“A vida é muito curta para cara feia.”
Eu não digo isso como frase de efeito. Digo porque, se a gente parar dois minutos para pensar demais, desmorona.
Moro numa casa que mais parece um reality show patrocinado por café barato e plantões exaustivos. Seis enfermeiras. Seis escalas diferentes. Uma cafeteira que trabalha mais que a gente e uma geladeira que já devia ter sido aposentada por insalubridade.
— Quem pegou meu iogurte?! — Larissa gritou da cozinha como se estivesse denunciando um crime federal.
— Amiga, aquele iogurte venceu na pandemia — respondeu Carol, já de jaleco. — Salvei sua vida.
Entrei na cozinha com minha caneca preferida na mão e o sorriso que, segundo elas, devia ser proibido antes das oito da manhã.
— Bom dia, flores do caos! Já agradeceram por estarem vivas, lindas e com café?
— Eu só agradeço se tiver pão — Carol resmungou, abrindo o armário pela terceira vez como se ele fosse criar comida por pena.
Mirella surgiu no corredor com o cabelo amassado e o travesseiro ainda grudado no rosto.
— Dá para existir mais baixo?
— Não — respondi automaticamente. — Nasci em volume alto.
Elas riram. Sempre riem. E fingem que me acham insuportável.
Mas quando saem de casa, saem mais leves.
Depois que todas foram embora, fiz uma pequena ronda doméstica: lavei o que dava, organizei o que era possível organizar e passei no mercado para comprar outro iogurte para Larissa. Colei uma carinha feliz no pote com o nome dela escrito em canetinha azul.
Pequenas coisas salvam dias inteiros.
Dormi meu sono revigorante e, às seis e quinze da tarde, eu e Mirella saímos juntas. O sol já se escondia atrás dos prédios baixos, tingindo o céu de laranja queimado. O vento batia no rosto e trazia aquele frio leve que anuncia a noite.
— Vê se não canta hoje — ela disse, ajeitando a bolsa no ombro. — Sua voz me deixa zonza.
— Minha voz mantém a UTI viva, querida.
— Você é louca, Helena.
— Não. Só estou viva.
Ela balançou a cabeça, mas estava sorrindo.
No vestiário, prendi o cabelo com firmeza, coloquei o jaleco, ajustei a máscara e o crachá.
Helena Duarte — UTI Adulto.
Olhei meu reflexo no espelho.
— Segura na minha mão e na dos meus pacientes, Deus. O resto eu improviso.
Milena já nem reage mais à minha oração improvisada. Mas sei que ela escuta.
Quando as portas da UTI abriram, o mundo mudou de temperatura.
O corredor brilhava sob luz branca e fria. O ar-condicionado mantinha o ambiente quase estéril demais. Aquele som ritmado dos monitores criava uma trilha sonora constante, como um lembrete de que ali cada bip significava continuidade.
Respirei fundo.
Ali dentro não existe drama exagerado. Existe precisão.
A vida é muito curta para cara feia.
Repito isso como quem repete oração. Não porque o mundo seja leve, mas porque ele pesa demais. E alguém precisa equilibrar a balança.
Na UTI, a gente não salva todo mundo. Mas a gente não abandona ninguém.
Passei de leito em leito como sempre faço, tocando as mãos, ajeitando travesseiros, conferindo bombas de infusão, chamando cada um pelo nome.
— Boa noite, seu Antônio… hoje o senhor está com cara de quem vai me dar trabalho.
— Dona Cida, eu sei que a senhora me escuta. Se abrir os olhos, prometo cantar para a senhora também.
Mirella revirou os olhos atrás da máscara.
— Um dia vão te internar aqui, Helena.
— Só se for por excesso de felicidade.
Cheguei sorrindo ao leito 7, mas meu sorriso morreu um pouco.
Ele estava ali como quem perdeu uma guerra invisível.
Jovem demais.
Hematomas espalhados pelo rosto, corte no supercílio, lábios inchados. O prontuário dizia: agressão física grave. Trinta e dois anos.
Lúcio Vasconcellos.
Ajustei o lençol com cuidado, conferi o monitor.
Pressão aceitável. Frequência cardíaca um pouco acelerada — nada fora do esperado para alguém que apanhou quase até morrer. Saturação estável. Soro correndo bem.
Tudo dentro do que chamamos de “sob controle”.
— Oi, Lúcio.
Aproximei meu rosto do dele, como se estivéssemos numa conversa comum.
— Sou a Helena. Fico com você esta noite. Aqui ninguém fica sozinho, ouviu?
Comecei o banho de leito com movimentos firmes e delicados. Limpei os cortes, troquei compressas, ajeitei o acesso venoso.
Ele tinha barba por fazer. Resolvi raspar.
— Você não vai acordar todo largado no meu plantão, não. Tenho reputação a zelar.
Mirella soltou um riso abafado do outro lado.
— Você conversa como se estivesse em um bar.
— Eles reclamam menos do que você.
Terminei de aparar o bigode e fiquei olhando para o rosto dele, tentando imaginar como era antes da violência.
— Sabe o que combina com você? Uma música animada.
Puxei o ar teatralmente e comecei:
— Mamãe, eu quero… mamãe eu quero mamar…
O monitor continuava no mesmo ritmo constante. O ar-condicionado zumbia como sempre. A UTI era fria, branca, disciplinada.
— Me dá a chupeta, me dá a chupeta…
Eu me inclinei um pouco mais, limpando o canto da boca dele.
— Para o neném não chorar…
Foi quando senti.
O bigode mexeu.
Não foi um espasmo forte. Nem foi uma reação brusca. Foi um leve movimento, quase irritado.
Eu parei.
Olhei para o rosto dele.
— Ah… então você está me ouvindo.
O canto da boca dele tencionou de leve. A frequência cardíaca subiu dois pontos.
— Eu sabia que você odiaria meu repertório.
Aproximei minha boca do ouvido dele.
— A vida é muito curta para cara feia, viu? Acorda logo, porque tenho uma playlist inteira de músicas piores.
Fiquei ali alguns segundos.
A pele dele estava um pouco fria nas extremidades, mas nada alarmante. A medicação poderia explicar. Tinha a frequência cardíaca ainda levemente elevada. Trauma faz isso.
Nada gritava perigo.
Nada avisava que algo estava silenciosamente errado.
Apenas um corpo cansado tentando sobreviver.
Passei a mão pelos cabelos dele, ajeitando com cuidado.
— Descansa. Estou aqui.
E eu estava.
Sem saber que aquela noite era só o começo de algo muito maior do que qualquer plantão. E que minha vida mudaria sem nenhum aviso.
Voltei ao leito 7 algum tempo depois com a medicação.
E ele estava acordado.
Olhos abertos.
Fixos em mim.
Não era um olhar confuso.
Era alerta.
Tenso.
Como se eu fosse uma ameaça.
Parei por meio segundo.
— Ei… boa noite, oficialmente.
Ele me encarava como se estivesse avaliando risco. Ex-militares têm isso. Procuram inimigos até no teto.
Aproximei-me devagar.
Coloquei a mão no braço dele.
— Calma, Lúcio. Sou a Helena. Você está no hospital.
A resposta foi imediata.
Ele levou a mão até a cânula do respirador.
Desespero puro.
O monitor disparou alguns pontos. A frequência subiu. O peito lutava contra o tubo.
— Não, não, não… isso não pode sair agora.
Segurei o punho dele com firmeza, mas sem brutalidade.
— Olha para mim. Você apanhou feio. Seu corpo ainda está se recuperando. Isso está te ajudando a respirar.
Ele balançou a cabeça.
Os olhos diziam claramente:
“Eu sei.”
Se pudesse falar, provavelmente me chamaria de estúpida.
Mas a peça que o mantinha vivo também o silenciava.
Ele tentou gesticular. Apontava para mim. Depois para si. E depois ele fazia um movimento insistente, exigindo que eu retirasse o tubo.
A urgência no olhar não era medo da máquina.
Era necessidade de falar.
Já vi pacientes agitados com respirador. Vi pânico, confusão, dor.
Mas aquilo era diferente.
Aquilo era pressa.
— Eu não posso tirar agora. O médico só vai avaliar pela manhã, ouviu?
Ele não ouviu.
Ou não aceitou.
A luta aumentou.
— Mirella! — chamei.
Ela entrou já com o tranquilizante preparado.
— Ele acordou assim?
— Quer arrancar o tubo e discutir comigo.
Lúcio tentou impedir quando percebeu a seringa.
Se debateu o suficiente para quase deslocar o acesso.
— Ei, ei… calma! A gente só vai te ajudar a descansar.
O medicamento entrou.
Foram segundos longos.
A resistência foi diminuindo.
Os olhos ainda estavam presos nos meus.
Intensos.
Quase acusatórios.
Como se estivesse me confiando algo e eu estivesse falhando.
Depois, o corpo cedeu.
A frequência desacelerou.
As pálpebras pesaram.
E ele dormiu.
O silêncio voltou ao leito 7.
Permaneci ali alguns segundos.
Observando.
Pensando.
— O que foi? — Mirella perguntou, ajeitando o equipo.
Continuei olhando para ele.
— Ele queria muito falar alguma coisa.
— Agora só amanhã. E olhe lá.
Assenti devagar.
Mas aquilo não parecia coisa que pudesse esperar até de manhã.