I'm here, Louis

4357 Palavras
A música do capítulo é Sky Fits Heaven, da Madonna x.x.x Sky fits heaven so fly it O céu cabe no paraíso, então voe por ele That's what the prophet said to me Isso foi o que o profeta disse para mim Child fits mother so hold your baby tight A criança cabe em sua mãe, então abrace forte seu filho That's what my future could see Isso é o que meu futuro enxergava Harry teve que insistir bastante para que Johannah fosse pra casa comer alguma coisa e descansar, a mulher estava naquele ambiente desde que chegara e parecia extremamente exausta além de desconsolada. Já era noite quando o padre deu-se conta de tudo. Sabia que ela não dormiria em paz, no máximo tiraria um cochilo, afinal que tipo de mãe conseguiria dormir numa hora como aquela? Ele velava o sono profundo de Louis do lado de fora da UTI, apenas olhando pelo vidro todos aqueles aparelhos ao seu redor. Nunca em toda sua vida havia sentido uma dor tão grande no fundo da alma. Respirou fundo e tentou começar mais uma prece, mas simplesmente não sabia nem mais o que dizer a Deus a não ser pedir para que Louis voltasse. Sabia, ou melhor, sentia em seu coração que mesmo que o tempo de vida do outro fosse curto, aquela ainda não era a hora dele. Não podia ser. — Você é parente dele? – O doutor Niall Horan apareceu ao lado do padre, tirando-o daquele transe que era fitar aquele corpo tão vulnerável em cima daquela maca. — Não. – Ele limitou-se a responder, não queria deixar de pensar em como gostaria que aquilo não fosse verdade, em como aquele momento lhe perturbava. – Louis é apenas um grande amigo. — Entendo. – o médico agora também encarava o vidro, seguindo os olhos do padre por todo o quarto branco e azul que abrigava Louis. – Ele deve ser realmente muito especial, vi que não saiu daqui desde que cheguei. — Estou rezando por ele. – Harry respondeu sereno e, a julgar pelo olhar do médico, ele não era dos mais religiosos não. – O senhor não reza, doutor? — E pra que? – Horan tentou não ser ofensivo, mas tinha uma cabeça muito formada em relação a tudo aquilo – Não sou um homem de fé e não sou hipócrita. Pelo menos não o suficiente pra recorrer a Deus apenas quando as coisas não vão bem, como muita gente faz. — Entendo. – o padre deu um sorriso de canto, já estava acostumado com o tipo de coisa então ignorava. Cada um escolhe como traçar o seu destino. Era o que ele exatamente pensava. Niall olhou Harry ao seu lado com o canto dos olhos. Era estranho. "Entendo"? Era tudo que ele tinha a dizer? Não ia ter sermão nem mesmo uma tentativa de convertê-lo? Nenhuma crítica ao seu ateísmo iminente, nenhum tipo de repressão? Nada? Ele apenas entendia? — Você não me parece ser um padre muito convencional. – Niall continuava olhando Harry que mantinha os olhos fixos em Louis – Digo, fora a roupa, claro. – Ele riu. — Suponho que não. – O padre respondeu sem tirar os olhos do vidro. – Ouça, doutor, sei que não sou da família e o senhor não pode me dar informações, mas... – finalmente encarou o médico. – Poderia me explicar apenas o que houve? Horan suspirou. Realmente não poderia falar, mas ali era só um padre que estava claramente preocupado com o tal amigo. E ele tinha que admitir que ver Louis naquele estado o fez lembrar-se do primeiro dia que aquele homem esteve em seu consultório. — Senhor Tomlinson chegou com alguns exames em mãos. – O loiro começou, olhando Harry nos olhos. – Ele havia sentido dores no peito e andava extremamente cansado. Me disse que havia ido a alguns médicos e todos os exames indicavam que ele estava bem, exceto pelo eletrocardiograma. – o médico fez uma pausa e percebeu que Styles estava realmente interessado. – Havia uma mancha no pericárdio e por isso os médicos mandaram que ele procurasse um oncologista, isso o trouxe até mim. Quando olhei aquilo, percebi que não havia mais o que fazer, especialmente depois que fizemos a biopsia e comprovamos que se tratava de uma massa cancerígena maligna mesmo. – Horan falava no mesmo tom de quem passava uma receita de bolo. — Mas eu não entendo, doutor. – Harry dizia, modesto. – Por que não fazem simplesmente os tratamentos comuns de câncer? Radioterapia e quimioterapia...? — Porque é no coração, padre. – Niall já estava acostumado àquele tipo de pergunta. – Esses tratamentos comprometem severamente o desenvolvimento do órgão. Não é como os outros sistemas do corpo, o coração tem formação diferente, músculos diferentes, por isso é tão raro. — E por que o pouco tempo? Não existe nenhuma maneira de tratar? – O padre tentava se controlar ao máximo. — Não. Não podemos mexer nessa parte do corpo, padre. E tumores no pericárdio tendem a provocar derrames em torno do coração. A hipercoagulabilidade do sangue pode causar êmbolos que trancam qualquer vaso sanguíneo a qualquer momento e em qualquer lugar... – Ele percebeu que Harry baixou os olhos ainda mais triste. – Tratamentos agressivos e invasivos como a quimioterapia não matam apenas as células ruins, mas as boas também. E, se tratando de coração, padre... Ninguém quer arriscar. — Doutor... Vocês foram capazes de criar vida fora do útero de uma mulher, fazer clones, vacinas, coquetéis que controlam a AIDS... Não conseguem nada melhor contra o câncer? – O padre parecia mais filosofar do que perguntar. – Muitos médicos pensam que são donos da vida, mas não é o meu caso. – Ele sorriu, tentando confortar Harry. – Não somos 'Deus', padre. — Mas não custa nada pedirmos um pouco mais de sabedoria a Ele. – O doutor Liam Payne apareceu no corredor e pareceu ter ouvido a conversa. — É um bom argumento. – Harry respondeu simpático ao médico que acabara de chegar. Tanto Niall quanto Liam vestiam a clássica cor branca com um jaleco mostrando seus nomes, o que dispensava apresentações. Ele percebeu que Liam trouxera alguns papéis que pareciam ser exames para o outro analisar e, após alguns breves segundos, Harry sentiu a mão de Payne tocar seu ombro. — Você deve ter algum prestígio no céu, padre! Parece que alguém lá em cima mandou nosso amigo de volta. – Ele sorriu e se retirou com Niall em direção ao corredor. Harry entendeu muito bem o que o doutor Payne quis dizer. Louis estava melhor e, após toda aquela tensão sair de cima de seus ombros, sentiu um alívio na alma e respirou fundo. E fazendo o sinal da cruz, agradeceu a Deus, como de costume. Fate fits karma so use it O destino cabe no carma, então use That's what the wise man said to me Isso é o que um homem sábio me disse Love fits virtue so hold on to the light O amor cabe à virtude, então agarre-se à luz That's what our future will be Este será nosso futuro XxX O coração de Louis se normalizou depois daquelas horas em que ele passou completamente medicado e alheio a tudo. Harry fora avisado que Johannah estava chegando para estar ao lado do filho quando ele acordasse. O padre passou a noite em claro apenas pedindo a todos os santos que conhecia que Louis se recuperasse o quanto antes. Ele não entendia bem o porquê de todo aquele sentimento em relação aquele homem, mas de repente, não quis se imaginar sem ele por perto. Niall e Liam pareciam trocar ideias do quarto da UTI, até que Liam, com uma seringa, injetou algo através do soro que Tomlinson tinha em um dos braços. O padre então entendeu que o estavam tirando do coma. Ele observava atento tudo pelo vidro da janela. Sabia que aquilo levaria um tempo e, quando os dois médicos voltaram a conversar, ficou mais tranquilo. Liam monitorava os batimentos de Louis por um dos aparelhos que marcavam o ritmo cardíaco enquanto Niall conversava com alguma enfermeira que estava presente no quarto também. Aos poucos, os médicos deixaram a sala, e apenas a enfermeira permaneceu. Johannah logo chegou e posicionou-se ao lado do padre, que imediatamente passou um braço por cima de seus ombros, numa tentativa de tranquilizar a mulher. — Acho que ele logo vai acordar. – disse com um sorriso contido e ela voltou a chorar, mas agora de alegria. — Preciso ir à capela rezar, padre. – disse devota como de costume. — Faça isso. – ele respondeu quase num sussurro enquanto a mulher se afastava. Ele voltou a encarar a enorme janela de vidro e viu a enfermeira levantar-se com alguma pressa. Louis parecia estar acordando. Ele pôs uma das mãos no vidro como se pudesse atravessá-lo e viu mexer uma das pernas e os braços. Parecia querer falar e não conseguia. Harry sentiu-se agoniado especialmente porque o aparelho que media seus batimentos cardíacos estava apitando consideravelmente. Os bipes eram constantes e os dois médicos voltaram imediatamente ao quarto e o cercaram a fim de acomodá-lo. Louis parecia bem agitado e agora era o coração de Harry que estava disparando. O padre não conseguia ver direito o que se passava, mas percebeu um olhar do doutor Payne pra ele do lado de dentro da sala. Ele parecia tentar falar com Louis, pedir que se acalmasse, mas seu coração novamente estava disparado. Styles sabia que algo estava errado quando o médico deixou a sala e, após alguns segundos que pareceram horas, apareceu ao seu lado, tirando a máscara e as luvas. — Quem é Harry? – Liam perguntou aflito. — Sou eu. – respondeu surpreso e imediatamente o médico o agarrou pelo braço o levando até a entrada do quarto da UTI. — Vista-se. Entregou o uniforme azul claro para Harry vestir. Touca azul, máscara branca, protetor de sapatos e luvas. Um enorme jaleco azul que cobria cada parte se deu corpo. Em seguida, foi direcionado a uma câmara que emitiu um vapor esterilizante, para diminuir os riscos de infecções aos pacientes. — Por que estou aqui? – O padre parecia um pouco assustado e seguiu o doutor Payne até perto da cama de Louis. Ele viu então que apesar a agitação, Tomlinson permanecia de olhos fechados. Doutor Horan também tentava conversar com ele, mas nada parecia adiantar. Ele pedia calma a Louis, que tentava se desfazer do soro e de todas as amarras ao redor de seu peito. O monitor de batimentos cardíacos indicava que ele estava à beira de um colapso. Foi então que Harry entendeu porque estava lá. — Ha..Harry... – Louis sussurrava com grande esforço. Traveling down this road Estou viajando por essa estrada Watching the signs as I go Observando os sinais enquanto sigo em frente I think I'll follow the sun Acho que vou seguir o Sol Isn't everyone just Não é o que todos estão fazendo? — Fale com ele, padre, por favor. – Liam pedia calmo. – Diga a ele que está aqui. Um pouco atordoado, Harry segurou em uma das mãos do outro, que estava gelada e, como se quisesse aquecê-la, trouxe para perto de si, e abaixou-se na direção do rosto de Louis, dizendo perto do ouvido dele pra que ele tivesse certeza. — Eu estou aqui, Lou, por favor acalme-se. O padre dizia com a voz um pouco insegura. Não tinha certeza que aquele corpo tão frágil estava mesmo ouvindo. Mas quando Tomlinson apertou seus dedos e, aos poucos, parava de se debater, foi que Harry teve a certeza de que estava sendo ouvido. Niall Horan respirou fundo e soltou-se do corpo de Louis. Ele ainda estava atento e pedia a Harry pra que continuasse falando, enquanto suas mãos estavam entrelaçadas. Liam mantinha os olhos fixos no monitor de batimentos cardíacos observando enquanto eles caíam e se normalizavam. — Pressão arterial estabilizando. – A enfermeira disse diante do silêncio. Harry sorriu para si mesmo diante de tudo aquilo. Ao ver Louis calmo, tranquilo e respirando agora menos ofegante, fechou os olhos e, novamente, agradeceu a Deus. O mais baixo girou a cabeça no travesseiro na direção de onde o padre estava e, parecia fazer um grande esforço para abrir os olhos devagar, como se despertasse de um sono de meses, onde as luzes incomodavam um pouco a visão e sua voz demorou um pouco pra voltar ao normal. — Harry... – sussurrou ao ver, embaçado, algumas mechas dos cabelos escuros do padre saírem pra fora da touca. — Estou aqui. – respondeu prontamente, com medo que Louis se agitasse novamente. – Por favor, continue calmo. Liam franziu o cenho não deixando de perceber algo errado naquela visão. Era um padre, afinal de contas, estava imaginando coisas. Porém, ao trocar de longe um olhar cúmplice com Niall Horan, percebeu que o oncologista estava pensando o mesmo que ele e se recriminando por pensar. XxX Depois de mais um dia na UTI, Louis estava bem, já podia ir ao quarto comum, não precisava mais da terapia intensiva. Quando ele estava mais desperto, Harry deixou-o na companhia da mãe e foi até a igreja dar satisfações a seu superior, tomar seu banho e finalmente poder comer alguma coisa e descansar. Ele m*l podia acreditar no que tinha acontecido em apenas dois dias. Uma experiência como aquela, acompanhar a morte rondando tão de perto, bem diante de seus olhos, com certeza valia muito mais que qualquer teoria a qual ele já havia estudado. Isso sem mencionar o fato de que era muito mais difícil do que ele pensava. Esse negócio de que "Deus quis assim" não era, no fundo, lá muito confortante afinal de contas. A tarde, Harry certamente iria ao hospital ficar com Louis, mas naquele momento tudo que ele precisava era apenas deitar e dormir. — Padre? – Ele ouviu a voz de Jeffrey Dean Morgan soar na casa de padres ao lado da igreja onde Harry morava. — Sim? – Ele respondeu tentando controlar um bocejo. — Como está seu amigo? – O mais velho perguntou curioso. — Está bem. Está tudo ótimo. – Harry respondeu muito alegre. – Foi um susto, mas ele já está bem. — Fico muito feliz. – O sacerdote juntou as mãos e pareceu agradecer aos céus mentalmente. – Acredito que queria descansar agora, mas assim que estiver mais disposto, gostaria que ficasse no confessionário no fim da tarde. — Sem problemas, senhor. – O padre sorriu de leve e concordou com a cabeça. Despediu-se rapidamente de seu sacerdote superior e dirigiu-se ao quarto. Precisava dormir antes de pensar em fazer qualquer coisa. Sentia que agora seu corpo, menos tenso, pedia por descanso. Traveling down their own road Estou viajando pela estrada deles Watching the signs as they go Observando os sinais conforme eles passam I think I'll follow my heart Eu acho que seguirei meu coração It's a very good place to start É um lugar muito bom para começar Louis ainda estava bastante debilitado, mas estava no quarto, não precisaria mais da unidade de terapia intensiva. Seu estado havia se normalizado, mas Dr. Horan estava preocupado que aquele ataque renderia mais problemas e limitações a Tomlinson. O paciente sentia seu corpo muito pesado ainda e falava pouco, apesar de ser encorajado pelos médicos a ficar mais desperto. O problema é que os remédios não estavam deixando. — Mãe, já estou com calor. – Ele dizia enquanto Johannah parecia procurar outro cobertor pra colocar sobre os pés do filho. — Tem certeza? Isso é normal? – Ela voltou preocupada até a cama do filho. – O que está sentindo? Será que está com febre? — Mãe eu estou com três cobertores... – Ele se esforçou pra falar e respirou fundo. – Assim está bom, por favor... Johannah apenas assentiu com a cabeça e passou uma das mãos pelo rosto do filho. Estava com a barba começando a crescer e seu rosto voltava a ter cor, não estando mais tão pálido. As olheiras ainda estavam bem marcadas, mas nada que não fosse totalmente compreensível. Mas Louis não se importava com nenhum desses detalhes. A única coisa em que ele conseguia pensar era em Harry. — Padre Harry não vem? – Ele perguntou fingindo um tom casual, como se fosse um assunto qualquer, mas ele estava realmente interessado. — Ele ficou com você durante todo o dia ontem e toda a noite. – Ela respondeu tranquila. – Você chamou por ele quando acordou. — O que? – Louis definitivamente não lembrava e, não era de se esperar que lembrasse. — É, doutor Payne me disse que você ficou bastante agitado e só se acalmou quando puseram o padre no quarto, porque você chamava por ele. Louis apenas ficou calado. Achou que provavelmente se fosse uma situação normal, pudessem perceber que ele havia corado. Era seu inconsciente falando? Ele não tinha como controlar, não era culpa dele, mas não deixou de imaginar o que não deveriam ter pensado. Ele acorda do coma e chama pelo padre. Agora estava oficialmente admitindo pra si mesmo que aquele homem estava mexendo com sua sanidade mental. — Ele... falou algo em relação a isso? – Ele perguntou no mesmo tom desinteressado. — Não. Como assim? Que tipo de comentário ele poderia fazer? – Johannah perguntou confusa. — Não sei, mãe. Ele pode ter achado estranho. — E por que? Ele é um representante de Deus, filho... É claro que você chamaria por ele! – Louis apenas resolveu pensar que sua mãe deveria ser um pouco ingênua. — É. Deus. – Ele deu um sorriso de canto, quase irônico. Sua mãe nem percebeu. — Deus colocou ele no seu caminho. – Ela respondeu sentando-se na poltrona ao lado da cama do filho. — Você colocou ele no meu caminho, mãe. – Louis respondeu, cético como sempre. — Não seja ingrato com o Senhor, Louis! – bronqueou o filho. — Não estou sendo, mãe. – Ele riu. – Estou sendo óbvio. – Ele fez uma pausa. – Mas Harry é diferente das pessoas, isso eu admito. Ele realmente parece ter algo que as outras pessoas não tem e, se eu tiver que atribuir esse dom a alguma coisa, que seja a alguma coisa divina... — Claro que é! – Johannah agora gostou da resposta e sorriu. – Ele se importa com você. Louis fechou os olhos e deixou um riso de leve sair ao ouvir aquilo, porque era verdade. Harry se importava mesmo, de uma forma que ele não sabia explicar, apenas sentia, dava pra sentir. — Então... Você acha que ele vem? – Louis insistiu, mas dessa vez sem despertar certa curiosidade na mãe com tanto interesse. — Acho que sim, filho. – Ela respondeu olhando de canto para Louis. – Acredito que mais tarde ele deva vir. Ele apenas assentiu com a cabeça e fechou os olhos novamente. Parecia que o sono estava voltando. Sentiu uma das mãos de sua mãe lhe acariciar os cabelos e logo dormiu. XxX Já era quase noite e Harry literalmente contava os minutos pra sair daquele confessionário quente e desconfortável, e ir verLouis. Estava querendo saber se ele acordou bem, se já estava no quarto, se havia pedido por ele... Havia dormido, pouco, mas dormiu. Ainda bocejava e tinha que admitir que as vezes não estava ouvindo o que os fiéis estavam dizendo a ele. Esse negócio de confissão pra ele nunca fora lá muito eficaz, mas desde que trouxesse algum conforto para as pessoas, simplesmente serem ouvidas e terem o perdão de Deus, já servia de consolo. Ele olhou novamente no relógio. Sete da noite. Espiou pela pequena porta do confessionário e, finalmente, não havia mais ninguém. Saiu de lá apressado antes que aparecesse alguém de última hora e foi para a sacristia tirar a batina. Ele ainda assim usava o típico traje n***o, calças, camisa com o sinal branco na gola e vestiu um casaco também n***o por cima. Andou até o altar e fez uma breve oração. Quem o visse, acharia estranha a pressa, mas ele queria ver Louis, certificar-se de que ele estava realmente bem e fora de perigo, pelo menos por enquanto. Avisou o sacerdote Jeffrey e pegou um táxi rumo ao hospital mais uma vez. Traveling down my own road Viajando pela minha própria estrada Watching the signs as I go Observando os sinais enquanto eu sigo em frente — Eu acho realmente ótimo que seja esse o motivo, senhor Tomlinson. – Começou o doutro Liam Payne enquanto examinava Louis. – Mas não podia se exercitar. De nenhuma maneira. — Seu coração é frágil, Tomlinson, não pode sofrer impactos como o de uma corrida. – Niall Horan complementava a opinião do colega enquanto fazia algumas anotações no prontuário de paciente. — Eu não sabia. – Louis respondeu sincero. — Se tivesse me ouvido, ouvido as minhas recomendações sobre fazer o tratamento... – Niall começou a falar. — Claro, e você deixa um paciente como ele simplesmente sair de seu consultório sem mais nem menos. – Liam ponderava o tom, mas ainda era agressivo. — Lógico, faria muito sentido prender o paciente, amarrá-lo a uma cama e obrigá-lo a se tratar. – O loiro finalmente tirou os olhos do prontuário e olhou Liam do lado oposto da cama de Louis. – E seria processado por cárcere privado. Muito esperto. — Que tal negligência? – Payne provocou. — Mas como se atreve? – E Niall se ofendeu. — Ei, tudo bem. – Louis interrompeu os médicos. – Eu fui teimoso, eu não quis saber, eu fiquei meses em estado de inércia e isso é culpa minha e não do doutor Horan. — É um pouco. – O médico alto e de ombros largos finalmente encarou os dois e resolveu ficar em silêncio. – Eu devia ter lhe dado mais informações, mas você simplesmente se recusou a fazer todos os exames seguintes que pedi. — Doutor, entenda, eu havia perdido a esperança, o propósito. Para que adiar o inevitável? — Porque fazemos isso todos os dias. – A voz de Harry ecoou no quarto pela porta entre aberta e todos viraram-se para encarar o padre. – Pra morrer, basta estar vivo, não é mesmo? Louis não conseguiu conter um sorriso largo ao ver o padre ali, aproximando-se ao pé da cama. Mais uma vez, Niall e Liam trocaram olhares cúmplices de quem percebera que algo estava acontecendo ali. Johannah aproximou-se de Harry lhe pedindo a bênção, ele gentilmente fez o sinal da cruz na mulher. — O padre tem razão. – Liam disse quebrando o silêncio. – Que bom que percebeu que sofrer não é a solução, senhor Tomlinson. — É melhor manter acesa a chama no coração e a certeza na mente... De que um dia nos encontraremos novamente. – Niall complementou a frase do colega. — Calem a boca. – Louis respondeu rindo e todos acharam graça também. Mas ele, é claro, apenas reparou no sorriso de um Harry que olhava diretamente pra ele. — Louis, estamos lhe medicando agora e você ficará hoje e amanhã sob observação, tudo bem? – Niall falava e Payne apenas concordava. – E, por favor, nada de esportes quando sair daqui, certo? Sem esforço físico, sem correr... Não estamos dizendo que você não pode fazer nada, caminhadas estão liberadas, desde que não longas e a nutricionista vai passar aqui amanhã pra lhe falar sobre sua alimentação... — E, senhor Tomlinson, sabemos que já tentou e que fez os programas, mas vamos lhe encaminhar para uma psicóloga. – Liam foi categórico e o outro médico concordou. — Olha, eu já estou bem quanto a isso, não vou falar dos meus problemas com uma completa estranha! — Filho, por favor, se os médicos dizem, é porque é preciso. – Johannah insistiu. — Mas... — Eu também acho uma ótima ideia. – Foi a vez de Harry se manifestar. – Vai ser bom pra você. — Eu tenho conversado com padre, e já suficiente. – Louis insistiu, tentando convencer os médicos. — Entendemos que esteja numa situação confortável e não tenho dúvidas de que aconselhamento religioso deve ser muito eficaz. – Horan recomeçou. – Mas o padre não é um profissional. — Não importa! – Louis parecia realmente uma criança teimosa, revirando os olhos e fechando os lábios em uma linha fina como se não pudesse desfazer aquela expressão de birra. — Dê uma chance, Lou... – Harry insistiu agora que percebeu que Louis olhava pra ele. – Pelo menos vá a uma consulta... — Mas Hazza... — Uma apenas. – O padre sorriu e aqueles olhos de cãozinho perdido estavam ali novamente. — Tudo bem. – Ele respondeu, marrento, mas com vontade de rir. Niall e Liam voltaram a se olhar daquela maneira de quem sabia que estava acontecendo alguma coisa entre os dois. Pra confirmar a desconfiança, Harry ainda se encaminhou ao lado da cama de Louis e segurou uma de suas mãos. Bastou esse gesto para os médicos perceberem o que de fato estava se passando entre os dois, não era nenhum milagre divino. Ou era do destino talvez. Ambos os médicos se retiraram e, ao que Niall fechou a porta atrás de si e os dois ganharam o corredor, nem precisaram se olhar. — Não me admiro que ele tenha mudado de ideia. – Horan quebrou o breve silêncio entre os dois. — Um paciente terminal que saiu de praticamente uma hibernação... – Liam sorriu de canto, ironizando a própria vida. – Como isso é possível? — Quem tem por "quem" viver, é capaz de suportar qualquer "como". – Niall respondeu e o outro apenas sorriu concordando enquanto entravam na sala do do doutor Payne. Hand fits giving so do it A mão é apropriada para dar, então faça-o That's what the Gospel said to me É o que o Evangelho me disse Life fits living so let your judgments go A vida é para viver, então abra mão dos seus julgamentos That's how our future should be É como nosso futuro deveria ser
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