A música do capítulo é Angel, do Judas Priest
x.x.x
Angel, put sad wings around me now
Anjo, ponha suas asas tristes em volta de mim
Protect me from this world of sin
Me proteja deste mundo de pecados
So that we can rise again
Então assim podemos recomeçar novamente
Na manhã que se seguiu, Johannah não teve tempo de esperar Louis para o café da manhã, e a julgar pela hora que o filho havia ido se deitar, ela achou que ele não acordaria cedo mesmo. Dessa vez, foi um dos melhores motivos que ela poderia esperar. Finalmente aquele piano havia soado novamente entre as paredes daquela casa, inundando o local onde a escuridão e o pavor já foi tão presente.
A viúva de Troy Austin há muito já havia feito todas as orações que conhecia em agradecimento a Deus. Apesar de ser uma mulher bastante devota, era bom não confundir com fanatismo. Era uma das poucas mulheres da sua geração que foram criadas a partir dos princípios católicos certos, e era uma mulher feliz por sua mãe não ter transformado a religião em uma seita, um tabu cheio de dogmas.
É verdade que é quase uma ironia, uma contradição de fato, usar as palavras 'catolicismo' e 'liberdade' na mesma sentença. Mas para Johannah, tudo isso era perfeitamente conciliável. Prova disso, é que já tinha acertado as contas com seu Senhor em relação à sexualidade do filho. Mulheres geralmente se transformam em verdadeiras leoas quando se tratam de proteger suas crias. E uma mãe sabe, sempre sabe. Louis nunca falou abertamente, mas também nunca fez questão alguma de esconder. O que restava para sua mãe era apenas aceitar e fazer aquilo que nem a ciência sabia explicar: amá-lo incondicionalmente. E esse amor somente elas, as mães, é que têm.
Junto com esse amor, vinha a aceitação e o respeito pelo filho, pelo homem que era Louis Tomlinson. Já dizia a avó dele ainda quando ele era uma criança: os filhos não são nossos, são do mundo, e são o espelho dos pais. Não importava pra ela quem seu filho levava pra cama. Ela estava plenamente satisfeita que ele fosse um bom homem, um bom filho, um ser humano de caráter e que respeitasse os outros. Estava num país liberal quanto a esse tipo de coisa apesar de predominantemente católico, e por isso sentia-se em paz. E sentia em seu coração que Deus concordava com ela.
Louis desceu as escadas da casa de seu quarto até a cozinha, extremamente sonolento. Esfregou os olhos, abriu a geladeira e pegou água. Um enorme copo de água. Aquele líquido gelado invadiu seu corpo de uma forma que o fez sentir como há tempos não se sentia: vivo.
Olhou de longe o piano ainda aberto, as cortinas pareciam dançar para o instrumento conforme o vento batia na janela aberta. Sorriu de canto olhando a cena.
— Vamos devagar com isso, ok? – Ele voltou a fazer o que geralmente fazia: conversava com o piano, tornando-o sempre tão intimo quanto realmente era – Temos que recomeçar isso, então não fique me olhando desse jeito. – Ele terminou a frase e riu para si mesmo. Passou uma noite incrível e era impossível não ter acordado de bom humor, como há muito tempo não acordava, se sentia disposto também, o que era uma raridade.
Ele voltou ao quarto e entrou no banheiro para lavar o rosto e trocar de roupas. Escovou os dentes e desceu pra tomar café. Literalmente apenas um café. Não sentia vontade de ficar em casa, o que era uma outra coisa diferente de suas escolhas desde que descobriu o que o assombrava. Pegou novamente uma garrafa pequena de água na geladeira e resolveu correr um pouco no parque. Fazer um pouco de exercícios seria bom, sabia que estava enferrujado, não via propósito mais em cuidar da saúde, mas não era exatamente esse o objetivo quando saiu para fazer jogging, apenas queria clarear a mente e sentir seu corpo funcionar. Queria sentir seu coração bater, mesmo que não fosse saudável e nem no sentido literal da coisa em si, ele simplesmente queria se sentir também útil para algo.
Oh angel, we can find our way somehow
Anjo, nós podemos achar nosso caminho de algum jeito
Escaping from the world we're in
Escapando deste mundo onde estamos
To a place where we began
Para um lugar onde tudo começou
Padre Harry terminava suas orações na capela e internamente desejou que tivesse havido missa pela manhã cedo. Sentiu vontade de ver Louis, sabia que ele viria de alguma forma. Ultimamente ele estava reconhecendo que se apegou ao rapaz de uma forma que nunca imaginou que se ligaria a alguém. Tinha passado sua vida aprendendo a lidar com desapego, com dedicar sua vida à Deus e celebrar os valores espirituais.
Mas aquele homem tão minúsculo e gracioso ao mesmo tempo estava proporcionando nele uma amizade que ele nunca havia tido antes. Colegas de monastério, até o sacerdote Jeffrey eram o mais perto de amigos que ele já teve. Aos 28 anos ele estava aprendendo que talvez o que tinha com Louis era o verdadeiro significado de amizade.
Era ainda inexperiente no assunto, o máximo que tinha conhecimento a respeito de alguma diversão era em sua infância, uma vez que passara sua adolescência estudando teologia, filosofia, matemática e latim.
Não, não reclamava. Sentia culpa quando inconscientemente queixava-se. Sua mãe havia feito uma promessa a Deus, e ele não ia se recusar a cumprir. Sentia que era uma forma de honrar sua mãe, que não apenas lhe deu a vida, mas deu a dela também.
Nunca havia se interessado por mulheres. Achava que era normal, afinal, as moças raramente se insinuavam pra ele. Sempre tinha uma ou outra, mas era muito raro. E ele compreendia até. Todos compreendiam, é claro, era um padre jovem, era bonito e tinha uma atenção especial com as pessoas. Lembrou-se vagamente de uma menina de, mais ou menos 17 anos, que havia se apaixonado loucamente por ele assim que ele chegou à paróquia. Ele ria ao lembrar-se. Para ele, não era apenas a sua condição que tornava a coisa toda cômica, mas sim a infantilidade com que via a menina.
Taylor era o nome dela. Ele lembrava-se dela vir sempre à igreja se confessar após a escola e, até que um dia, um pouco desesperada, veio até ele para pedir perdão pois sentia-se culpada por estar perdidamente apaixonada por ele. Seus cachos loiros eram adoráveis e a loucura era tão estampada em sua face que o padre sempre ria por dentro quando enxergava aquilo tudo. Adolescência... hormônios, ele pensava, achando realmente muito engraçado passar por aquilo.
Teve um melhor amigo no monastério, Nick. Não era assim tão ingênuo de achar que aquele bando de garotos em plena adolescência não pensava em sexo. Ele também pensava.
Não achava errado, não achava feio, não tinha tabus em relação a isso, apenas achava prudente respeitar as regras do celibato. Elas existiam por alguma razão, certo? Ele se pegava pensando nisso as vezes e na realidade nunca soube quais eram de fato essas razões, mas não queria pensar muito naquilo. Rebeldia não fazia parte de seu temperamento. A igreja não o obrigava a estar lá, mas se ele estivesse, tinha que seguir preceitos.
O padre pensava nisso enquanto voltava a sacristia. Isso lhe fez lembrar um detalhe que ainda não havia lhe passado pela cabeça. Louis Tomlinson era homossexual. Ele sorriu e canto ao pensar nisso e principalmente na forma como o homem havia dito aquilo a ele. Na realidade, ele nunca se importou muito com isso, existiam "pecados" muito piores que um homem deitar-se com outro. Os tempos mudaram e a igreja simplesmente não podia ignorar mais. Amor entre pessoas do mesmo sexo estava lá e todas as religiões do mundo não podiam mais fingir que homossexualidade não existia.
Estava ali. Bem na fuça de quem quisesse ver. E não existia divindade sob a terra ou céu que parecesse se importar com aquilo.
"Deus cuidará de todos no dia do Julgamento Final", ele lembrou-se de uma aula com um bispo certa vez, meses antes de se tornar padre. Ele respirou fundo olhando uma bonita imagem de Jesus Cristo na cruz e pensou que era um argumento um pouco contraditório. Se Deus é quem iria julgar à todos, porque parecia que padres ao redor do mundo estavam fazendo isso também?
Tinha gostado de estudar filosofia aos 17 anos. Isso lhe abriu a mente, talvez abriu até demais. O padre Jeffrey havia lhe repreendido algumas vezes por certas perguntas e Harry simplesmente então decidiu deixar de fazê-las e passou a argumentar consigo mesmo. Essa era a parte boa de estudar filosofia: tinha aprendido a pensar. O que as vezes parecia um problema, já que quase sempre a igreja apenas quisesse que as pessoas, literalmente, falassem "amém" à tudo.
Apesar da calma e de parte de si ser extremamente resignado, se pudessem ler seus pensamentos, diriam que sim, era o padre mais rebelde que já havia se formado.
Ele conseguia conciliar pensamentos. Ele conseguia respeitar opiniões. Não impunha nada as pessoas. Religião era livre e as pessoas a seguiam se quisessem.
Ele sorriu para si mesmo pensando nisso. Louis tem razão. Me expulsariam. Ele riu sozinho olhando pra aquela cruz no alto da parede. Não pelo pensamento, mas por pensar no mais baixo sorrindo pra ele daquele jeito marrento e divertido que tanto lhe arrancava sorrisos bobos e involuntários.
And I know we'll find
E eu sei que iremos encontrar
A better place and peace of mind
Um lugar melhor e paz na consciência
Just tell me that it's all you want, for you and me
Apenas me diga o que você quer, pra mim e também pra você
Angel won't you set me free
Anjo, você não quer me libertar?
XxX
Muitas pessoas passavam pelo parque Villa Doria Pamphili, o mais antigo – e mais bonito – de Roma. Mulheres com sacolas de compras, outras brincando com os filhos, homens com suas pastas de trabalho, outros jovens andando de bicicleta. Jovens fazendo exercícios com seus fones de ouvido – Louis reparou até algumas moças cantando em voz alta enquanto se alongavam – e adolescentes falando ao celular sem parar.
Vida, muita vida ao redor. Ele corria não muito rápido, olhando o verde bonito de algumas árvores. Era primavera e ele nem sabia. O clima estava tão maravilhoso que se ele soubesse que o lado de fora de seu quarto era tão incrível assim, teria pensado nisso antes. Mas ao mesmo tempo sabia bem que o único motivo de sua felicidade era, bom, era Harry. Se ele estava ali era porque aquele homem alto de ombros largos tinha dado esperanças novamente para sua mente cansada.
Sua camisa branca estava molhada de suor no peito e nas costas, havia perdido a conta de quantas voltas já tinha dado ao redor da pista de corrida. Não foram muitas, não estava muito em forma. Apesar da corrida ser devagar, parava algumas vezes para respirar e beber água. Sentiu uma vontade insana de rir ao ver o olhar convidativo que uma mulher havia lhe dado quando ele passou por ela correndo.
Não, não era porque as mulheres não lhe interessavam sexualmente, mas porque era divertido passar por aquela situação. Já tinha esquecido como era um flerte, como era divertida a forma como seu cérebro reagia quando alguém demonstrava interesse por ele.
Sentia todos seus músculos trabalharem. Suas pernas, braços, ombros, pescoço. Fechava os olhos toda vez que uma brisa leve lhe tocava o rosto, refrescando. Seu peito arfava buscando por ar, até que sentiu-se quase flutuar, diminuir o ritmo da corrida, o ar agora parecia fugir de seus pulmões, seu peito estava pesado e uma dor excruciante lhe atingiu no coração. Foi como se uma flecha enorme o atingisse, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e soltasse um gemido de dor.
Escuridão. Não deu tempo dele sentir seu corpo cair sob o concreto da pista, mas pode ouvir uma voz feminina gritar ao longe.
— Moço! Ei! – Ela correu na direção de Louis que estava imóvel no meio da pista de corrida do parque. – Eu preciso de ajuda! – Ela gritava e algumas pessoas se aproximavam com seus celulares em mãos, com os olhos arregalados por como seu corpo se debatia no local – Alguém chame uma ambulância, por favor! – Ela voltou-se para o homem desconhecido procurando por algum documento. – Moço, você pode me ouvir? – Ela tentava, ligeiramente desesperada. – Pode me dizer seu nome?
Mas ele não conseguia. Parou de se debater e não sentia seu corpo e, a voz de mulher lhe parecia muito longe, há quilômetros de distância, até se perder na escuridão em que ele se encontrava e finalmente ele não ouviu mais nada.
XxX
Angel remember how we'd chase the sun
Anjo, lembra quando perseguíamos o sol?
Then reaching for the stars at night
Alcançando para as estrelas à noite
As our lives had just begun
Enquanto nossas vidas começavam
Não demorou muito para que Louis chegasse ao hospital numa ambulância. Os médicos fizeram ressuscitação nele pelo menos duas vezes durante o caminho. Seus documentos indicavam quem ele era e um número de emergência. Olhando daquela forma, ele parecia estar morto, seus lábios estavam rachados como se tivesse perdido todo o oxigênio de seu corpo. Estava sujo por ter caído na calçada, sua pele tinha um tom diferente, era deprimente encontrá-lo daquela forma.
Recepcionistas do hospital fizeram ligações em uma escola primária de Roma para avisar uma senhora chamada Johannah.
— Os exames indicam que esse homem tem câncer. – Um enfermeiro olhava atentamente um raio X que haviam feito de Louis. Ele estava deitado na cama, em uma das alas de emergência, sob efeito de remédios, na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Generale Santo Spirito de Roma.
— Precisamos entrar em contato com o médico oncologista que trata dele. – A colega enfermeira respondeu ao outro. – Estamos de mãos atadas! Não sabemos o tipo sanguíneo, não sabemos o tratamento que ele está tendo, não sabemos a que ele é alérgico... – Ela parecia bastante preocupada. – Eu não acredito que alguém nesse hospital vá se responsabilizar por um paciente com um tipo raro de câncer como esse! Ele precisa do médico dele.
— Com licença. – Um moreno alto, de olhos castanhos e pele branca adentrou a sala onde os enfermeiros discutiam sobre o que fazer diante daquele raio-X. – O que temos aqui?
— Doutor Payne... não temos muitas opções. – A enfermeira respondeu ao médico, ainda tão preocupada quanto estava desde que encontrou aquele paciente – Esse homem tem um caso grave de câncer no coração e a julgar pelo avanço, poucos meses de vida.
O doutor Liam Payne olhava atentamente o raio X de Louis que estavam postos sob um quadro iluminado próprio. Ele não era oncologista, mas era o único médico de plantão que não estava com pacientes. Ele respirou fundo antes de dar seu veredicto e realmente teve que concordar com a enfermeira.
— No coração. – Ele sorriu de um jeito triste. – É o primeiro que vejo na vida. – Ele fez uma pausa e tirou os filmes do raio X de suas luminárias. – Precisamos entrar em contato com o médico do senhor Tomlinson. Não podemos fazer nada. Isso é mais grave do que vocês pensam, acreditem em mim.
— Sim senhor. – O enfermeiro respondeu. – Vou buscar os exames de sangue.
— Faça isso. – Doutor Payne respondeu, engolindo em seco e erguendo as sobrancelhas com certo espanto. – E agende uma tomografia. – Ele disse e o enfermeiro assentiu com a cabeça retirando-se em seguida. – O que esse homem estava fazendo pra vir parar aqui?
— Segundo as testemunhas que chamaram a ambulância, ele estava no parque se exercitando. – A moça respondeu um pouco incerta, olhando alguns papéis dos dados de identificação de Tomlinson.
— E ele estava autorizado a isso? – ele perguntou curioso, franzindo o cenho – O médico dele o liberou para exercícios?
— Não fazemos a menor ideia. – ela respondeu incerta, com seus enormes olhos azuis bem abertos em agonia. Seu nome era Perrie.
— Quem é o médico dele?
— Não consta. Mas a mãe dele está a caminho.
— Mande-a direto na minha sala. – Liam respondeu deixando o pequeno cômodo e indo na direção da UTI para ver o paciente que apresentava um quadro grave demais para se acreditar de primeira.
When I close my eyes I hear your velvet wings and cry
Quando eu fecho meus olhos e ouço suas asas de veludo, eu choro
I'm waiting here with open arms, oh can't you see
Estou aqui esperando de braços abertos, você não pode ver?
Angel shine your light on me
Anjo, lance sua luz sobre mim
Harry sentia que seu coração sairia pela boca. Batia na sua garganta, sentia a dilatação de sua aorta bombeando sangue muito mais rápido do que o normal. Ele estava no taxi indo diretamente ao hospital. Geralmente ele manteria a calma nessas horas, entregaria nas mãos de Deus, e rezaria o caminho todo. Mas ele simplesmente não conseguia se concentrar em oração nenhuma.
Quando o sacerdote Jeffrey Dean Morgan lhe informou que a mãe de Louis pediu a presença do padre no hospital lhe relatando o que havia acontecido com o homem, o sacerdote achou prudente que Harry fosse, afinal, levaria um pouco de calma à uma Johannah completamente desesperada no telefone.
Ele pedia ao motorista que fosse mais rápido. Não era justo, não agora, não era hora. Ele sentia sua garganta seca e seus olhos lacrimejados. Estava nervoso e a beira de um colapso.
Controlava-se ao máximo que podia, era um padre, não poderia simplesmente enlouquecer quando era ele quem deveria levar consolo. Sentia calor, sentia vontade de tirar aquela batina que lhe apertava perto do pescoço. Seus cabelos começaram a ficar incômodos por serem um pouco longos lhe fazendo suar no couro cabeludo.
E aquele taxi parecia não se mexer do lugar. Ele enxugou o suor da testa, jogou seus cabelos ondulados para trás em uma velocidade que seus dedos tiveram dificuldades em acompanhar. e percebeu os olhos aflitos do motorista que olhava pra ele pelo retrovisor algumas vezes.
— O senhor está bem, padre? – O taxista perguntou tentando parecer casual, percebendo o nervosismo de Harry.
— Estou um pouco preocupado com esse amigo que está hospitalizado. – Ele respondeu olhando pela janela, fungando o nariz e tentando se acalmar, mas seu coração batia tão rápido que qualquer pessoa poderia escutar a milhares de distância – Mas estou bem sim, obrigado por perguntar.
— Deus vai salvá-lo, padre. – O taxista dizia enquanto Harry ouvia o tilintar do terço pendurado no retrovisor do carro.
— Amém. – O padre disse baixinho e respirou fundo, inspirando o máximo de ar que podia, querendo que aquilo não tivesse acontecendo – Amém. – Ele repetiu reforçando o que o homem dissera.
Mais alguns minutos e o taxi parou em frente ao hospital. Harry pagou a corrida e agradeceu ao homem, que lhe desejou sorte dizendo que rezaria pelo amigo do padre.
Ele não pensou que fosse possível, mas o ambiente gelado do hospital fez seu coração acelerar ainda mais. Na pequena sala de espera, encontrou Johannah, com as mãos enroscadas em dois terços e com marcas e grossas lágrimas nos olhos, era tão estranho olhá-la daquela forma, a mulher tinha aparentado tanta felicidade nos últimos dias que fitar lágrimas em seu rosto era estranhamente incomum, mas agora era tudo o que ela conseguia ter como feição.
A mulher não disse nada, apenas abraçou o padre e agradeceu entre lamentos pelo jovem estar ali. Harry a abraçou de volta, dizendo palavras de conforto, para ela e para si mesmo pois precisava de tanta calma para tentar lidar com aquilo que não sabia nem como pedir a Deus tal tipo de coisa, queria confortar seu coração, queria tanto saber se Louis estava bem que sua garganta agonizava por uma saída.
— Como ele está? – Ele ponderou o tom, mas estava morrendo para saber, porém, nervosismo só deixaria Johannah tão mais apavorada quanto estava.
— Está sedado. – Ela respondeu enxugando novamente as lágrimas com um lenço branco. – Os médicos disseram que tiveram que induzi-lo ao coma, pois seu coração se esforçou demais pelo exercício, e agora precisa voltar ao normal.
— Exercício? – Harry perguntou, levando a senhora até o sofá de volta para que ela se sentasse. – O que houve?
— Ele saiu pra correr no parque, padre. – Johannah respondeu, tentando se acalmar quando o padre sentou ao lado dela. – O coração dele não aguentou o esforço.
— Mas que diabos Louis estava pensando? – Ele meio que esbravejou e depois se deu conta do que disse quando a mulher o encarou um pouco atordoada. – Quer dizer, ele estava autorizado por seu médico?
— Não, padre. – Ela respondeu triste e abaixou a cabeça, lembrando-se de como Louis relutou em querer prosseguir com tudo que lhe foi designado. – Ele se recusava a ver seu oncologista. – Johannah continuou, buscando esforço para explicar com exatidão. – Foi apenas uma vez e, depois que recebeu a notícia, se negou a tratamento, a exames, tudo... Disse que apenas esperaria morrer.
Harry fechou os olhos apenas imaginando o que Louis não deveria ter passado com tudo aquilo. Ele queria mais informações, queria saber de tudo, mas tinha certeza de que não lhe diriam, até porque isso levava um tempo. E se aquele homem estava em coma induzido, é porque o dano em seu coração era grave. O padre sentia que seu peito fosse ser arrancado de seu corpo por tanta agonia contida.
— O médico dele já chegou? – Perguntou tentando parecer formal diante de tanta aflição.
— Sim. – Johannah respondeu enrolando-se mais ainda no terço. – Está na sala do outro médico. Eu passei todas as informações e eles agora estão tentando resolver.
— Que tal se formos à capela do hospital? – Harry murmurou e queria desesperadamente falar com seu Deus agora. Estava na hora Dele fazer alguma coisa por Harry também, depois de ter uma vida toda dedicada a servi-Lo.
— Sim, por favor! – Ela certamente aprovou a ideia, confirmando com a cabeça um sim.
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Doutor Liam Payne ouvia com bastante atenção às informações e exames que o oncologista Niall Horan lhe passava sobre a doença de Louis. Já se passara cerca de meia hora desde que o médico havia chegado de Veneza, onde estava numa conferência e, m*l colocou os pés em Roma novamente, e seu telefone celular tocara, ainda no aeroporto.
— O sr. Tomlinson nunca quis se tratar. – Horan que era dotado de um cabelo loiro vívido e um par de olhos muitos azuis explicava com a típica frieza de médicos oncologistas, mas nem de longe ele parecia ser um de verdade, sua aparência jovial fazia com que qualquer pessoa duvidasse de sua profissão, mas ele era um tanto rígido em relação aquilo – Não insisti, é uma decisão do paciente, isso está fora do meu alcance.
— Acho que o psicológico do paciente diante de uma notícia dessas está sim em nossas mãos. – Payne reprovou subjetivamente a atitude de "lavar as mãos" de Niall.
— Sabe quantos pacientes em atendo?
— E quantos deles têm esse tipo de câncer, doutor? – Liam provocou com as sobrancelhas juntas em uma típica expressão de impaciência – Acho que isso merecia uma atenção especial sim.
— Qual sua especialidade, doutor? –O loiro perguntou um pouco arrogante, limpando sua garganta.
— Sou cardiologista. – Ele respondeu relativamente orgulhoso, era um dos melhores em seu ramo – Também tenho muitos pacientes e entendo do termo "gravidade da situação". Não é fácil lidar com essa parte da medicina.
— Ótimo, o senhor trata de um sistema do corpo humano. – Horan riu irônico mostrando dentes branquíssimos. – Eu trato de todos.
— Temos um paciente nesse hospital com um tipo raro de câncer que está em coma induzido há quase uma hora e o senhor quer mesmo falar sobre especializações da medicina? – Payne estava a ponto de perder o controle com o descaso daquela situação em si.
Niall Horan suspirou impaciente. Não gostava de médicos muito "humanizados", não era muito fácil lidar com isso e, eram médicos, se fossem se envolver com todos os pacientes que passavam em suas mãos, ficariam depressivos em poucos meses.
— Não tem nada que possamos fazer. – Foram as palavras do oncologista, enquanto passava as mãos pelos cabelos loiros e ajeitava os óculos escuros na cabeça. – E não falo isso porque sou um filho da p**a insensível como o senhor está dando a entender. – Ele foi irônico e Liam apenas revirou os olhos impaciente. – É realmente, literalmente, não existe tratamento pra isso, e o senhor, sendo cardiologista, deve saber muito bem disso.
— Eu sei sim. – O cardiologista respondeu num suspiro mais calmo e resignado. – Eu sei que não podemos fazer nada convencional, não é um câncer comum, então... Só me dê os detalhes.
— Vou até o carro buscar o histórico do senhor Tomlinson. – Ele disse enquanto levantava-se da cadeira e deixava a sala de Liam Payne.
Com a saída do outro, ele apenas voltou os olhos para os exames de sangue de Louis que o enfermeiro havia lhe entregado há pouco.
A verdadeira bênção da medicina – descobrir os problemas e seus diagnósticos – vinha sempre acompanhada da maldição: a impotência diante de alguns casos. Liam amava a profissão, mas as vezes era deveras frustrante.
Oh angel will we meet once more, I'll pray
Anjo, nós iremos nos encontrar novamente? Eu rezarei
When all my sins are washed away
Quando todos os meus pecados forem perdoados
Hold me inside your wings and stay
Me segure dentro de suas asas e permaneça
Oh! angel take me far away
Anjo, me leve embora.