Your eyes can't lie

4980 Palavras
Harry conseguiu o que ninguém havia conseguido antes: conversar com Louis por mais de meia hora. Na verdade, ele conseguiu duas com o moço pequeno de personalidade difícil e complicada. Tudo bem que ele foi ácido várias vezes, muitas vezes, por sinal, mas Harry apenas achou que era algum tipo de birra infantil que rodeava aquela aura estranha mas ao mesmo tempo convidativa do rapaz. Durante a conversa, Louis não se abriu muito, mas o padre o pegou olhando pro piano algumas vezes. E isso definitivamente era algo a se levar em conta. Ele voltou à sua a sua paróquia após despedir-se dele e de sua mãe. Talvez Johannah dissesse que era um milagre divino o que aconteceu naquela manhã, porque pode ver a primeira diferença em Louis: em todos aqueles meses, ele voltou a sentar-se à mesa pra comer na hora do almoço, já que tinha largado essa hábito há muito tempo e todas as suas refeições, que não eram muitas, podiam ser contadas por dentro daquele quarto onde ele insistia em ficar. — Então, o que padre lhe disse? — Johannah iniciou a conversa após servir o filho de um generoso prato de macarrão com molho bolonhesa e bastante queijo ralado, coisa que Louis gostava mas que tinha perdido o apetite em comer depois que se privou tanto de sua vida. Pegou o garfo e, devagar, começou a comer. — Acredita que ele já leu a Divina Comédia? — Ele retomou o assunto, rindo devagar de canto depois de se lembrar daquele fato curioso. — Quem? — Johannah estava meio perdida em relação ao assunto. — Padre Harry. — Ah sim! — Ela fez uma pausa, não tinha noção do que isso significava. — E o que ele lhe disse a respeito? — Que é uma boa obra. — Louis parecia mais empolgado almoçando agora, e aquilo era visível .— Acho engraçado um padre dizer algo assim. — Mas é uma obra herege? — Não, mãe. — Ele sorriu. Sim, ele sorriu, tímido, mas Johannah viu um sorriso ali. — Mas pouca gente conseguiu entender do que se trata... Quer dizer, uma obra em cantos e na linguagem de Dante... — Bom, ele é um padre, Lou... É um homem estudado. — Ela disse e Louis assentiu com a cabeça. — Pode ser. — Ele respondeu e limpou a boca com um guardanapo, dando de ombros e deixando de lado aquela infinidade de questões em sua cabeça. — A senhora não vai almoçar? — Sim, depois de você... — Johannah, a senhora está estranha hoje. — Ele responde num tom divertido. — Vai ver o padre hoje outra vez? — Ela arriscou, curiosa, tentando não pressionar mas ela precisava saber se ele iria encontrar a fonte divina que fez seu filho se levantar da cama e agir como um humano novamente. Louis titubeou ao responder por um minuto. Ele tinha vontade, Harry era legal, ele tinha que admitir. Estava com vontade de vê-lo de novo sim, mas ao mesmo tempo não estava bem certo quanto àquilo. Ainda achava que era besteira e que não adiantaria, mas pelo menos o padre falava coisas interessantes, e não apenas sobre Jesus e a igreja. A bem da verdade, é que esse assunto foi muito pouco abordado e aquilo o intrigava muito. — Acho que sim. — Ele respondeu por fim e sua mãe sorriu pegando em uma de suas mãos pequenas e graciosas. — Diga a ele que vou rezar pra agradecer pelo que ele está fazendo. — Seja o que for, mãe, é ele quem está fazendo, pare de dar créditos a Deus. — Louis respondeu, mas dessa vez não tão ofensivo quanto das primeiras vezes, mas ainda com aquele mesmo tom sarcástico de sempre. — Certo, certo... — Johannah estava feliz demais para discutir sobre a falta de fé do seu filho. — O que você acha de um pedaço de panna cotta? — Ela fingiu um tom desinteressado, mas sabia que era a sobremesa preferida de seu filho em toda vida. — Com... vejamos... — Ela abriu a geladeira e Louis viu o bonito prato com o doce. — Pêras escaldadas? — Tudo bem. — Ele pensou por um minuto e o sorriso tímido voltou a aparecer, iluminando aquele rosto com traços finos e angelicais que eram tão adoráveis quanto a nuvem mais branca no céu. XxX — Louis Tomlinson? — O sacerdote Jeffrey Dean Morgan ouvia com atenção o padre novato contar a história. — Eu acho que conheci o pai desse garoto, quando ainda não fazia parte desta vida. — Eu tenho fé, sua eminência... Eu acho que vamos recuperá-lo. — Harry era confiante, mostrando aqueles dentes brancos darem vida ao assunto, e seus olhos verdes iluminarem o local também. — Fico feliz que esteja sendo através desse caminho de Deus que ele escolheu. — Bem, na verdade ele é um pouco relutante em relação a isso. — O padre preparava-se para ajudar na missa de logo mais a tardinha, onde sempre recebia pessoas em busca de conselhos sobre os mais variados assuntos. — Mas sabe, ele é muito inteligente. — Eu sei, ele costumava tocar piano, certo? — Jeffrey parecia agora associar de quem Harry estava falando, lembrando-se vagamente daquele rapaz. — Sim, pelo que a mãe dele disse, ele é muito talentoso e amava o instrumento. Agora por estar deprimido... — O padre Styles chegou a se entristecer só por lembrar e idealizar em sua mente em como aquele homem devia ser tão cheio de espírito e de energia, em como deixou tanta coisa de lado, mas estava disposto a trazer esse Louis de volta. — Parece que você se apegou bastante a causa. — Morgan olhou Harry notando que ele pareceu interessado em ajudar aquele homem, mais do que alguns outros casos específicos que ele se voluntariou antes para ajudar. — Fico feliz por isso. — Tenho certeza que foi Deus quem o colocou no meu caminho. — Ele disse com um sorriso e não parou pra pensar em como aquilo soava e Jeffrey resolveu fazer o mesmo e apenas sorriu junto. — Vai voltar a vê-lo então? — Vou. O convidei para vir a missa hoje. — Harry terminava de arrumar o altar para a missa e todos os seus instrumentos, que o instruíam na hora de fazer aquilo que gostava tanto. — E será que ele vem? — Jeffrey realmente duvidava. Se a história era do jeito que o padre contara, ele realmente não acreditava que o tal Louis apareceria, mas não duvidava também em como Deus poderia moldar o coração das pessoas de alguma forma. — Tenha fé, sua eminência. — Ele soou divertido e o sacerdote de barba cinza voltou a rir novamente pelo bom humor do jovem padre a sua frente. Louis passou a tarde de novo em seu quarto, como sempre fazia. Johannah não quis pressionar, não esperava que, apenas uma conversa fosse resolver, mas o primeiro passo já havia sido dado. Ela foi cuidar do jardim no meio da tarde e, pelo menos, viu que seu filho não voltou a fechar as cortinas de seu quarto, deixando alguma luz, mesmo que pequena, pudesse dar luz aquele lugar pesado que Louis tinha adotado para si como alguma forma de proteção ou esconderijo. Outra mudança foi o fato dela ouvir que ele foi tomar banho sem que ela precisasse pedir a ele, por favor, que o fizesse. Chegou ao quarto do filho e o viu barbeado. Certo, isso poderia ser normal se tratando de qualquer homem no mundo, mas Louis estava quase se tornando um muçulmano. — Gosto mais do seu rosto assim. — Ela disse ao espiar pela porta entreaberta o filho, que lia um livro, deitado na cama, que ela identificou pelo título como "A Divina Comédia", de Dante Alighieri. Ele apenas ergueu as sobrancelhas avisando que havia escutado, sem tirar os olhos do livro. A mãe abriu mais a porta e percebeu que o quarto estava menos bagunçado. Toda aquela iluminação parecia fazer com que as coisas quase voltassem ao normal. A cama também não parecia tão desarrumada quanto antes, e as roupas também estavam colocadas no guarda-roupas de forma correta, sem aquele caos que se instalava ali mesmo que apenas uma pessoa fosse responsável por aquilo tudo. — Ei... Estou indo à missa... — Ela avisou, dando mais uma olhada calma pelo local e respirando fundo, um tanto aliviada — Se quiser alguma coisa pra comer mais tarde, tem um bolo de laranja e café, que acabei de fazer. Louis apenas assentiu com a cabeça e tirou os olhos do livro enquanto a mãe descia as escadas calmamente, com aquele ar passivo e calmo de sempre que Louis gostaria de ter herdado, já que sua forma impulsiva de lidar com as coisas já lhe renderam boas surras de sua mente confusa. Ir à missa. Isso é que era um desperdício de tempo, até porque, rezar por rezar, sua mãe fazia tudo isso em casa. Lembrou-se que o padre Harry o convidara para ir à missa àquela tarde, já que era ele quem iria presidir, como sempre fazia naquele horário em comum. Bom, talvez se fosse o padre Harry, a missa não seria assim tão r**m, seria? — Mãe! — Ele levantou-se da cama de forma rápida, largando o livro em cima do colchão e gritou quando ouviu a porta da frente ser aberta por Johannah. — Sim, filho? — Ela voltou com calma e gritou ao pé da escada, preocupada com aquela voz repentina chamando-a. — Acho que... — Ele pensou por um segundo e até riu de si mesmo, mas concordou que gostaria de fazer aquilo de alguma forma — Acho que vou com você. Johannah m*l podia acreditar naquilo e realmente ficou com vontade de dançar de felicidade no meio da sala, depois de tanto tempo pedindo a Deus que tocasse no coração de seu filho e iluminasse aquela mente confusa, agora tudo parecia estar se encaixando tão bem que ela demorava pra acreditar na realidade que a cercava. — Ok. Eu te espero. — Ela respondeu com naturalidade, não queria se mostrar muito impressionada e talvez estragar aquele momento, deixou a euforia de lado e sorriu com calma. Louis pôs um jeans mais comportado e, olhou-se no espelho. Vestia também um camisa pólo preta, ligou a torneira do banheiro, molhou uma das mãos e arrumou o cabelo rebelde de leve. Há tempos ele não se olhava no espelho daquela maneira e quase desistiu quando viu seu reflexo e falou "estou indo à missa". Ele se achou ridículo, mas agora que sabia que sua mãe havia se animado, ele iria de qualquer forma, até porque gostaria de conversar com o padre mais uma vez. XxX Óbvio que Louis estava em um dos últimos bancos da igreja com sua mãe, fazendo de tudo pra não chamar atenção, mas do jeito que sua mãe rezava e cantava todas as músicas católicas sobre anjos e ovelhas do Senhor, ficava difícil não olhar pra eles. Suas bochechas coravam conforme olhares passavam por cima de sua cabeça, por mais que se sentisse desconfortável por estar em um ambiente que já tinha criticado tanto, gostava de ver sua mãe feliz. Até Harry já tinha notado que ele viera e o viu abrir um sorriso e, ele, sorriu tímido de volta. Na verdade, o padre já havia esquecido o quanto era bom deixar as pessoa satisfeitas com pequenas atitudes que partiam de seu coração nobre, mas agora, sabendo que com apenas uma única conversa ele foi capaz de mudar algumas coisas naquele homem sentado bem no cantinho, ele realmente estava alegre em um nível absurdo. A missa já estava acabando e os fiéis sempre ficavam, alguns, para trocar algumas palavras e pedir bênção ao padre e ao sacerdote Jeffrey Dean Morgan, responsável pela paróquia. Era uma rotina cansativa, porque tentar entender a mente de cada pessoa que se passava por ali e tentar ajudar o máximo que fosse, não era lá uma tarefa tão fácil, mas ao mesmo tempo tornava-se gratificante pelos resultados obtidos. Johannah, é claro, era um desses fiéis e fez Louis ir com ela até pra perto do altar. Eles eram um dos últimos a ficarem por lá, como alguns outros que se alocavam em uns cantos e secavam suas lágrimas por qualquer motivo que fosse, mas partiam para casa com algum tipo de felicidade evidente e também indecifrável. A mulher falava com o padre Morgan e lhe pedia bênção, Louis ficara há alguns passos de distância e, quando a mãe o mencionou e Jeffrey olhou pra ele, ele apenas acenou entediado com a cabeça parecendo não muito interessado em se apresentar para o velho, já que detestava falar sobre si mesmo e lembrar-se de certo pavor que o rondava. — Sabia que viria. — Louis ouviu a voz do padre Harry vir de trás de si e tremeu um pouco com o susto, já que estava focado em olhar todos os santos espalhados no local e uma enorme imagem de Jesus na cruz bem no centro, logo atrás do altar. Ele virou-se e viu o padre já sem as vestes da missa, com a costumeira roupa preta que sempre estava bem delineada naquele corpo enorme. Ele sorria e Louis gostou de vê-lo de novo, apesar do ambiente não ser lá um dos melhores para que ele tenha seus assuntos, mas ele não se importava de qualquer forma, gostava de ser quem era em qualquer lugar. — O que achou? — Harry perguntou sincero, daquele jeito interessado que fazia Louis pensar um pouco nas respostas agora, porque o tal padre realmente prestava atenção em cada palavra que ele dizia, o que soava também um pouco estranho. — Seu sermão foi sobre discriminação... — Ele respondeu sério a pergunta, limpando a voz um pouco — Prestei atenção. — Ele concluiu e o padre Styles sorriu, chegando alguns passos mais perto do mais baixo, que o encarava com aqueles olhos azuis desconfiados. — Eu sei. — Ele disse com calma, exibindo aquelas covinhas estonteantes. — Percebi que realmente estava ouvindo. — O padre viu Louis se surpreendeu um pouco com a colocação, semicerrando os olhos devagar formando uma única linha fina naquele par de olhos bonitos. Quer dizer que ele estava olhando pra ele durante a missa? — Mas eu perguntei se você gostou. — Sei lá. — ele respondeu incerto, agora respirando fundo antes de tentar concluir o que tinha em sua mente — Acho que... estava fazendo seu papel. Digo... Orientar as pessoas, só que... — Só que? — Harry perguntou já que o outro parou no meio da frase, notando ele revirar os olhos e soltar um ar pesado dos pulmões, como se tivesse que desabafar mesmo que de uma forma não muito amigável. — Tá vendo, é por isso que não gosto da igreja! — Louis voltou ao seu ar arrogante, era impossível que ele não desse sua opinião sobre o que realmente pensava sobre todas as coisas. — A igreja é contra os gays, por exemplo... — Ele disse e o padre riu, baixando os olhos, deixando o outro timidamente desconfortável e apesar da facilidade com que Louis tinha em abrir a boca, ele não conseguia deixar Harry fora daquela aura calma e tranquila. — Meu caro, se você realmente interpretasse meu sermão da forma correta, iria entender o que eu quis dizer... — O padre explicava com a maior paciência do mundo, sem pressa e sem alternar o tom de voz. — Sigo a doutrina e os dogmas da igreja como um bom cristão que sou, mas... — Ele chegou mais perto, falando com Louis num sussurro quase inaudível, mas que não corria para fora daquela conexão estranha que eles tinham acabado de criar. — A igreja não tem que ditar sua vida... Religião é o caminho, não o objetivo final. Louis pode ver quase um olhar infantil e travesso diante de si, por baixo de todo aquele pano preto que o deixava extremamente sério apesar de tudo. Seus olhos eram de um verde azulados e alguns fios de cabelo tocavam seus ombros largos. Harry, então, pela primeira vez viu um sorriso completamente aberto do outro, mostrando os dentes bonitos formados numa boca vermelha e pequena, com traços finos. Foi a vez dele de responder num sussurro ao padre. — Acho que está na religião errada, amigo. — Ele disse em tom de ironia, mas até que ficou engraçado por como tentou interpretar e por algum momento esqueceu-se que estava dentro de uma igreja. — Você poderia ser expulso por me dizer isso... — Mas é claro que não. — Harry disse mostrando as covinhas nas bochechas novamente com aquele sorriso largo inundando aquele ambiente calmo que eles construíam com os segundos — O objetivo final é... — Ser feliz. — Louis o interrompeu na resposta, cruzando os braços diante do peito e fazendo um sim com a cabeça — Tá vendo? Disse que prestei atenção. O padre sorriu novamente. Foi quando ele se deu conta de que não tirou o sorriso do rosto desde que começara a falar com Tomlinson. Ficaram se olhando por alguns segundos e, parecia que um tentava ler a mente do outro. Louis não tinha se dado conta em como tinha ficado natural puxar assunto com aquele homem a sua frente, em como tinha facilidade em alcançá-lo também. Não sabia ao certo se Deus estava o punindo por ter um padre como confidente agora, ou se devia estar feliz por ter alguém que não lhe pedisse para contar sobre sua vida. — Quer ficar pra conversarmos? — Harry interrompeu aquele momento e fez o convite, transparecendo aquela calma que Louis estava tentando ter em seu coração também, mas que se negava por preferir ser do jeito que realmente era. O mais baixo pensou por um segundo e desviou os olhos para sua mãe que parecia animada se aconselhando com Morgan, claramente dizendo que seu filho tinha mudado de uma forma milagrosa e que todas as suas preces foram ouvidas. Ele não sabia mais se negar era falta de vontade mesmo ou apenas birra. Porque ele queria, ele queria ficar, não sabia porque, mas queria, Mas, por outro lado, também não queria ceder e soar fácil demais. E Harry ainda o encarava esperando pacientemente uma resposta. A julgar pela expressão do jovem padre, Louis pensou que ele poderia esperar por quatro horas sem se irritar, o que passava uma sensação estranha já que ele mesmo não tinha aquela coisa de ser uma pessoa paciente e esperar algo que não fosse de forma rápida das pessoas. Era um tremendo imediatista e Harry conseguia lhe irritar sendo calmo daquele jeito. Dois opostos gigantescos. — Não vai desistir, não é? — Ele perguntou realmente querendo saber, querendo prolongar o assunto da forma mais óbvia possível, gostava de deixar as coisas claras e limpas, por mais que jogar por entrelinhas fosse sua arte maior. Ele já tinha percebido com o tempo que as pessoas desistiam dele, desistiam de suas conversas e perdiam a paciência pelo seu jeito difícil, mas notou que Harry estaria ali por ele não importa quantas horas passassem. — Deus o colocou no meu caminho e, se você for minha missão, tenho que completá-la. — O padre quase filosofou, soando ameno e passivo. — Então é disso que se trata? — Tomlinson montou sua postura defensiva, soando ríspido. — É sua obrigação divina? E aí estava seu grande problema com todo mundo e parecia que Harry não era uma exceção à regra. Por um momento Louis se sentiu amargurado, queria mesmo tentar entender a linha de pensamento do padre, já que imaginou que o momento estava bom demais para que fosse verdade. — Lou, filho, vamos? — Johannah interrompeu a conversa, quebrando aquela bolha particular onde os dois ficaram trancafiados por mais minutos do que imaginavam. — Ele vai ficar. — Harry respondeu antes que Louis pudesse se manifestar ou dizer a mãe que estava a caminho. — Estava aqui justamente dizendo a ele que eu me importo e quero conversar mais sobre o sermão de hoje com ele e, pessoalmente o levo em casa. — Era engraçado o padre dizer isso já que Louis era mais velho que ele. O mais baixo arregalou os olhos e encarou Harry extremamente surpreso por como aquilo estava acontecendo, porque não imaginava uma atitude assim partindo daquele homem. Legal, padres contavam algumas mentiras de vez em quando. E lá estava aquele moreno alto sorrindo travesso de novo, de uma forma que Louis não conseguia muito bem entender mas que era confortante de uma maneira estranha. — Tudo bem, filho? — Johannah perguntou um pouco surpresa, por seu filho não ter relutado em querer ir embora ou alguma coisa do tipo, o que com certeza faria se fosse semana passada, por exemplo. — Tudo. — Ele respondeu olhando o padre e segurando o riso, por mais que não fosse um ator muito bom em esconder qualquer coisa. Ela deu um beijo no rosto do filho, pediu a bênção ao padre Harry e se dirigiu à saída da igreja, acenando de longe antes de descer as escadarias que davam acesso ao local que agora era iluminado por um sol suave e extremamente calmo. — Está mentindo pros seus fiéis agora? — Ele perguntou capcioso, daquele jeito um tanto instigante mas que era habitual. — Não estou mentindo. — Harry respondeu, levantando uma sobrancelha. — Você quer ficar. — Quem disse? — Louis riu, desafiando a boa vontade do outro que também era misturada a um humor estranho vindo de alguém que era tão divinamente incomum para estar ali. — Seus olhos. — O padre respondeu ao mesmo tempo que indicava um banco na frente, perto do altar, pra que o outro sentasse, se conseguisse, claro, já que corou instantaneamente. Louis estava começando a se sentir incomodado por gostar daquela situação. O que certamente não fazia nenhum sentido, é verdade, mas quando ele se sentou no banco ao lado de Harry, era como se tudo aquilo fosse exatamente do que ele precisava, como se aquela paz que emanava tão fortemente do homem do seu lado fosse algo que ele estivesse muito afim de querer para si também. — Eu gostaria de saber sobre a sua doença. — O padre foi direto, mas suave, querendo não soar invasivo por mais que ele realmente fosse distante daquilo. — Vou morrer em cinco meses. Próximo tópico. — Louis respondeu indiferente, como se tivesse falando do seu café da manhã, já que era tão acostumado a ouvir coisas como "me explique sobre" ou "você precisa entender isso ou aquilo". Era tão cansativo que virou comum. — O que você tem? — Harry insistiu, pacientemente e o menor suspirou. O padre sorriu de leve e pôs uma das mãos sob o ombro de Louis e ele baixou o olhar, franzindo a testa e passando aquela onda de confiança. — Ouviu o que eu disse antes, não é? Eu me importo. — Não quero ser sua missão. — Lembra-se o que eu falei sobre religião antes? Você não é o caminho, você é o objetivo. — Você é gay? — Louis foi ofensivo, mesmo que estivesse ciente que a sua frente tinha um padre com ideias muito bem conclusivas. — Não. — Harry respondeu tranquilo, não parecendo afetado como aquilo tinha soado. — E você? — O que? — Ele achou que aquele cara não podia estar falando sério, não como se o que tinha de masculinidade em si tivesse sendo afetada, mas porque não esperava que a pergunta tivesse sido retorquida para si mesmo. — Por que se incomoda em falar da sua doença e sua sexualidade? — Harry ainda o encarava de forma gentil e Louis não sabia se o padre era realmente ingênuo àquele ponto ou apenas estava planejando algum jogo estranho para seu lado. Tomlinson respirou fundo e até se sentiu desafiado, olhou para o padre mas não viu nenhum sinal agressivo, o que lhe dava uma agonia incontrolável, tirava seu resto de calma e o que tinha de paciência em seu corpo minúsculo. — Você nunca sai do sério? Nada te irrita? Essa tua paciência me irrita... Explode cara, fala que sou um ingrato com a vida, um infantil, que como eu estou agindo é injusto, culpando tudo e todos por causa de uma obra que é na verdade do destino! — Ele se exaltou e estava claramente sendo guiado pela emoção, mas precisava daquele momento pois sabia bem que não seria julgado por um lado — E, pra completar, sim, eu sou gay, e Deus deve me odiar por isso também... Você é padre, você serve a ele, você não deveria falar comigo, ou deveria então dizer que "preciso aceitar Deus na minha vida porque, além de um câncer sem sentido, eu ainda sou um herege" não é? Quer dizer... um pederasta! Louis cobriu o rosto com as mãos e Harry apenas ouviu o desabafo em silêncio, querendo alcançá-lo mas antes precisava encontrar o momento certo. Ele sentiu que era o começo do que precisava para fazer o homem do seu lado se abrir mais, deixar com que seus pontos fortes fossem evidentemente claros assim como o que lhe afetava mais pudesse ser colocado em pauta também. O que o surpreendeu foi justamente a forma como ele falou, de saber de tudo aquilo conscientemente. Louis levantou a cabeça devagar, deixando-se levar naquela onda de emoções e o padre pôde ver que ele estava chorando. Harry sentiu-se incapaz por um segundo, pensou em mil coisas no momento mas acabou por fazer a mais óbvia: abraçou o mais baixo que, um pouco relutante, o abraçou de volta. Ele queria tirar toda a dor daquele homem e jogar de lado, porque sabia bem que por trás de toda aquela casca machucada, tinha alguém tão completo e que merecia o mundo inteiro se possível. Os segundos em que ficaram naquilo, Louis se sentiu de verdade um pecador por gostar de sentir o cheiro daquele homem e, devagar, correu os dedos pelos cabelos escuros que caíam naquele tecido preto do qual sua cabeça estava encostada. A julgar pelo fato de que Harry não havia se afastado ou demonstrado incomodado, ele só achou que o padre interpretou aquilo como um carinho inocente qualquer, então fechou os olhos. Aos poucos ele sentiu seus cílios se deslocando das lágrimas, respirou fundo e foi se afastando com calma, se recompondo. Limpou o canto dos olhos e Harry continuou com aquele olhar compreensivo, deixando que ele comandasse a conversa do jeito que quisesse, já que tinham desenvolvido um passo íntimo diferente de antes. — Não sei se o senhor sabe, mas câncer no coração é raro. — Louis recomeçou, com certa dificuldade em falar do assunto mas parecia mais calmo depois daquele desabafo e do abraço do padre ter dado ao seu corpo uma sensação boa que era um tanto absurda. — Não, não sabia. — Harry respondeu sincero, mas era compreensivo de uma forma invejável — Ouvi apenas muitas teorias a respeito, mas não sei qual delas é verdadeira. — Cânceres dão em músculos lisos do corpo, o coração é estriado, não propenso ao câncer. — Ele explicou, repetindo o que todos os médicos haviam dito a ele, e tinha se tornado um discurso quando alguém o perguntava sobre sua doença, ele realmente havia decorado um roteiro que não possuía um final muito bom. — As células do tumor são células que se multiplicam muito rapidamente no tecido liso, o que não ocorre no núcleo de tecidos estriados. Além do fato das células sanguíneas não ficarem paradas ali, elas são bombeadas e por isso sempre renovadas... — Eu não sou médico, Louis. — Harry ouviu calmo e, como sempre, conseguiu achar algo de positivo naquilo, e se sentia bem em como a tragédia era algo longe do seu campo de visão.. — Mas eu sei que problemas no coração geralmente são fatais. — O menor agora olhou pra ele de maneira mais firme, como se apesar de esperar uma resposta daquele nível, pudesse ouvir qualquer frase que fosse daquele homem um dia inteiro — Você ainda teve um ano. Talvez devesse pensar na sorte que tem. — Padre, qual parte do "eu vou morrer e não tem nada que possa ser feito" que o senhor não entendeu? — Todos vamos morrer. — E todo mundo me diz a mesma coisa. — Você sabe que os que não são gratos, são punidos no Sétimo Círculo... — Harry lembrou-se da obra de Dante Alighieri e deu uma piscada de leve, movendo-se devagar pelo banco até sentir sua perna encostar na do outro. — Segundo Vale. — Louis complementou, e engoliu em seco com aquela aproximação repentina mas que era tão espontânea que seu corpo não reagia tão estranho assim. — Vale da Floresta dos Suicidas, canto 13. — Decorou o livro? — O padre brincou e soltou uma risada abafada, olhando para os lados e vendo que não tinha mais ninguém no local, então deu-se conta em como o assunto estava se estendendo, o que era incrivelmente bom. — Estava relendo antes de sair de casa. — Louis murmurou e notou que não tinha tirado os olhos do padre desde que iniciaram a conversa e por mais que tenha chorado na frente de alguém que m*l tinha conhecido, ele estava mais calmo agora. Era impressionante como aquele homem ao seu lado conseguia fazer isso com ele. — Repito, fico feliz que tenha decidido vir à missa. — O padre sorriu e, pela segunda vez, viu o sorriso de Louis aberto mais uma vez, como se eles combinassem sorrir ao mesmo tempo e criar aquele clima de compreensão absurda que podia ser sentido a quilômetros de distância. — Também acho que fiz bem em vir.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR