A cozinha ficou em silêncio por alguns segundos depois da pergunta dele.
Mas não era um silêncio vazio.
Era pesado.
Denso.
Daqueles que parecem ocupar espaço.
Mariana ainda estava com um copo na mão, parada no meio do movimento, tentando fingir normalidade — o que claramente não estava funcionando.
Miguel não tirava os olhos dela.
E isso começava a incomodar.
Ou pior… não incomodar do jeito que deveria.
— Você tem medo de mim — ele repetiu, dessa vez mais calmo, como se estivesse só… confirmando.
Mariana soltou um ar pelo nariz, desviando o olhar enquanto colocava o copo no armário.
— Eu disse que tenho um pouco. Já não é suficiente?
— Pra alguém na sua situação, não.
Ela fechou o armário com mais força do que precisava e virou pra ele.
— E qual seria “a minha situação”, exatamente?
Miguel não respondeu na hora. Deu um gole na água, como se tivesse todo o tempo do mundo.
— Você trabalha na minha casa, depende de mim financeiramente, sabe coisas que não deveria… — ele deu de ombros — acho que isso já responde.
Mariana cruzou os braços, encarando ele de volta.
— Engraçado. Porque, olhando assim, parece que quem deveria estar preocupado é o senhor.
Aquilo fez ele sorrir de leve.
Mas não foi um sorriso qualquer.
Foi daqueles que aparecem quando algo interessa de verdade.
— E por que eu estaria preocupado?
Ela deu um passo na direção dele, sem nem perceber direito que estava fazendo isso.
— Porque eu tô aqui dentro, vejo o que acontece, escuto o que não devo… e mesmo assim o senhor me trouxe pra mais perto.
Silêncio.
Miguel abaixou a garrafa devagar.
— Você acha que foi um erro?
Mariana sustentou o olhar dele.
— Eu acho que o senhor ainda não decidiu.
Aquilo acertou em cheio.
Deu pra ver.
O olhar dele mudou um pouco. Ficou mais atento. Mais… presente.
Ele deu um passo pra frente.
Depois outro.
Sem pressa.
Como se quisesse ver até onde ela ia aguentar.
— E você? — ele perguntou, parando perto o suficiente pra mudar o ar entre eles — já decidiu?
O coração dela disparou.
Mas ela não recuou.
— Sobre o quê?
— Sobre ficar.
Mariana respirou fundo.
Devagar.
— Eu já tô aqui.
— Isso não responde.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— O senhor faz muitas perguntas pra quem já parece saber tudo.
— Eu gosto de ouvir da pessoa.
— Ou gosta de pressionar até ela ceder?
Miguel soltou um pequeno riso.
Baixo.
Perigoso.
— Você não cede fácil, né?
— Não pra qualquer um.
Silêncio de novo.
Mas dessa vez mais quente.
Mais próximo.
Mais… perigoso.
Ele chegou ainda mais perto.
Agora não tinha espaço.
Mariana sentiu o corpo inteiro reagir, mesmo tentando manter a postura firme.
— Você fala isso olhando pra mim… como se não tivesse medo nenhum — ele disse, mais baixo.
Ela sustentou o olhar.
— E o senhor fala comigo assim… como se isso fosse só um jogo.
— Talvez seja.
— Pra mim não é.
Aquilo mudou o clima por um segundo.
Mas não o suficiente pra esfriar.
Miguel levantou a mão devagar.
E aí sim…
Ela travou.
Não de medo.
De expectativa.
Ele não tocou.
Parou a poucos centímetros do rosto dela.
Como se estivesse testando o limite.
— Você sabe que isso aqui é uma péssima ideia, né?
A voz dele saiu mais baixa.
Mais rouca.
Mariana quase soltou um riso nervoso.
— Sei.
— E mesmo assim não saiu.
— O senhor também não.
Os dois ficaram se encarando.
Respiração próxima.
Olhos presos.
E aquele espaço mínimo entre eles parecia… elétrico.
Miguel desceu o olhar lentamente.
Pros lábios dela.
Sem disfarçar.
Sem fingir.
Mariana percebeu.
Claro que percebeu.
E o corpo dela respondeu na hora.
Um calor subindo, um nervosismo diferente… uma vontade estranha de não sair dali.
— Isso complica tudo — ele murmurou, mais pra si mesmo do que pra ela.
— Então para.
— Você quer que eu pare?
A pergunta veio direta.
Sem filtro.
Mariana ficou em silêncio por um segundo.
Dois.
— Eu quero manter meu emprego.
Ele sorriu de lado.
— Você sempre responde assim?
— Assim como?
— Fugindo do que eu realmente pergunto.
— Eu tô respondendo exatamente o que preciso.
— Não. Você tá se protegendo.
Ela respirou fundo.
E aí deu um passo pra trás.
Finalmente criando distância.
Mas o clima não quebrou.
Nem um pouco.
— E o senhor devia fazer o mesmo.
Miguel observou.
— Eu não costumo me proteger.
— Eu percebi.
Ela passou a mão no braço, tentando disfarçar o próprio nervosismo.
— Mas devia.
— Por sua causa?
Ela deu um meio sorriso.
— Também.
Silêncio.
Mas agora era outro tipo.
Mais controlado.
Mais consciente.
Como se os dois tivessem entendido exatamente o que tava acontecendo… e decidido não atravessar a linha.
Ainda.
— Eu vou subir — ela disse, virando levemente o corpo.
Miguel não impediu.
Mas também não desviou o olhar.
— Mariana.
Ela parou.
Sem virar.
— Cuidado.
Ela soltou um pequeno riso, quase sem humor.
— Engraçado… todo mundo me fala isso.
— E você nunca escuta.
— Talvez eu goste de complicar minha vida.
— Talvez você não tenha ideia de onde tá se metendo.
Ela virou o rosto por cima do ombro.
— E talvez o senhor também não.
Aquilo ficou no ar.
Pesado.
Bonito.
Perigoso.
Ela saiu da cozinha sem pressa.
Mas só quando virou o corredor deixou o ar escapar de verdade.
O coração ainda disparado.
A pele quente.
E uma sensação que ela não queria nomear.
Lá dentro, Miguel ficou parado.
Olhando pro nada por alguns segundos.
Depois passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro baixo.
Ele já tinha lidado com negociações milionárias, crises internacionais, riscos reais.
Mas aquilo…
Aquilo era diferente.
Porque não dava pra controlar.
E pior…
Ele não tinha certeza se queria controlar.