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4085 Palavras
A música do capítulo é Wanderlust, da Björk x.x.x I am leaving this harbour Estou deixando este porto Giving urban a farewell Dando à urbanização uma despedida Its habitants seem too keen on god Seus habitantes parecem fanáticos por Deus I cannot stomach their rights and wrong Eu não posso engolir seus certos e errados Harry fez todas as suas costumeiras orações antes de dormir, benzeu-se duas vezes e se deitou na estreita cama de solteiro da casa canônica para padres, a poucos metros da igreja. A janela do quarto permanecia aberta mostrando uma lua cheia petrificante e redonda, a casa era relativamente alta e não apresentava perigo. Além do mais, ninguém, em plena Roma, se atreveria a assaltar uma casa paroquial ou sequestrar um padre. O problema para Harry é que o sono não vinha. Já havia se tornado um hábito dormir naquele horário e ele não estava entendendo porque não conseguia pegar no sono. Fechou os olhos e respirou fundo sentindo sua cabeça descansar no travesseiro. Alguns segundos e nada, ele simplesmente não conseguia relaxar. Certo, ele não tinha sono enfim. Tudo bem até aí. Mas ficar pensando em Louis é que era estranho, estranho de uma forma que ele não conseguia muito bem entender. Preocupação. Era isso. Só podia ser isso: estava preocupado com o rapaz, mas feliz ao mesmo tempo já que parecia que ele estava apresentando progressos com toda a conversa e aproximação que estavam criando durante os dias que passavam juntos. Ir ao orfanato com certeza fora uma ideia brilhante por parte do padre, e ele podia jurar que viu alguns olhares comovidos de Louis para aquelas crianças algumas vezes, sabia bem que ainda tinha algo a buscar naquele homem, algo que ele queria alcançar. E o piano era a outra parte da história. Ele notou a forma como ele olhava o instrumento e o quanto sua postura mudou ao ouvir as primeiras notas. Ele sorriu sem se dar conta, estava feliz por ajudar. Harry já tinha entendido o tamanho da i********e do rapaz para com o objeto musical, era uma ligação que ele faria de tudo para que tivesse volta, pois sabia o quanto Louis ficou completamente estasiado de felicidade naquele momento. Novamente Harry começou uma prece. Não uma daquelas prontas, uma só dele, como uma boa 'conversa' com Deus, não pedia nada, apenas agradecia e sentia-se fazendo seu diário mental. Repassava como havia sido seu dia, pensava no que tinha aprendido com ele, era realmente um homem otimista e gostava de ser daquele jeito. Depois de conseguir relaxar a mente, finalmente dormiu. E a última imagem que lhe passou pela cabeça foi a de Louis sorrindo tímido para ele enquanto falava da 'cara que Harry fazia' para conseguir algo. m*l podia acreditar que Tomlinson percebera o quanto conseguia ficar vulnerável perto dele. I have lost my origin Eu perdi a minha origem And i don't want to find it again E eu não quero encontrá-la novamente Rather sailing into nature's laws Prefiro navegar dentro das leis da natureza And be held by ocean's paws E ser preso pelas garras do oceano Johannah só faltava pessoalmente cobrir Louis na cama e beijar a testa dele para dar boa noite. Ele achava o cúmulo o modo como sua mãe lhe tratava: um homem feito, de 32 anos, parecia ser uma criança de seis. Ela o acompanhou até a porta do quarto segurando em uma de suas mãos, como se o guiasse e passasse algum tipo confiança a ele. — Mãe, eu não tenho mais medo do escuro, posso me deitar sozinho. – riu um pouco impaciente para a mãe que olhava da porta do quarto, querendo algo que nem mesmo ela sabia, mas estava se sentindo tão bem que poderia admirar a mudança drástica do seu filho uma vida inteira. — Você sabe que filhos nunca crescem para suas mães. – Ela respondeu rindo de forma graciosa e preparando-se para fechar a porta. – Boa noite, meu bem. — Boa noite, mãe. – falou enquanto se deitava na cama e sua mãe fechava a porta de vez. Ele podia adivinhar que ela iria rezar um terço todo em agradecimento antes de dormir. Era sua mãe e não ia mudar nunca. Depois que eles se mudaram para Roma, ela ficou ainda mais religiosa do que ele poderia imaginar ser possível. Louis deitou a cabeça no travesseiro e sentiu-se leve. Percebeu que não havia mais aquela indiferença entre dormir de noite e de dia. A noite havia chegado e ele realmente tinha no que pensar antes de pegar no sono. A sonora gargalhada do padre lhe fez ter vontade de rir pra si mesmo. Não era possível que aquele homem fosse real. No fundo, ele acreditava que Harry deveria estar de brincadeira, que não era padre, talvez algum agente secreto disfarçado? Em missão? De certo alguém estava atentando contra o Papa e ele fora enviado a Roma para proteger Sua Santidade, pois não existia possibilidade alguma nesse universo de um representante de Deus na Terra ser tão estranhamente bom em alguma coisa que não fosse falar do seu Senhor. Louis sabia bem em como o padre era bom em fazê-lo sorrir. E certo, agora ele já estava começando a divagar. Era o sono. Tinha que ser o sono. Ou estava era na hora de admitir que ele não queria que Harry fosse padre, era essa a verdade. Ele não queria que "existissem restrições carnais" quanto a algum tipo de relação estranha que ele estava idealizando em sua mente confusa. Lust for comfort Desejo por conforto Suffocates the soul Sufoca a alma This relentless Essa incessante Restlessness Inquietude Liberates me Me liberta Sets me free Me faz livre XxX Quem diria que Louis Tomlinson seria capaz de ir dois dias seguidos à missa? Sua mãe estava pronta para escrever algum relato e por na TV, ou algo assim, dizendo a todos que o que tinha em casa era um verdadeiro milagre. Ela tinha até medo que fosse bom demais para ser verdade, que estivesse feliz demais para ficar celebrando aquilo e que de uma hora pra outra, pudesse acabar. Mas de qualquer forma, não conseguia conter. Harry não presidiu a missa naquele dia, fora o sacerdote principal Jeffrey Dean Morgan. Louis prestou atenção, mas a visão do padre sentado em uma das cadeiras dos ministros ao lado do altar pareceu chamar bem mais a sua atenção. Trocaram até alguns sorrisos e o mais baixo até percebeu as caras feias de Harry pra ele quando notava que Louis não estava prestando atenção à missa pois não conseguia focar muito bem naquilo tudo, ou certamente, não conseguia ter algum foco que não fosse Styles. No final, é claro que novamente Johannah resolveu ficar para falar a sós com o padre Jeffrey e, seu filho não sabia porque, mas ela queria se confessar. Ele não ia reclamar, ele até queria poder ficar para poder falar com Harry, mas não ia deixar isso tão evidente assim, não conseguia ser tão fácil ou ceder de alguma forma, por mais que o padre tivesse algum tipo de poder persuasivo sobre ele. Mas ao olhar ao redor não avistou Harry ao fim da missa, apenas Jeffrey. Andou até o altar, perto de uma pequena capela, procurou e nada, não viu o moreno alto por ali. — Moça, a senhora viu Harry? – Louis perguntou para uma das mulheres que também esperavam sua vez para falar com Jeffrey, ela tinha uma aparência um tanto estranha mas não era tão intimidadora quanto ele mesmo. — Padre Harry? – Ela repetiu estranhando um pouco a i********e com que o homem se referiu ao outro. — Isso. – Ele respondeu tímido. – Padre Harry. – Deu ênfase como se lembrasse a si mesmo o que ele era, já que mesmo de batina preta o dia todo, era difícil de acreditar naquilo com cem porcento de certeza. — Ele está na sacristia. – Ela respondeu semicerrando os olhos e tentando entender a falta de fé evidente que Louis demonstrava com facilidade, porque a igreja só era convidativa o suficiente a ele se fosse por algum objetivo, e bom, o padre estava se tornando este objetivo por mais estranho que soasse. – Acredito que esteja trocando de roupa. Os padres tiram a batina branca após a missa. — Claro. – Louis respondeu como se fosse um grande conhecer que havia se esquecido de um detalhe, mas na verdade não fazia ideia de como era a rotina de um padre ou o que eles faziam fora daquela vida, conhecia somente Harry e dele sabia bem pouco, pouco o suficiente pra ficar desacreditado de que fora da igreja ele era realmente alguém legal, não imaginava que havia outros como ele espalhados pelo mundo. – Vou até lá então, obrigado. — Você o que? – Ela arregalou os olhos, incrédula como se tivesse ouvido uma blasfêmia do pior tipo. – Como assim você vai até lá? — A gente não pode ir até lá? – Louis murmurou com a voz baixa, sorrindo tímido, sentiu suas bochechas corarem instantaneamente. Não fazia ideia daquilo. — É claro que não. – A moça respondeu o reprovando completamente. Balançou a cabeça negativamente e saiu de perto dele, como se tivesse ao lado de uma aberração.. — "É-claro-que-não". – ele imitou a voz da mulher e o jeito dela falar quando ela se afastou, praticamente fazendo uma careta, ignorando aquilo e tentando tirar da mente o quanto alguns fiéis não relutam em demonstrar algum tipo de fanatismo. — Senhora Malik pode ser um problemas às vezes... – Harry surgiu de um lugar que Louis nem podia dizer de onde. Ele fazia isso constantemente, assustava e era um pouco estranho. Então ele riu do jeito infantil de Louis que parecia um aluno do primário imitando a professora quando ela virava as costas. — Ei... – ele riu de si mesmo, mas ficou vermelho novamente. – Só estava... – tentou se explicar, mas era óbvio que nada podia ser feito naquelas circunstâncias, foi pego no flagra e ainda fez isso de baixo de um local um pouco inapropriado, mesmo que no fundo não se importasse. — Tudo bem. – Harry riu, mostrando as covinhas, e Louis podia jurar que até ficou mais calmo só olhando aquele homem e admirando toda a forma calma que o rodeava sempre. – Está virando um frequentador assíduo da casa do Senhor... – O padre falava com uma felicidade suprema, como se realmente tivesse ganho a vida toda do outro para Deus ou algo do tipo. — Você fala de um jeito... – Louis riu do jeito ingênuo do outro. Era muito engraçado observar a forma como as palavras saíam quando ele falava, queria poder comentar aquilo também, mas ignorou – Você tem que me dizer quais são os dias que é você quem preside. — Padre Jeffrey deu um ótimo sermão, não? . – Harry respondeu sorrindo, mas depois fechou a cara como se estivesse pronto para dar alguma lição – Mas eu vi que você não prestou muita atenção. — Eu estava... distraído. – O mais baixo respondeu com um sorriso de canto, mordendo o lábio de baixo com certa timidez. — Posso saber com o que? – O padre perguntou curioso, franzindo o cenho e querendo saber o máximo possível do que se passava na mente daquele homem a sua frente – Está preocupado com algo? Alguma coisa tem te incomodado? — Não. – Louis mentiu com facilidade, já que não podia dizer que sua distração estava bem na sua frente, sorrindo pra ele. – Só gosto mais quando é você quem fala. — Está bonito hoje. – Harry o olhou dos pés a cabeça. Ele vestia um jeans claro e uma camisa azul. Simples, com botões da mesma cor e bem passada. A barba feita e o cabelo levemente arrepiado na franja. Ele nunca conseguia arrumar direito mesmo, então fazia algo qualquer para que estivesse aparentemente apresentável para algo. — Obrigado. – Ele respondeu um pouco envergonhado, com a voz baixa, encarando os próprios pés pois podia jurar que suas bochechas estavam em chamas. Ele gostaria de poder dizer o mesmo. Ele achava o mesmo. Ao contrário do que pensaria a maioria, sobre a dificuldade de se elogiar um padre que sempre vestia preto, branco ou cinza e exatamente o mesmo modelo de batina, ou no máximo como Harry estava agora, com uma calça social preta, camiseta simples e sapatos da mesma cor, e o detalhe branco na gola, indicando o sacerdócio, Louis apenas não o elogiara por achar que seria inconveniente dizer a um padre o que realmente pensava sobre a aparência dele. — Padre! – Johannah apareceu ao lado de seu filho, depois de se despedir do padre Jeffrey com uma reverência comum. – Como está o senhor? Que missa maravilhosa! – falava emocionada e Louis apenas segurou o riso entre seus dentes. — Estou ótimo, senhora. – O padre respondeu simpático enquanto recebia o beijo na mão que Johannah insistia em lhe dar, apesar dele não gostar daquele excesso de formalidade. Nem estava mais de acordo com sua geração. — Já fez o convite? – Ela perguntou a Louis o cutucando de leve no braço, despertando do que quer fosse aquele transe emocional dele com o outro. — Ainda não. – ele respondeu enquanto Harry o encarava curioso, com os olhos semicerrados – Estava prestes a fazer agora mesmo... — Convite? – O padre perguntou sorrindo de leve, não esperava algo como aquilo – A mim? — Gostaríamos que viesse almoçar em nossa casa, padre. – Johannah tinha um sorriso acolhedor no rosto, como se pudesse fazer este tipo de ação inúmeras vezes para qualquer pessoa possível, seu coração era um rio de felicidade – Seria um grande prazer! — Oh... – Ele sorriu mais aberto, surpreso, desviando o olhar da mulher para Louis, como se esperasse que ele dissesse algo, pois na verdade, gostaria que ele dissesse. — Seria mesmo. – reforçou o que a mãe disse num tom baixo, sem graça novamente, como em praticamente todos os minutos que estivera ali com aquele homem. O padre sentiu-se mais interessado no almoço por Louis dizer muito mais com os olhos do que com as palavras. Ele tinha essa particularidade com Tomlinson: saber exatamente tudo o que ele queria dizer mesmo que não dissesse, captava qualquer tipo de coisa naquele homem somente por aqueles olhos azuis que beiravam um oceano profundo. I feel at home whenever Eu me sinto em casa sempre que The unknown surrounds me O desconhecido me cerca I receive its embrace Eu recebo o seu abraço Aboard my floating house A bordo da minha casa flutuante O almoço correu perfeitamente normal. Harry elogiou a comida de Johannah, que praticamente comandou toda a conversa. Ela contou sua vida toda ao padre que, pacientemente, ouvia. Por vezes, Louis revirava os olhos pensando o quão incômodo aquilo tudo deveria estar parecendo aos olhos do outro, mas o padre apenas achava ainda mais graça. Havia um 'quê' de infantil nas feições de Tomlinson em alguns momentos e isso o divertia, fugia do seu padrão de seriedade que sempre o perseguia. — Então, logo depois que meu marido, pai de Louis , morreu, eu resolvi voltar a dar aulas. – Ela tirava os pratos da mesa e finalizava toda a história de sua vida de casada, mas não deixava de sorrir por contar algo como aquilo – Não queria ficar em casa remoendo a falta que sentia do meu marido. Louis era apenas um adolescente e, bem... – olhou orgulhosa para ele – Assumiu como ninguém o papel de homem da casa. – beijou a testa do filho e se dirigiu a geladeira após deixar os pratos em uma bancada. — Fico feliz em saber que superou a perda do seu marido de forma saudável. – Harry comentava, pacífico e sereno. – E, bem, conhecendo Louis agora, não poderia esperar outra coisa de um homem como ele. – Seus olhos verdes se encontraram com os do outro que eram ligeiramente dotados de um azul, mas que seguia a mesma sintonia convincente do outro. Louis não sabia nem o qUue responder. Apenas sorriu tímido e arrumou qualquer desculpa para sair dali. Aquele homem era perturbador demais para sua mente caótica, ele não sabia o que pensar muito menos em como reagir muito bem na presença do padre, queria tanto mas não podia. — Eu vou escovar os dentes. – O mais baixo disse enquanto levantava-se da mesa. Harry sorriu e assentiu com a cabeça. — Espere, Lou! – Sua mãe tentava lhe impedir quando ele subia as escadas em uma velocidade pouco rápida demais para alguém que, aparentemente, não tinha muita pressa para alguma coisa na vida. – Tem sobremesa! – Mas ele parecia estar fugindo daquela cozinha o mais rápido que conseguia. Johannah apenas balançou a cabeça negativamente sem se importar. Harry seguiu o outro discretamente com os olhos e percebeu a pressa com que ele subiu as escadas. Resolveu que não pensaria muito naquilo, até porque a mulher do seu lado já lhe dava um generoso pedaço de uma torta de queijo mascarpone. — Padre, eu nem sei como lhe agradecer. – Ela começou quando Harry discretamente arregalou os olhos achando que era torta demais e que não conseguiria nem mesmo ingerir um terço daquilo. – Louis está quase irreconhecível. — Eu fico muitíssimo feliz.. A senhora nem sabe o quanto! – Ele terminou a frase e provou a tal torta esquecendo-se por um momento que gula era um pecado. — Eu admito padre, que deixei a igreja como última opção, mas mais porque eu sabia da relutância que ele teria, o senhor entende que meu filho não é nem de perto alguém muito fácil, não é? – Johannah acrescentou soltando um riso abafado. – Mas quando o vi na paróquia, um rapaz tão jovem, quase da idade do meu filho, foi como se Deus me iluminasse, eu sabia que significava algo ter conhecido o senhor. — Louis é incrível. – Ele respirou fundo antes de continuar, sabia que precisava maneirar nas palavras – É inteligente... Crítico, é verdade, mas tem um coração que bate muito forte ainda. Eu sinto que ele precisa apenas ser trazido para a superfície de novo, precisa ter pelo que viver... É claro que a situação dele abala a estrutura de qualquer pessoa... – Harry nem se deu conta de que já falava com um largo sorriso no rosto apenas por se lembrar de quem realmente se tratava, quem era o dono daqueles elogios em comum. – Mas ele é realmente um homem de bem. E com certeza vamos fazer ele recuperar essa alegria de viver que ele tem contida. – comeu mais um pedaço da torta e Johannah apenas não conseguia parar de sorrir. – Porque ele tem, acredite. — Eu sei que sim, padre. – Ela tocou a mão de Harry em forma de agradecimento. – Mais torta? – Ela ofereceu e Harry negou freneticamente. Era engraçado como ele nem havia terminado de comer e ela já estava oferecendo mais, pensou por um momento que de repente podia ser a felicidade evidente estampada no rosto da mulher. Peel off the layers Descasque as camadas Until you get to the core Até que você chegue no núcleo Did i imagine it would be like this Eu imaginei que seria assim? Was it something like this i wished for Foi algo que eu desejei? Or will i want more? Ou eu vou querer mais? Mais uma noite em que o sono não vinha. Louis se lembrava de que m*l conseguiu se despedir do padre após o almoço. Sua vontade era que ele ficasse a tarde inteira ali, mas ele tinha algum compromisso com algumas tarefas da igreja. O que lhe deixava levemente eufórico é que ele prometeu que se veriam no dia seguinte. "Ré maior", ele pensou ao ouvir o sino da catedral badalar às duas da manhã. Fazia um bom tempo em que estava deitado, pensando em nada e tentando dormir. Não, não era bem essa a verdade. Sua mente não pensava em nada, ou pelo menos, esforçava-se para permanecer quieta, no entanto, seu coração batia descompassado dentro do peito, saltava num compasso que ia além do allegro, um ritmo que mesmo o mais talentoso pianista teria dificuldades de acompanhar. Não adiantaria ficar ali deitado. Precisava esticar as pernas, beber um copo de água, ver as estrelas na varanda. Talvez isso servisse para acalmar seu peito e permitir que ele fechasse os olhos e dormisse em paz. Saiu silencioso do quarto afim de não acordar sua mãe. Vestia apenas uma calça de moletom amarrada acima da linha do quadril. Os pés descalços não faziam ruído sobre o tapete antigo, de estampa avermelhada e bege, que cobria todo o corredor e descia as escadas até a sala de visitas. Quando chegou ao andar de baixo, notou que sua mãe, sempre tão cuidadosa e atenta a tudo havia se esquecido de fechar a cortina da janela lateral. A luz levemente alaranjada dos postes na rua entrava pelo vidro e, juntamente com o brilho bruxuleante das velas acesas para Nossa Senhora de Caravaggio, de quem sua mãe era devota, clareavam magicamente o piano de cauda quase no centro do cômodo. Louis tentou desviar o olhar do instrumento, mas era isso, o tempo todo, que seu coração pedia. Gritava. Implorava pelo som das teclas ecoando pelo ar. Um passo impreciso na direção do piano. Depois mais um. E sem que se desse conta, já estava diante daquele que havia sido seu companheiro e melhor amigo por anos e anos a fio. Agora, ele sequer piscava. Sentiu um nó se formar em sua garganta e os olhos se anuviarem com lágrimas grossas que teimavam em surgir. Balançou a cabeça querendo espantar aquela avalanche de sentimentos que se apoderava dele, mas foi em vão. De repente, amor, angústia, desespero, solidão, ânsia, revolta, descrença, fé, desolação... Tudo tomava uma proporção tão gigante que ele sentia que se não extravasasse, poderia ter uma síncope ali mesmo. Ainda não tinha coragem de tocar o belo piano, mas seu lado racional há muito perdera aquela batalha. Quando se viu, já havia sentado no pequeno banco e abria lentamente a tampa que separava seus dedos do teclado de marfim devidamente coberto pelo veludo vermelho. Engoliu em seco quando a luz da rua fez as teclas brilharem como se fossem feitas de ouro e, com os olhos fechados, esticou as duas mãos e as deixou descansar por alguns minutos sobre o centro do instrumento. E o peso da lágrima que finalmente escorreu de seus olhos foi só o que bastou para empurrar seu polegar direito para baixo e fazer o som da nota dó ribombar pelos cantos mais endurecidos de sua alma. Seus dedos estavam, de fato, sem a antiga agilidade com que antes brincavam, deslizavam, faziam amor com as teclas daquele instrumento. Mas sua alma ganhava um novo viço a medida que ele se permitia testar o som de cada acorde, cada trecho de suas obras favoritas. Um trecho de cada uma das Quatro Estações, de Vivaldi; depois Claire de Lune, a mais famosa de Debussy e que todo pianista deve saber; e ainda sua versão para Aída, de Verdi. A sensação que experimentava era única, indescritível. Avassaladora até. Aos poucos, se atrevia a acelerar um ou outro movimento, mudar o ritmo, criar. Sim, criar uma melodia que fosse só sua. Uma obra que marcasse seu renascimento, sua coragem saindo debaixo das pedras de medo e tristeza que ele mesmo havia colocado dentro de si. Louis já não sabia se a música que entrava em seus ouvidos é que lhe aquecia a alma ou se sua alma, por haver ganhado vida nova, é que fazia aquelas notas saírem por seus dedos. E a melodia que havia começado suave, como uma brisa acariciando a pele numa tarde de primavera, aos poucos ganhava densidade, peso e fazia com que o pianista ali finalmente entendesse o porquê de ter se mantido afastado daquilo que mais amava. A música lhe despertava exatamente o que ele tinha mais medo de ter: esperança. Quando o dia raiou, Johannah cruzou com o filho na escada enquanto ela descia para preparar o café da manhã e ele finalmente subia para dormir, carregando consigo uma partitura rabiscada. Um sorriso no rosto, um sorriso no olhar, e ela pôde sentir que o coração de seu filho sorria também.
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