A música tocada por Louis no capítulo é do Labyrinth, e chama-se Love. Recomendo muito ouvir, tem no youtube.
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Louis definitivamente era outra pessoa depois que conhecera Harry. Duas semanas se passaram desde que saiu do hospital e ele e o padre estavam se encontrando todos os dias, ou quase todos. Louis estava fazendo o tratamento, tomando uma quantidade significativa de remédios, mas sabia que o que realmente ajudava era ter aquele moreno alto de covinhas por perto.
Ele tentou por algum tempo evitar pensar a respeito e negar pra si mesmo que estava se apaixonando pelo padre. Só que chegou uma hora em que ele não tinha condições de fazer isso.
Havia se conformado. E sabia que estava mais ferrado do que já estaria naturalmente.
No final de semana em que Harry precisou viajar para alguns compromissos em algumas cidades ao redor de Roma, Louis ficou em casa pensando exatamente no que estava acontecendo entre eles. O padre era inteligente, estudado, sensato e tinha um otimismo que chegava a irritá-lo às vezes, isso sem mencionar sua paciência excessiva, mas ele sabia que o moreno não fazia ideia dos reais sentimentos de Louis.
Imaginou a cena mais de uma vez: ele declarando todo seu amor pelo padre e Harry simplesmente, com toda aquela calma, dizendo que Tomlinson estava confundindo as coisas e que deveria orar pra pedir orientação.
Se Harry dissesse qualquer coisa parecida a isso a ele, provavelmente o socaria, não importando se ele usava uma batina e um crucifixo.
Ele passou a tarde sentado ao piano esperando Harry. Havia ensaiado a música que tinha composto para o padre e prometeu que tocaria piano pra ele naquele dia, depois de tanto adiar. Claro que Harry não sabia que a música era exatamente pra ele.
Estava bem disposto àquela tarde e fazia um calor razoável. A janela grande da sala estava aberta e a claridade dava uma visão do piano de cauda. Não estava mais tão empoeirado e agora era digno de estar lá, já que um verdadeiro pianista tinha voltado a dançar com seus dedos.
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Harry preparava-se para sair mais uma vez, iria até a casa de Louis como de costume. Finalmente ele havia concordado em tocar uma música pra ele no piano, depois de tanta insistência sua. Harry estava animado, e não se acostumava nunca com aquela sensação de ansiedade e excitação que sentia toda vez que ia encontrar aquele homem.
Ficava feliz? É deveria ser aquilo mesmo, afinal, era a primeira vez que ele tinha essa relação de amizade tão próxima a alguém.
— Filho, você está saindo? – O sacerdote Jeffrey Dean Morgan encontrou o jovem padre quando ele deixava a igreja.
— Sim. – Ele sorriu, feliz. – Vou ver Louis.
O sacerdote Morgan suspirou e Harry diminuiu o sorriso.
— Algum problema, padre? – Ele perguntou desconfiado.
— Harry, sente-se, por favor. – ele apontou para um banco na última fileira da igreja, perto da porta de saída.
O padre Harry estranhou a colocação, mas obedeceu. Ambos estavam vestidos com a mesma roupa. Calças, camisas e sapatos pretos, apenas com o detalhe branco na gola, entretanto o sacerdote estava com um casaco preto.
— Algum problema, senhor? – Harry pareceu ligeiramente preocupado ao ver as feições de Jeffrey, um olhar um pouco confuso, como se procurasse as palavras para falar sobre aquilo.
— Não acha que tem passado tempo demais com esse moço, o Louis?
— Acho que sim. – Ele sorriu novamente. – Acho que passo muito tempo com ele. Mas demais o senhor quer dizer 'além do normal'?
— É. – O sacerdote foi direto. – As pessoas vão começar a comentar, filho.
— Comentar? – Harry parecia confuso. – Que tipo de comentário?
Jeffrey fez uma pausa e não sabia como colocar aquilo. Harry poderia ser um pouco ingênuo, mas não era nenhum i****a. Ele suspirou ao perceber o que o sacerdote queria dizer e não deixou de sentir-se um pouco chateado.
— Eu entendo. – falou baixinho. – Mas não acredito que as pessoas vejam maldade nisso, até porque ele está muito doente, senhor.
— Filho...
— Senhor, com todo respeito. – Harry interrompeu gentilmente seu sacerdote. – Peço que não se preocupe com isso, estou seguro da minha religião e Louis é só um amigo.
Jeffrey sorriu e assentiu com a cabeça um pouco mais tranquilo por ouvir aquilo. Certo, ele estava exagerando, Harry era um bom homem e se achou até um pouco injusto por julgá-lo dessa forma. Harry pediu licença, Jeffrey assentiu e ele voltou a deixar a igreja.
O moreno alto sentiu o sol bater em seu rosto, era como se iluminasse não apenas sua visão, mas algo dentro dele. Desceu as escadas da catedral e olhou um casal de namorados que passava de mãos dadas. Sorriu pra si mesmo e lembrou-se da conversa que teve com Louis no hospital há duas semanas.
Se apaixonar. Será que era mesmo daquele jeito? Aquela sensação de ouvir música e flutuar, a ansiedade, os suspiros, a vontade insana de estar sempre junto, os beijos, os abraços.
O sexo.
Ele andava devagar pela rua e corou ao pensar naquilo, olhando discretamente para os lados como se alguma daquelas pessoas que passavam pudessem ler seus pensamentos. Riu discretamente de si mesmo, se achando um adolescente.
As ruas de Roma estavam bastante movimentadas, mas a casa de Louis era próxima da igreja. Ele não sabia o que tinha de errado com aquele dia, mas começou a ver casais o tempo todo. Será que era algum dia especial? A cada esquina que virava, a cada rua que atravessava, dois "pombinhos" apareciam de mãos dadas, abraçados, dividindo um sorvete ou apenas rindo e trocando beijos discretos pelas calçadas e cafeterias da capital italiana.
Era engraçado o quanto ele poderia ser seguro de que não era aquilo o que queria para si, a vida toda ele não viu problemas e não sentiu vontade. Era feliz servindo a seu Deus, sentia-se cumprindo sua missão, mas ele não podia mentir pra si mesmo. Hoje todas aquelas imagens estavam começando a incomodá-lo.
Ele suspirou e, mais alguns minutos e já estaria na casa de Louis.
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Johannah estava dando aulas e deixou o almoço pronto para o filho, mas ele não tinha fome. Na verdade, ele estava nervoso. Sempre ficava quando ia encontrar com Harry. Era seu amor platônico, mas ele sentia-se tão bem por amar novamente. Não queria fazer planos e isso não o frustrava tanto.
Queria passar seus últimos meses de vida com aquele homem, mas sabia que isso era impossível. Estava contente com a amizade dele, apesar de ser humano o suficiente pra viver fantasiando certos momentos com o padre.
A campainha tocou e ele instintivamente achou graça de si mesmo por se olhar no espelho antes de atender. Ele realmente gostava de como se sentia.
Abriu a porta com seu melhor sorriso e lá estava ele, enchendo sua visão com aquelas covinhas, aqueles olhos verdes e os cabelos levemente jogados no ombro.
— Ei. – Tomlinson cumprimentou dando espaço para o padre passar.
— Com licença. – Harry respondeu retribuindo o sorriso enquanto entrava na casa de Louis . – Como está hoje?
— Bem. Ótimo! – Ele respondeu um pouco nervoso. Vestia uma bonita camisa azul e jeans claro.
— Fico feliz. – Harry respondeu sem deixar de notar que Louis estava até bem arrumado.
Eles pareciam dois adolescentes ali se olhando, não sabiam o que dizer. Louis com aquele meio sorriso, encantado, como se fosse o momento mais feliz de sua vida e Harry, com o típico olhar confuso e bondoso.
— Vai tocar ou vai dizer de novo que ainda não está pronta a música? – O padreriu quebrando o silêncio e fez o outro rir também.
— Não, não, está sim. – Louis andou até o piano e apontou a poltrona ao lado. – Senta.
Harry se empolgou e estava realmente curioso para ouvir. Não era tanto pela música, mas por ver Louis tocar. Nem que fosse um 'parabéns a você', o padre já ficaria emocionado de ouvir.
Tomlinson sentou-se no banco do piano, o instrumento já estava preparado. Ele respirou fundo, e olhou Harry na maior expectativa sentado na poltrona ao lado do piano.
— A música se chama 'Love'. – Ele disse um pouco tímido. – E eu fiz pra uma pessoa que eu amo.
— Alguém que você ama? – Harry franziu o cenho – Ama tipo a sua mãe ou alguém especial? – Louis riu da ingenuidade de padre.
— Para alguém especial. – Louis respondeu encarando as teclas do piano.
— Oh. – Harry recostou-se na poltrona e um leve desconforto correu seu corpo. Como assim especial? Ele estava apaixonado então?
Louis passou a língua pelos lábios e levou alguns segundos para se concentrar. Harry não tirou os olhos de nenhum movimento do homem ao seu lado que agora pousava as mãos lentamente no piano e dava vida ao instrumento tocando a introdução da música com uma perfeição a qual Harry jamais tinha escutado.
I'm not the same
Eu não sou o mesmo
A warrior soul that burns away for love
Uma alma de guerreiro longe do amor
I'm in a haze but there's a light, riding from her face
Estou num labirinto mas há uma luz, vinda do rosto dela
O padre percebeu que, conforme Louis tocava, era como se nada mais no mundo existisse pra ele. Tomlinson se entregava de corpo e alma à música, tocava com verdadeira maestria.
Quando sua voz ecoou pela sala, com a letra da música, foi Harry quem percebeu que o resto do mundo não existia.
Maybe it could be love,
Talvez poderia ser amor,
'Cause you're the one who can move my heart,
Porque você é a única que pode mover meu coração,
No more rain on us a new day will shine...
Sem mais chuva em nós, um novo dia irá nascer...
Harry achou a letra bastante apropriada para o momento que Louis estava passando e entendia perfeitamente o que ele estava querendo dizer. Porém o fato de ser pra outra pessoa o estava incomodando.
A melodia era incrível e não precisava ser um grande músico entendedor pra perceber que Louis tinha nascido pra tocar piano. Suas mãos pareciam não encontrar absolutamente nenhuma dificuldade em tocar. Ele não olhava, apenas estava de olhos fechados, parecendo um anjo tocando para Deus.
Something inside
Algo por dentro
A strange feel I never had in all my life...
Um sentimento estranho que nunca tinha sentido na vida
I understand
Eu entendo
Harry já achava a voz de Louis incrivelmente imponente enquanto ele falava, cantando então, esse homem tinha quem ele queria. O piano acompanhado do som da voz de Tomlinson preenchia o ambiente e, mesmo depois da música ter terminado, Harry mantinha os olhos fixos no outro até ele abrir os olhos e sorrir pra ele com expectativa.
— E então? – Louis perguntou animado enquanto um Harry embasbacado o encarava sem nem saber por onde começar.
— Você fez isso? – O padre disse baixo, extremamente impressionado.
— Sim. – Louis virou-se no banco do piano ficando de frente para onde Harry estava. – Gostou?
Ele não respondeu apenas sorriu aberto, mostrando todos os dentes e inclinando-se na direção de Louis, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Foi a coisa mais incrível que eu já ouvi.
— Não exagere. – Louis riu tímido. – Que bom que gostou. Significa muito pra mim. – A conclusão da frase saiu mais apaixonada do que o esperado.
— E pra quem é? – Harry lembrou-se ao perceber o tom apaixonado de Louise remexeu-se um pouco na poltrona com aquele sentimento de inquietude. – Você disse que era pra alguém especial...
Louis engoliu a seco e riu sem graça. Encarou os próprios pés e pode sentir seu rosto esquentar. Não ia fazer aquilo, não tinha como fazer.
— Está apaixonado? – O padre perguntou com um meio sorriso e, Deus, ele podia jurar que aquele incômodo era ciúmes.
— Completamente. – Ele respondeu se perdendo nos olhos verdes de Harry, com uma pontinha de esperança que ele se desse conta por quem.
— E como é? – Harry perguntou logo em seguida. Lembrou-se dos vários casais que vira durante o caminho até a casa de Louis. – Digo, estar apaixonado...
— Existem muitas maneiras de se descrever. – O mais baixo respondeu sem tirar os olhos de Harry. – Nesse caso, no meu caso, é um amor não correspondido e isso é bastante comum. Mas ainda assim a sensação de não poder fazer nada em relação aquilo que você sente é bastante devastadora. – Louis dizia com propriedade de quem já havia passado por aquilo mais de uma vez.
— Em todos os nossos encontros não vi você mencionar ninguém específico. – Harry levantou a questão já que estava procurando em sua mente quem poderia ser.
— Exatamente. – Louis respondeu sério e viu Harry franzir o cenho.
O padre realmente achou que aquela resposta não fazia sentido e Louis teve que admitir pra si mesmo que era interessante brincar com aquela suposta 'inocência' do moreno alto.
— Você tem noção de que não está fazendo sentido, não é? – Harry riu enquanto realmente se esforçava pra entender.
O olhar fixo de Louis fazia ele sentir-se estranho. Ele pigarreou e ajeitou-se na poltrona de novo.
Aquele incômodo, aquela sensação estranha e, se antes ele não reparava na mania que Louis tinha de toda hora passar a língua pelos lábios, agora não teve mais como não notar.
Ele fazia aquilo o tempo todo.
— Está fazendo sim. – Tomlinson respondeu mais pra si mesmo do que para o padre.
— Sacerdote Jeffrey chamou minha atenção hoje. – Harry respirou fundo e sorriu de canto.
— Se comportou m*l? – Louis brincou rindo e arqueando uma sobrancelha.
— Ele mencionou que as pessoas podem estar interpretando m*l a minha relação com você. – Harry disse indiferente, mas Louis ficou sério e ligeiramente mais pálido.
Ele mudou completamente de expressão e chegou a parecer m*l humorado. Que ótimo. Era tudo o que precisava. Um bando de beata fazendo fofoca.
— Não vou a lugar nenhum, Lou. – Harry acrescentou ao ver a expressão de desagrado do outro. – Não vou me afastar de você se é o que está pensando.
Louis relaxou, mas ainda não gostou do que ouviu. Ele não era das pessoas mais calmas do mundo, tinha uma ironia e um sarcasmo únicos. Já sentia que era repreendido o suficiente por sua condição s****l, não precisava de mais um escândalo religioso pra piorar.
— Ei, Lou... – Harry percebeu a expressão não muito satisfeita de Louis e sentou-se mais pra frente, ficando mais perto dele, segurando em uma de suas mãos e tentou mudar o foco da conversa. – Posso te perguntar uma coisa?
— Claro. – Mas ele estava preocupado demais sentindo as mãos de Harry sob a sua. Sempre acontecia aquilo, mas ele nunca iria se acostumar.
— Como... a gente se sente... quando beija na boca? – O padre perguntou extremamente tímido, mas curioso. Com tantos casais a sua frente, parecia algum complô, não teve como ele tirar aquilo da cabeça.
— O que? – Louis riu extremamente surpreso. Era a única reação quando se discutia aquilo com um padre.
— Que foi? Curiosidade. – Harry riu ainda mais sem graça.
— Não, eu sei... é só que... não esperava por essa pergunta. – Lous disse sincero e levemente acanhado, era uma explicação difícil de dar – Vou tentar explicar. – Ele passou a língua pelos lábios de novo e viu que Harry olhou diretamente pra lá.
Se ele já se sentia estranho por estar naquela situação, de mão dada com um padre, na sala de sua casa e falando sobre paixão e beijos na boca, aquele olhar, direto para seus lábios deixou tudo ainda mais confuso, e Louis poderia jurar que se seu médico tirasse sua temperatura, ia querer interná-lo imediatamente. Sentia-se queimar por dentro.
— Eu acho que qualquer explicação que eu dê vai ser técnica demais, Harry. Explicar um beijo é como tentar explicar o amor. Milhares de adjetivos, mas nenhuma emoção. Pode me chamar de um romântico bobo, mas não acredito nisso de beijar por beijar, apenas colar lábios, violentar a boca do outro com a língua e deixar as salivas se misturarem.
O padre se perdia entre o olhar de Louis e as palavras que saíam de sua boca. Então, ele continuou.
— Mas quando tem sentimento... E os lábios se tocam pela primeira vez, é como se cada um envolvido no beijo pudesse alcançar a alma do outro. É macio, terno, algumas vezes inseguro ou até mesmo urgente. Como se as almas estivessem em corpos trocados. E só com um beijo elas seriam capazes de achar o caminho de volta para casa.
Com a mão que não estava presa entre as do padre, Louis dedilhava algumas notas ao piano e continuava a explicação.
— Quando você beija alguém que ama, Hazz, é como se finalmente encontrasse o seu lugar no mundo. Não é só a textura da pele que você toca com a ponta dos dedos, enquanto acaricia a nuca e mantém os rostos unidos. Não é apenas o calor das línguas brincando uma com a outra. É muito mais... É como se tudo a sua volta deixasse de existir, de fazer ruído, e só a melodia da respiração entrecortada e dos corações disparados fizesse algum sentido.
Os olhos de Louis brilharam, com uma intensidade que Harry ainda não havia reparado e ele concluiu:
— Você disse que a música que eu fiz era incrível. Aquilo foi um beijo, padre. Um beijo para a alma. Apesar de eu achar que a quatro mãos os acordes teriam sido melhores. – ele apertou de leve os dedos do moreno. – Beijar, se apaixonar é como tocar piano. Uma arte tão cheia de emoção capaz de te fazer perder o senso do que é certo e errado e arrebatar de uma vez toda nossa alma.
Louis estava tão concentrado falando a respeito e olhando para um Harry completamente perdido em pensamentos que ele pagaria o preço que fosse apenas para ler o que estava na mente dele naquele momento, que ele nem percebeu o quão perto Harry já estava.
— É assim... tão incrível? – O padre sussurrava tão baixo por estar tão perto do rosto de Louis, que agora m*l conseguia respirar diante daquilo.
Mas Louis m*l teve tempo pensar no que aquela proximidade significava. A boca de Harry já tinha calado seus pensamentos e paralisado qualquer reação do pianista. Louis estava tão surpreso que nem sabia se estava correspondendo direito, mas aquilo era melhor do que todas as vezes que ele tinha imaginado. Nenhuma de suas fantasias fazia jus ao quanto àquilo era bom.
Harry se deixou levar completamente pelo momento. Não pensou em absolutamente nada, até porque as palavras do outro e a forma como a boca dele se movia enquanto falava, o calor de sua mão, o tom da voz... Não tinha nada e nem ninguém que pudesse impedir Harry de roubar um beijo daquele homem.