conseguia ter sob controle. Ou melhor, uma única mulher.
— Vai furar o copo de tanto apertar, cara? — A voz de Miguel rompeu o silêncio.
Miguel, o Coringa, encostou na mureta ao lado de Kael, ajeitando a pistola na cintura. Poucos passos atrás, Nando o Coruja, dono de tudo aquilo vinha com o olhar calmo de quem já tinha passado da fase de arrumar briga por bobagem.
O trio de comando do Jacarezinho andava junto desde moleque, mas Nando sabia exatamente o que deixava o seu subchefe com aquela cara de poucos amigos.
— Deixa o moleque, Miguel — Nando falou, encostando na mureta também. — Ele tá só remoendo o de sempre.
— Não tô remoendo nada — Kael respondeu com a voz grave, dando um gole longo no uísque. — Só tô olhando o movimento.
— Olhando o movimento ou olhando a casa do Pedro? — Miguel provocou, dando um risinho debochado. — Todo mundo sabe que tu passou o dia de cara fechada só porque a Melissa nem olhou na tua direção quando subiu a ladeira. Tava ocupada demais no celular, só trocando mensagem com o Sombra do Alemão.
Kael travou o maxilar. O nome de Melissa ainda agia como un gatilho. Desde que se entendia por gente, ouvia que os dois eram o casal perfeito. Uma promessa feita pelos pais quando ainda engatinhavam. Ele cresceu moldando a ideia de que Melissa seria sua mulher, a fiel do subchefe.
O problema era que Melissa não queria saber daquela promessa antiga. Ela queria o homem que dominava o morro vizinho. Ela estava investindo pesado no Noah, focada em conquistar o dono do Alemão.
— A Melissa faz o que ela quiser da vida dela, Coringa. Cuidado com o que tu fala — Kael avisou, o tom Frio e perigoso.
— Galera, sem estresse — Nando interveio, impondo a autoridade de dono. — O Alemão e o Jacarezinho são a mesma família, o mesmo Comando. O Noah tá na dele, focado na gestão da cúpula, e se a Melissa tá atrás dele tentando a sorte, é escolha dela. Tu tem que aceitar essa p***a de uma vez, Kael. Tu é o Lobo do Jacarezinho, não um moleque correndo atrás de quem tá de olho em outro.
Kael não respondeu. O orgulho dele queimava. Não era sobre guerra entre favelas afinal, o CV mantinha a paz e a lealdade intactas entre o Alemão e o Jacarezinho. A raiva de Kael era ver que, enquanto ele tentava fazer a promessa valer, Melissa nem disfarçava a atração pelo Noah, o Sombra, jogando todo o charme para cima dele na intenção de engatar algo sério.
A porta do terraço se abriu com um estrondo leve, quebrando a tensão entre os homens.
— Vocês vão ficar aí em cima fazendo reunião de diretoria ou vão descer pra jantar? A mãe tá chamando — a voz de Aurora ecoou.
Aurora vinha com a postura firme de sempre, os braços cruzados e o olhar decidido. Atrás dela, passos mais suaves e tímidos se aproximavam.
Maya.
Maya trazia um prato com petiscos que a tia tinha preparado, os olhos voltados para o chão enquanto caminhava. Com vinte anos, a irmã mais nova de Melissa parecia um contraste vivo no meio daquela conversa dura.
Doce, carinhosa, de um sorriso que parecia não pertencer ao caos do morro, ela carregava nos olhos uma dor que ninguém ali parecia notar ou que ela fazia questão de esconder muito bem.
— Trouxe pra vocês... — Maya falou baixo, a voz suave quase sumindo com o som da música que vinha da rua. Ela ergueu os olhos e encontrou o olhar de Kael.
Seu coração deu um salto involuntário. Maya amava Kael em segredo desde que se entendia por mulher. Suportava ver a obsessão dele por Melissa, suportava ser tratada apenas como a "irmãzinha", e escondia cada pedaço da sua dor por trás de gestos gentis.
Kael apenas assentiu, pegando um pedaço do petisco sem dizer um obrigado. A mente dele ainda estava remoendo o orgulho ferido por causa do interesse de Melissa em outro cara.
— Valeu, Maya — Miguel disse, pegando um e dando um beijo no topo da cabeça dela. — Pelo menos alguém nessa casa tem consideração pela gerência.
— A gente já tá descendo, Aurora — Nando avisou, ajeitando o casaco. — Vou passar na Manu primeiro.
Nando se despediu e desceu a escada rápida. Miguel foi logo atrás, deixando apenas Kael, Aurora e Maya no terraço.
Aurora percebeu o clima pesado e o jeito como Maya olhava para o chão, nitidamente desconfortável perto do kael. Como melhor amiga e prima de Maya, Aurora conhecia cada segredo da garota inclusive o amor sufocado que ela guardava por Kael.
E Aurora, sendo a mulher decidida que era, odiava ver Maya se diminuindo daquele jeito.
— Vamos, Maya. Deixa o Kael aí conversando com a lua — Aurora disse, puxando o braço da prima com firmeza, mas mantendo o tom carinhoso.
— Pode ir na frente, Aurorinha. Eu... eu já desço — Maya murmurou, sem encarar o primo.
Aurora suspirou, olhou de Kael para Maya com uma sobrancelha erguida, mas acabou descendo, deixando os dois sozinhos sob a luz fraca da mureta.
O silêncio entre eles se instalou, denso e desconfortável. Kael encostou de novo na mureta, terminando seu uísque. Ele era cego pela própria teimosia, incapaz de enxergar a mulher que estava a dois passos dele.
— Você devia parar de beber de barriga vazia, Kael — Maya quebrou o silêncio, a voz doce carregada de um cuidado sincero que ele não merecia naquele momento. — Vai te fazer m*l.
Kael deu uma risada curta, irônica, sem olhar para ela.
— Desde quando tu virou minha mãe, Maya? Preocupa com a tua vida.
A resposta veio como um tapa seco, mas Maya não recuou. Ela já estava acostumada com a carcaça de espinhos que ele vestia para esconder o ego ferido.
Ela deu um passo à frente, olhando de lado para o perfil do homem que dominava seus pensamentos desde a infância.
— Não sou sua mãe. Só não quero ver você se destruindo por causa do que não pode ter — ela disparou, com uma coragem repentina que fez Kael finalmente virar o rosto para olhá-la.
Os olhos escuros dele se cravaram nos dela. Arrogante e desconfiado, Kael deu um passo na direção de Maya, diminuindo a distância. Ele exalava perigo, mas Maya manteve os pés firmes, embora o peito acelerasse descontroladamente.
— Tu não sabe de nada da minha vida, garota. Tu é só a irmã da Melissa — Kael disse, a voz baixa, arrastada e cheia de uma crueldade impensada, provocada apenas pelo seu orgulho machucado. — Volta lá pra baixo antes que tu se machuque jogando conversa fora com quem não deve.
A irmã da Melissa.
A frase ecoou na mente de Maya como uma sentença. A dor fisgou fundo, mas ela apenas engoliu a seco, forçando um sorriso pequeno e triste o mesmo sorriso que usava para esconder tudo o que sangrava por dentro.
— Um dia você vai perceber, Kael — Maya sussurrou, a voz firme apesar da mágoa. — Um dia você vai ver que a única pessoa que se machuca aqui é você mesmo, insistindo em um passado que nunca existiu.
Sem esperar por uma resposta, Maya se virou e caminhou em direção às escadas.
Kael ficou sozinho no terraço, o peito subindo e descendo com uma irritação que ele não sabia explicar.
Ele achava que Maya era apenas uma garota ingênua e romântica. Ele não fazia ideia de que aquela mesma garota, movida por um amor desesperado e por uma mentira prestes a ser contada, mudaria o rumo de sua vida para sempre.