Can't say no to you

4926 Palavras
All these accidents that happen Todos esses acidentes que acontecem' Follow the dot Seguem um ponto Coincidence makes sense Coincidência faz sentido Only with you Apenas com você You don't have to speak, I feel Você não precisa falar, eu sinto Johannah não podia estar mais satisfeita com o ambiente que a rondava. Louis havia chegado em casa um tanto quanto tarde na noite anterior, ouviu quando ele bateu a porta do andar debaixo e ela já havia se deitado. Ela não estava preocupada, sabia que seu filho havia chegado com o padre Harry e estava bem. Companhia melhor impossível! De forma calma, preparava o café na cozinha por volta das oito e meia da manhã, cantarolando e se sentindo bem consigo mesma pela reviravolta repentina que estava ocorrendo em seu meio. Café bem forte, bolo e o rádio ligado. Era professora primária e logo sairia para dar aulas, coisa que gostava muito de fazer, não só pela ideia de distração do tempo e ocupação, mas porque realmente adorava lecionar. Louis parecia dormir desde que saiu do andar de cima e deu uma última olhada, mas ela deixou tudo arrumado em cima da mesa pro caso do filho resolver acordar mais cedo do que de costume. Saiu com calma e, m*l sabia, mas ele já estava em seu quarto acordado com um sorriso estranho no rosto. Já tinha feito sua higiene pessoal e, ao abrir uma gaveta a procura de uma camiseta, achou espalhada por cima da cômoda, duas partituras de quando costumava praticar piano. O olhar tímido para aquelas folhas de papel transformou-se em uma leve animação. Desviou o olhar pras suas próprias mãos e as sentia não mais tão leves quanto costumavam ser quando deslizavam pelo instrumento. Deixou de lado as partituras e apenas pegou uma camiseta. Estava pronto. Iria para seu encontro com o padre Harry. Se bem que era uma maneira um pouco estranha de classificar aquilo. Encontrar-se com um padre. Até ele já estava se achando brega demais, mas preferia pensar no lado positivo daquilo: não iria ficar trancafiado em casa e estaria tendo um tempo com alguém do qual ele estava aprendendo a gostar. Enquanto descia as escadas, ouviu a campainha. Deu uma olhada ao redor da sala e da cozinha e viu que sua mãe já havia saído. Ao atender a porta, deparou-se com ninguém menos que o moreno alto que vestia a batina habitual e trazia na face o mesmo sorriso tranquilo e belo de sempre. Mas havia alguma coisa diferente aquele dia, o olhar que antes era calmo, agora parecia transbordar expectativa e Louis gostaria de saber mais sobre aquele olhar e talvez, algo mais. — Ei. — Louis cumprimentou surpreso, franzindo o cenho por fitar aquele homem na sua frente mas sorriu sem perceber — Achei que íamos nos encontrar na sua casa. — Vou te levar a um lugar. — O padre respondeu simpático, mesmo que soasse um tanto quanto inesperado cada movimento que saía dele, não tinha uma possibilidade de alguém que o encare por muito tempo se sentir m*l com isso. — Está pronto? — O que? Não. — Louis negou com a cabeça e quis não soar tão grosso assim, por mais que não fosse lá muito fácil. — Onde vamos? — Vou uma vez por semana visitar o orfanato no fim da cidade, rezar com as crianças, levar a palavra do Senhor a elas. Gostaria que viesse comigo. — Harry dizia como se aquele fosse o melhor programa do mundo, mas para Louis, soava como o mais completo tédio possível. A divergência entre eles era tão absurda quanto o tipo de química estranha que era habitual quando eles se encontravam. — Está brincando, certo? — Ele riu incrédulo, mordendo o lábio de baixo e soltando ar dos pulmões. — Não vou a lugar nenhum pra falar do seu Senhor. — Você não precisa fazer nada. — O padre insistiu, demonstrando o quanto era paciente com a teimosia do outro. — Só me acompanhe! — Não, padre. — Louis continuou firme, sendo tão difícil quanto mover uma pedra com o sopro. — Faça o que tem que fazer. Remarcamos. — Por favor... — Harry diminuiu o sorriso e olhou para o menor com os olhos mais chantagistas que ele já vira na vida. Ele podia jurar que o padre conseguiria convencer até Deus de alguma coisa só se o encarasse daquele jeito. Parecia um filhotinho na chuva, pedindo pra ser resgatado ou implorando algum favor como mimo. — Vai te fazer bem. Tomlinson engoliu a seco e, de repente, se deu conta de que não tinha como dizer não pra aquele homem, até porque Harry parecia que não ia a lugar nenhum sem ele. Era estranho a forma como o padre conseguia desestabilizá-lo por completo, coisa que nenhuma outra pessoa conseguia fazer depois que ele descobriu sua doença. — Não vamos demorar, não é? — Ele suspirou resignado, querendo ser convencido por mais que a ideia de ir já estivesse pronta em sua cabeça. — Prometo que não levará o dia todo. — Harry voltou a mostrar as covinhas no rosto e o mais baixo se achou ainda mais ridículo por começar a prestar atenção naquilo, a ponto de se segurar pra não fazer um comentário sobre como era adorável e em como queria passar os dedos ali. Ele era padre e Louis parecia estar constantemente lembrando a si mesmo daquilo. — Vou pegar uma jaqueta. — Ele disse enquanto Harry o esperava na varanda da casa, deixando um vento calmo bagunçar aqueles cabelos tão grandes e volumosos. Emotional landscapes Paisagens emocionais They puzzle me Elas me confundem Then the riddle gets solved Então o enigma é resolvido XxX Louis tinha que admitir que Harry levava o maior jeito com aquilo. Desde que chegara, ele percebeu que se divertiria apenas recostado na porta, observando o padre brincar com as crianças após uma conversa em grupo com todos, onde rezaram, cantaram músicas infantis católicas e fizeram preces em forma de agradecimento por qualquer coisa boa que lhes havia acontecido aquela semana. O assustava um pouco como as coisas aconteciam ali, mas Louis já era conhecido por duvidar da fé alheia, e não queria fazer aquilo bem naquele local. — Padre! — Uma menina de, no máximo oito anos, chamou Harry quando ele estava improvisando um jogo de futebol com alguns outros meninos. — Podemos cantar? Ele a olhou de longe e correu pra onde ela estava. Um pouco ofegante, ele abaixou-se a fim de ficar na altura dela. Era adorável a forma como ele conseguia se mostrar atencioso a cada um, e em como gostava daquilo. Louis se perguntou como Harry era quando criança e o que gostava de fazer, queria tanto saber mais sobre aquele homem que ficar encostado naquela porta não o ajudaria a esvaziar a mente de tais perguntas, mas ao mesmo tempo, não se sentia tão íntimo ou amigo assim do padre para perguntar coisas do tipo. — Claro! O que você quer cantar? — Ele perguntou a menina e, imediatamente, várias crianças cercaram o moreno alto pra saber do que aquela conversa se tratava. — Podemos cantar aquela dos Indiozinhos? — Ela sugeriu e as outras crianças comemoraram, pareceram também gostar da ideia e de repente um coro enorme de pequenas pessoas começou a fazer o ouvido de Louis coçar um pouco. — Podemos ir pra sala de música? — Uma voz bem melosa surgiu, de uma criança um pouco mais nova que a que estava de frente para o padre, mas tão interessada e animada quanto. — Sim, padre, por favor! — A que sugeriu o nome da música insistiu ainda mais, fazendo todos montarem aquelas expressões que iriam conseguir o que quisessem só com os dentinhos brilhando em um sorriso. — Tudo bem, podemos sim! — Ele riu enquanto todos corriam na mesma direção, empolgadas. Ele olhou Louis e poderia jurar que um sorriso tímido aparecia em seus lábios enquanto ele via as crianças correrem, e igualmente podia jurar com a sua vida que aquele homem não fazia ideia que estava sorrindo daquela maneira. Ele chegou mais perto e tocou o ombro de Tomlinson que, imediatamente retomou a postura um pouco mais defensiva, especialmente agora que ele tinha reparado que o padre estava tão perto dele, com aqueles olhos verdes o encarando de cima a baixo. — Música, Louis. — Harry disse calmo e com certa expectativa, querendo soar tão persuasivo quanto realmente estava sendo. — Tem um piano na sala... — Não sei aonde quer chegar. — Ele respondeu automaticamente se fazendo de desentendido, mas com certeza tinha plena convicção sobre o que o padre estava querendo insinuar com aquela manha peculiar. — São crianças... — O padre sorriu e praticamente empurrava o mais baixo pelo corredor pra que ele fosse com todos até a sala de música. — Não vai dizer não a elas, não é? — Eu tenho que admitir que essas crianças têm algo a ensinar aqui sim. — Louis parou na porta da tal sala e observar as crianças se organizarem num círculo e discutiam quais músicas queriam cantar, e queria admitir o quanto aquilo era adorável. — Ah é mesmo? — O padre estava interessado em ouvir, como sempre estava cada vez que Louis montava qualquer frase que criasse aquele conflito vicioso neles dois. — Na hora em que fizeram as preces... — Louis lembrou-se do que se passara há alguns minutos quando encarava algumas crianças que se reuniram junto ao padre em um círculo na outra sala. Ele olhou uma das meninas mais velhas dali, tinha por volta dos doze anos e ajudava a organizar os menores. — Aquela menina ruiva ali... — Sarah... – Harry disse o nome da tal menina, uma ruiva com sardas embaixo dos olhos. — Isso. Ela fez uma das preces mais bonitas que eu já vi e olha que nem sou muito religioso. — Ele admitiu e o padre sorriu divertido, pois adorava quando aquele assunto em questão vinha da boca de Louis com certa ironia que não era ofensiva e se tornava engraçada. – Agradecendo a Deus pelas coisas mais simples que tinha na vida e... Justo um Deus que tem sido tão injusto com ela. — Por que acha que Deus foi injusto com Sarah? — O padre franziu o cenho e colocou a mão nos bolsos de sua calça escura, enquanto as crianças riam sobre algum tipo de piada infantil. — Padre, sejamos francos! — Louis encarou Harry com seu ligeiro ar de que sabia bem do que estava falando e tornou a falar novamente. — Que tipo de pessoa agradece por estar num orfanato? Quer dizer, pelo que eu entendi, ela tinha poucos meses de vida quando seus pais morreram num acidente de carro... Ela nem teve chance de conhecê-los. E ao que me consta, o tal acidente nem foi culpa deles. Digo... Quem agradece a Deus... Por isso? — Ele concluiu e pensou consigo mesmo que realmente não entendia a magnitude de uma pessoa com a espiritualidade do homem a sua frente, não saberia lidar com aquele tipo de situação, não era alguém tão empático assim também. — Sem parentes, sem ninguém? O moreno alto sorriu tranquilo, compreensivo. O padre voltou a olhar as crianças já organizadas, mas ainda conversando e voltou a olhar ao homem que era tão pequeno do seu lado que chegava a ser cômico e também um tanto gracioso. — Do tipo que estava no carro com os pais e, milagrosamente, não sofreu nenhum arranhão num veículo que deu perda total. — A voz do padre era calma e, pela primeira vez desde que se conheceram, Louis não tinha uma boa resposta, agora estava daquele jeito onde revirava sua mente procurando alguma coisa esperta o suficiente para dizer, mas não conseguia, então apenas suspirou. — Acredito que seja motivo o bastante para agradecer. All that no-one sees Tudo o que ninguém enxerga You see Você vê What's inside of me O que tem dentro de mim Every nerve that hurts, you heal Cada nervo que dói, você cura Deep inside of me Bem dentro de mim You don't have to speak, I feel Você não precisa falar, eu sinto — Padre! Vamos logo! — A pequena loirinha que havia sugerido que cantassem estava ansiosa, surgiu por entre os dois e os encarava com os olhos animados. — Certo, certo! — Harry afastou-se um pouco de Louis e ficou entre as crianças. — Vamos começar pela dos indiozinhos, tudo bem? — Tudo! — Todos responderam em coro enérgico, fazendo Louis sorrir novamente sem perceber. — Louis... – O padre chamou pelo mais baixo e apontou para o piano com calma, querendo fazer aquilo realmente acontecer de alguma forma. — Quer fazer as honras? — Eu não conheço essa música. — Mentiu descaradamente e limpou a garganta, porque é claro que ele conhecia. Quem não conhecia uma droga de música infantil com três notas diferentes apenas e que somente se alternavam? Pra quem tocava Beethoven, Mozart, Bach e Chopin com perfeição, uma música infantil que falava de índios e seus botes não era absolutamente nenhum problema pra ele. Harry franziu o cenho estranhando, é claro, a colocação, mas percebeu que tocou num ponto fraco de Louis, um ponto um tanto sensível que acabou por fazer com que ele se sentisse m*l por alguns segundos, porque não queria ser invasivo daquela forma. Era como se tocasse na ferida de um animal enjaulado e machucado. Definitivamente insistir só o faria ficar mais agressivo. — Ah qual é! — Um menino de aproximadamente dez anos, que usava óculos, se aproximou sem cerimônias no piano. — A irmã Claire nos ensinou nas aulas de música. É muito fácil! — O menino, com algum esforço, sentou-se no banco do piano, ergueu a tampa e retirou a case, a capa que protegia as teclas do instrumento e, antes de começar, olhou curioso para Louis que ainda estava parado na porta apenas observando o que estava para acontecer, mesmo que seu coração estivesse a mil por hora, ele precisava transparecer indiferença quanto àquilo. — Você não sabe tocar essa música? Você não deve ser muito bom então. — Não sou. — Louis sorriu de canto, sem graça e foi o melhor sorriso que o padre conseguiu arrancar dele até aquela hora da tarde, então Harry balançou a cabeça como se estivesse negando alguma coisa, mas na verdade queria apenas memorizar a cena daquele homem com um sorriso sincero daquele jeito que acabou de ver. — Mas pode ser que ele esteja apenas aprendendo ainda, não é? — A menina loirinha, dona da ideia de ir pra sala de música, mais uma vez se manifestou. — Não é mesmo? Você ainda está aprendendo, moço? — Reaprendendo. — Tomlinson respondeu e sentiu-se um pouco desconfortável por ter tantos olhos em cima dele. — Eu... Preciso aprender novamente como se toca. — Dessa vez ele respondeu olhando para o padre que finalmente entendeu que não se tratava de técnica, e sim de sentimento. Recuperar sua vontade, sua paixão e a dedicação que outrora ele teve pelo piano. — Você esqueceu como se faz? — O menino que subiu ao piano perguntou de forma curiosa, com a testa franzida em dúvida. — Pode-se dizer que sim. — Louis respondeu com um leve tom de mágoa, lembrando-se de como tinha o piano como um amigo íntimo e em como aquela sensação de deslizar os dedos enquanto a lua iluminava sua sala lhe fazia bem; sentia falta, mas não sabia bem como recuperar tudo isso. — Tudo bem, vamos começar? — Harry percebeu como o outro estava se sentindo então interrompeu assunto, dizendo calmamente para as crianças voltarem a se posicionar ao redor do instrumento, e pedindo para o menino sentado ao banco, dar início aos primeiros acordes da música. A canção era a mais simples possível, já que se tratava de uma repetição infinita da mesma coisa. Era uma música infantil e, Louis apesar de perceber que o instrumento estava levemente desafinado, talvez por ser muito antigo e não muito bem cuidado, percebeu que não sairiam grandes cantores dali. Ele sorriu e olhou no rosto de cada criança que, vigorosas, cantavam a tal música sobre índios querendo atravessar um rio. Aquele som conhecido não passou despercebido por ele, tampouco, pareceu comum. Há tempos ele não ouvia aquela melodia que saía de um instrumento tão nobre e ímpar. Aquilo entrou em seus ouvidos de forma a fazer ferver seu sangue. Ele podia jurar que até seu coração batia diferente. Lembrou-se dos grandes concertos que estava prestes a conhecer e até dar em cidades como Montreal, Mônaco e Barcelona. Isso sem mencionar sua bolsa oferecida pela escola Metropolitana de instrumentistas de Moscou. Uma onda de muitas emoções misturadas lhe passou à cabeça apenas com aquela melodia simples, infantil e, por que não, até sem nenhuma dificuldade em se saber tocar. Ele não deixou de observar também que padre Harry cantava animado junto com as crianças e, o menino sentado ao piano, fazia um certo esforço para não se perder nas notas. Ele respirou fundo e, lá iam todos começar a droga da música de novo. Louis sorriu aberto ao perceber a facilidade em como aquilo se desenrolava e Harry sorriu de volta, entrando naquela sintonia única. XxX — Mentiu pra mim. — Louis disse enquanto caminhavam em direção à sua casa, dando passos calmos, não pareciam com pressa de estar em lugar nenhum porque por mais que fosse difícil admitir, gostavam da presença um do outro de um jeito que era complicado explicar também. — Eu? — O padre se surpreendeu por um minuto olhando para um Louis despreocupado. — Em que eu menti pra você? — Disse que não levaria o dia inteiro. — Ele respondeu e sorriu daquele jeito, como se sempre estivesse disposto a iniciar alguma coisa, qualquer coisa que prolongasse o assunto entre os dois. — Não foi uma mentira. — Harry também riu e defendeu-se, deixando a manha de padre de lado, por mais que esse fator em si não deixasse com que ele transparecesse na verdade ser realmente um. — Eu só calculei o tempo errado. — O moreno riu ainda mais. Ele realmente tinha que admitir que perdera a noção do tempo. — Está reclamando? — Não. – Louis respondeu e pensou por um segundo, apenas viu o padre concordar com a cabeça enquanto sorria. — Mas não muda o fato de que você me enganou! — Claro que não enganei! — O padre gargalhou agora e o mais baixo sorriu mais aberto apenas por escutar aquele som. Era engraçado ver o padre numa postura mais relaxada e não tão "santa". Rindo daquele jeito, jogando a cabeça pra trás e passando as mãos pelos cabelos ondulados, fazia Louis se perguntar por que diabos um homem como aquele resolveu seguir aquele caminho. — Você veio porque quis! Poderia ter dito não. — O padre sorriu com os olhos se fazendo de desentendido, entrando no jogo do outro. — Ah é? — Foi a vez de Louis rir de forma exagerada. — Como se alguém fosse capaz de dizer não pra aquele seu jeito de olhar... — Ele parou de rir quando se deu conta do que estava realmente falando, de como aquilo soou tão natural mas ao mesmo tempo estranho. — Jeito de olhar? – Harry agora encarava de uma maneira curiosa e divertida para Louis. Era tão ingênuo que não conseguia captar certas coisas que passavam bem diante de seus olhos. — Que jeito de olhar? — Aquele... Aquele que você faz, parecendo um... — Louis olhava um pouco sem graça para o padre e gesticulava com uma das mãos procurando a palavra certa, então revirou os olhos achando aquele termo mais apropriado. — Um filhotinho, sabe? — Eu faço isso? — Harry ria novamente, surpreso que Louis estivesse reparando nesse tipo de coisa. — Bom, se você diz... Tomlinson apenas balançou a cabeça negativamente recriminando a si mesmo por falar aquilo. Era... íntimo demais. Era um pouco distante, mas ele não conseguia controlar muito bem a sua boca e talvez a forma como o padre reagisse aquilo o deixasse mais confortável para falar, mas mesmo assim, era um tanto estranho e ele não conseguia tirar isso da sua cabeça. Eles andaram em silêncio por mais alguns segundos até chegarem ao portão da casa de Louis. Pararam e ficaram frente a frente, um parecia esperar o outro começar a falar, tentando achar mais palavras que já não tinham sido ditas em meio a tantas conversas que já desenrolaram. Louis não aguentou sustentar aquele olhar invasivo do padre pra cima dele, como se não apenas quisesse, mas conseguisse ler a sua mente apenas de olhar em seus olhos. — Você quer...? — Ele quebrou o silêncio, indicando a própria casa como num tímido convite para entrar. — Não, não. — O padre apressou-se em responder, negando com as mãos. — Não é de bom grado que eu esteja até tão tarde na rua. — Concluiu sério e Louis deu uma sonora gargalhada, não conseguia se controlar em relação aquele tipo de coisa. — Não está falando sério, não é? — O mais baixo perguntou olhando desconfiado para o homem confuso a sua frente. — Por que não estaria? — O padre retribuiu o olhar não entendendo, daquela forma como se estivesse escutando algum tipo novo de linguagem. — Acho que "perdi alguma coisa"... — Ele sorriu só de ver Louis rindo daquele jeito, como se voltasse a acreditar na própria vida. — Você é um homem feito e tem alguma espécie de "toque de recolher"? — Louis, eu sou um padre! — O moreno respondeu como se fosse uma coisa óbvia que Tomlinson ainda não havia percebido. — Acha que posso chegar a hora que quiser? Tenho compromissos logo cedo. Orações, temos a missa de manhã e... — Por que? — Ele interrompeu o outro, antes que terminasse de ouvir o que ele tinha a falar. — Quer saber por que temos missa pela manhã? — Harry perguntou confuso, semicerrando os olhos. — Não... — Louis pôs as mãos nos bolsos e, de repente, se deu conta do quanto aquilo lhe causava certa curiosidade, fazia com que ele coçasse a palma da mão. — Por que você é... padre? Bom, estava aí uma pergunta que Harry não esperava ouvir do outro, que agora o encarava pacientemente por mais que fosse difícil notar esse tipo de sentimento em Louis. Ele respirou fundo como se procurasse a maneira certa de contar já que, fosse o motivo que fosse, não importava, Louis arrumaria um jeito de retrucar, julgar e recriminar, como sempre fazia naqueles joguinhos que iniciava por puro prazer. — Minha mãe teve um problema quando ficou grávida de mim. — Pacientemente, Harry começou a contar, mesmo que um aperto no seu peito sempre estivesse presente ao lembrar daquilo, sempre o corroía de alguma forma por mais que o tempo tivesse o curado de pensar naquilo. — Quer dizer, eu tinha apenas vinte por cento de chances de viver e, todos os médicos a aconselhavam a fazer um aborto. Mas ela se negou terminantemente, mesmo sabendo que a vida dela estava em risco. Os médicos disseram à minha que, se eu sobrevivesse, provavelmente viria com alguma disfunção genética, algum problema sério. Eu não seria uma pessoa normal. — Styles podia observar que, enquanto falava, Louis nem piscou, pareceu bastante interessado em cada palavra detalhada da boca do padre. — Então ela fez uma promessa... Se eu nascesse saudável, iria servir a Deus. Ele concluiu e o mais baixo nem sabia por onde começar a falar. Não tinha uma opinião sobre aquilo, tudo virou numa discussão ética na sua cabeça e, tudo era tão confuso, que ele não sabia se criticava ou não. Se saudava o destino, pela escolha que fez a mãe de Harry fez, ou se realmente tinha a mão de Deus naquilo. O conflito de ideias em seu cérebro era tão grande que ele não conseguia formular algum tipo de pergunta sem soar inconveniente demais ou com pena demais, coisa que ele não queria por nada nesse mundo. — E onde estão seus pais? — Ele perguntou, limpando a garganta e baixando o tom de voz, já que sempre estava com o volume um pouco alto demais, e mesmo sentindo-se um tanto triste pelo que acabou de ouvir, aquilo foi a única coisa que ele conseguiu perguntar. — Morreram. — Harry respondeu sereno e Louis arregalou os olhos, incrédulo pelo que estava presenciando e mais assustado ainda por ouvir aquilo com tanta naturalidade. — Minha mãe morreu ao me dar a luz e, meu pai, quando eu tinha 15 anos e estava entrando no seminário. — Como? — Louis perguntou ainda boquiaberto. — Por que não desistiu dessa loucura? Quer dizer, sua mãe morreu na circunstância mais irônica possível, e seu pai, justamente quando você teve a chance de dizer não... — E por que eu diria não ao seminário? — E por que diria sim? Quer dizer, não tinha a ver com você, sua mãe não deveria ter comprometido a sua vida numa promessa desse tamanho — Acha que minha vida é assim tão r**m? — O padre sorriu e mantinha o tom calmo, pacífico como uma manhã de domingo onde Louis gostaria de passar diversas horas aproveitando apenas o som suave que saía daqueles lábios tão vermelhos. — Por que se incomoda em eu ser padre? — Eu apenas acho que o faz por razões erradas. — Tomlinson respondeu após pensar um pouco naquilo tudo já que não se incomodava de verdade, apenas não achava que o que acabou de ouvir fosse uma resposta convincente, não saberia exatamente o que escolher, mas seria mais lógico do que sentimental em sua decisão. — Digo, Deus não foi exatamente justo com você. — Não acho que isso tenha a ver com Justiça Divina, Louis... — Harry tentava acompanhar o raciocínio do outro, por mais que fosse difícil entrar naquela mente confusa ele estava ali para fazer aquilo e sua graça era praticamente intocável, o que para muitos era invejável. E, além do mais, Louis não o perturbava em absolutamente nada, nem mesmo em um um por cento. — Na verdade, acho que você está muito apegado a isso... Deus escreve certo por... — Linhas tortas. — Ele interrompeu o padre um pouco impaciente, revirando os olhos devagar sem se importar que o outro notasse aquilo. — Ok, eu só achei eu você faria todo um discurso sobre vocação, sobre sempre ter querido ser padre, sobre o quanto isso era grandioso na sua vida, mas... ao que me consta, isso soa mais para obrigação da sua parte. — Estou ótimo, acredite. — Harry ainda encarava o outro daquela forma como se tentasse ler seus pensamentos, como se lutasse para decifrar o que quer que se passasse por ali e por mais que não tivesse compartilhado muitas vezes sua história de vida, não se importaria de dividir cada detalhe sobre sua existência com aquele homem de estatura pequena a sua frente. — Não precisa se preocupar comigo. — Não estou. — Louis rebateu, erguendo uma sobrancelha. — Foi só uma opinião. — E eu a respeito. — Styles resolveu acabar com a discussão já que o outro já parecia exaltado e, totalmente sem nenhum motivo aparente para isso. Eles ficaram ligeiramente desconfortáveis por alguns momentos, longos momentos que pareciam durar séculos para ambos que tentavam tirar aquele aperto estranho no coração, como se tivessem tido uma primeira discussão. Louis passou as mãos pelo rosto e já pensava em se desculpar com o padre por ter sido invasivo demais ou por qualquer coisa que tivesse feito. Realmente achou que estava ultrapassando alguns limites ali. — Eu acho melhor eu ir então. — Harry estava sereno e sorriu de leve para um Louis um pouco agitado demais e por mais que fosse transparente, aquele homem era como um enigma constante, podia estar tão bem uma hora quanto completamente indecifrável em outra. Mas o padre sabia bem driblar esse obstáculo em si e não precisava de muito esforço. — Boa noite, Louis. — Tá bem, hum... Boa noite... — O mais baixo hesitou em dizer, realmente pareceu que não queria que Harry fosse embora e, apenas encarou a batina n***a do padre andando de volta até sua casa, a canônica da igreja, o deixando sozinho no portão. Louis observou o moreno ainda cumprimentar discretamente algumas pessoas que o olhavam com muito respeito, até ele sumir de seu campo de visão. Ele não sabia muito bem o que estava acontecendo. Pensava muito em tudo enquanto entrava em casa, com cuidado para não se perturbar demais com aquela imensidão de pensamentos caóticos. Ele não havia feito isso há um bom tempo: literalmente parar pra pensar em tudo que sua vida, ou o que restava dela, estava se transformando. Johannah certamente iria querer saber de tudo o que acontecera e, enquanto ele entrava de vez no ambiente, não se deu conta que murmurava a canção dos indiozinhos quando fechou a porta. Emotional landscapes Paisagens emocionais They puzzle me - confuse Elas me deixam confuso Then the riddle gets solved Então o enigma é resolvido And you push me up to this E você me puxa para este State of emergency, how beautiful to be Estado de emergência, como é belo ser Is where I want to be É onde eu quero estar
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