O Domínio do Sombra
O sol do início da tarde batia forte nas ruelas do Complexo do Alemão. No topo do morro, na varanda espaçosa da casa de 2K e Elena, o vento trazia uma brisa agradável que suavizava o calor.
Noah estava sentado em uma das cadeiras de ferro trançado, com o notebook aberto na mesa e um copo de água com gelo ao lado. Como dono do morro e chefe do Comando Vermelho na região, o vulgo Sombra não descansava.
Ele checava as finanças da semana e a rota dos suprimentos com a frieza e a precisão de um grande estrategista.
Passos firmes e ritmados subiram a escada lateral. Noah nem precisou erguer os olhos para saber quem era.
— Tu não descansa nem no domingo, Sombra? — a voz de Melissa soou clara, cheia de audácia.
Ela trazia na mão uma sacola pequena com doces que a mãe de Noah, dona Elena, tinha pedido para buscar no Jacarezinho.
Melissa vestia um shorts jeans claro e uma regata simples, mas o jeito como caminhava, a postura ereta e o olhar seguro faziam qualquer um parar para olhar.
Noah fechou a tela do notebook devagar e encostou-se no encosto da cadeira, cruzando os braços musculosos cobertos de tatuagens. Os olhos escuros e observadores dele mapearam a figura de Melissa da cabeça aos pés.
— Se eu descansar, a gestão para — Noah respondeu com a voz grave e calma. — E tu tá fazendo o que aqui uma hora dessa, Melissa? Não me diga que veio só entregar a encomenda da minha mãe.
Melissa deu um sorriso de canto, caminhando até a mesa e colocando a sacola sobre o vidro. Ela se debruçou levemente na mesa, diminuindo a distância entre os dois e encarando o dono do Alemão sem piscar.
— Eu não dou viagem perdida, Noah. Vim trazer o que a dona Elena pediu, mas vim principalmente porque eu queria te ver — ela disparou, direta, sem filtro nenhum.
Noah manteve a expressão impassível, mas os olhos traíram uma ponta de interesse. Ele gostava do jeito de Melissa. Diferente de muitas mulheres que gaguejavam ou baixavam o olhar perto dele por causa do respeito e da fama de homem perigoso, Melissa o enfrentava de frente, como uma igual.
— Tu é abusada pra c*****o — Noah comentou, dando um meio sorriso quase imperceptível. — O teu primo Kael quase enfartou ontem no camarote só de ver tu encostada em mim. O cara tá lá no Jacarezinho mordendo as costas de raiva.
Ao ouvir o nome de Kael, a expressão de Melissa mudou para um leve desdém. She balançou a cabeça, soltando um suspiro de impaciência.
— O Kael é passado, Noah. Ele precisa entender que aquela promessa i****a que nossos pais fizeram quando a gente era criança não manda na minha vida. Eu já dei o papo reto nele ontem na frente do Nando e da Maya.
Noah ergueu uma sobrancelha, curioso.
— Deu o papo reto?
— Falei na cara dele que não quero mais nada, que a nossa história morreu e que eu tô aqui investindo em tu porque eu quero tu — Melissa afirmou com convicção, cruzando os braços e mantendo o olhar fixo no dele. — Eu não fico de jogo duplo, Noah. Se eu tô aqui, é porque a minha escolha é você.
O silêncio reinou na varanda por alguns segundos.
Noah se levantou da cadeira, a figura alta e intimidante se impondo no espaço. Ele deu dois passos na direção de Melissa, parando bem na frente dela. O cheiro do perfume dele amadeirado e marcante envolveu o ambiente.
Noah levou a mão ao rosto de Melissa, tocando a linha da mandíbula dela com o dedão com um cuidado raro, contrastando com a fama de homem duro.
— Tu sabe onde tá pisando, Melissa? — ele perguntou baixo, o tom sério e territorial. — Eu não sou moleque. Se tu entrar na minha vida, não vai ter espaço pra dúvida, nem pra fantasma de promessa antiga. O Alemão é meu, e o que é meu, eu protejo e não divido com ninguém.
Melissa sentiu o peito arfar levemente com a proximidade e a intensidade do homem à sua frente. Era exatamente aquilo que ela procurava: postura, maturidade e a certeza de um homem de verdade.
— Eu sei exatamente onde tô pisando, Sombra — ela respondeu na mesma moeda, tocando o peito dele com a palma da mão. — E eu não tenho medo de nada.
Noah encarou os lábios dela por um segundo antes de selar o espaço entre eles em um beijo profundo, lento e cheio de posse.
Não era um beijo impulsivo de baile; era o carimbo de algo que começava a se construir de forma sólida entre o dono do Alemão e a mulher que não aceitou ter seu destino traçado por ninguém.
Quando se separaram, Melissa trazia o peito arfando e um sorriso satisfeito nos lábios.
— Agora eu preciso ir, que o Nando tá me esperando lá no Jacarezinho pra almoçar — ela disse, ajeitando o cabelo.
— A gente se vê mais tarde no morro. Vou mandar o Teo te deixar na divisa pra tu não ir sozinha — Noah avisou, reassumindo o tom de proteção e comando.
Melissa apenas assentiu, descendo a escada com a certeza de que tinha feito a escolha certa.
Noah voltou a se sentar diante do notebook, olhando para o horizonte do Alemão. Ele sabia que o orgulho de Kael no Jacarezinho iria ferver ainda mais quando descobrisse que a história com Melissa estava definitivamente encerrada.
Mas o Sombra não se importava. No mapa do morro e no mapa do amor, ele só jogava para vencer.